Capítulo 3

POV de Kyra

— Acho que você me deve uma explicação, Nathan. Por que trocou a modelo? — falei entre dentes, indo direto até ele.

Nathan sabia muito bem o quanto eu tinha me esforçado para conseguir aquele projeto. Eu quase não tinha dormido nos últimos dias, e a Sra. Chen era a candidata ideal. Ele mesmo tinha concordado comigo.

Agora, porém, tinha trocado a modelo sem nem me avisar. Tudo para arrumar um trabalho para a ex.

Aquilo foi como um tapa na minha cara.

— Podem continuar o trabalho. Eu vou esclarecer as coisas com ela — disse Nathan à equipe, ignorando a fúria estampada no meu rosto.

Eu fervia de raiva. Ainda mais quando vi Sophia ao lado dele, com o mesmo sorriso de deboche que usava para transformar minha vida num inferno no ensino médio.

— Me responda, Nathan! Por que trocou a modelo de repente?

Eu já não conseguia controlar a raiva. Ele apenas tocou meu ombro e sussurrou:

— Não é lugar para conversarmos. Deixe que eu explico no carro.

Olhei ao redor e percebi várias pessoas nos observando de esguelha. Afastei a mão dele e segui para o estacionamento.

Eu já sabia que não gostaria da explicação.

— Agora pode falar — disparei assim que entramos no carro.

Nathan me encarou, como se tentasse avaliar minhas emoções. Desviei os olhos. Já não aguentava aquele olhar. Ele nunca me enxergava da maneira como eu queria.

Não sentia nada por mim.

E aquilo doía demais.

— Eu... eu... — Ele hesitou e soltou um suspiro. — Substituí a Sra. Chen porque Sophia queria ser nossa modelo. Ela também se encaixa no perfil, então concordei...

— O quê? — perguntei, incrédula.

Nathan cerrou os lábios e desviou o rosto. Passou a mão pelos cabelos, balançou a cabeça e segurou minha mão.

— Sinto muito por não ter contado antes. Aconteceu tudo de repente. Ela me pediu esse favor, e eu não consigo dizer não.

Puxei a mão de volta. Dor e raiva se misturavam dentro de mim.

— Você não consegue dizer não para ela, então prefere prejudicar a empresa? A nossa empresa? Você me traiu, Nathan.

— Kyra, qual é... Você sabe o quanto a Sophia significa para mim. Ela foi meu primeiro amor.

Fechei os olhos, ferida.

Ah, claro. Ela era o primeiro amor dele. Era sempre Sophia que ele queria, não importava o preço. Bastava ela franzir a testa para Nathan ignorar a dor e o esforço de qualquer outra pessoa. Ele daria tudo a ela, mesmo depois de ela tê-lo rejeitado.

Mas e eu? E a alcateia?

Como você pode ser tão insensível, Nathan?

— Bem, você já tomou sua decisão. Já que você é o presidente, minha opinião não deve importar mesmo. Pode ir. Eu vou voltar para o escritório — falei com frieza, abrindo a porta do carro.

— Kyra...

Encarei os olhos dele.

— Volte cedo para casa. Vamos conversar sobre a rejeição hoje à noite.

Quando retornei ao escritório, encontrei Sophia na sala de descanso, tomando café.

Assim que entrei, ela me lançou um olhar debochado.

— Nunca imaginei que você realmente se casaria com Nathan. Parece que a Cinderela conseguiu mesmo fisgar o Príncipe Encantado.

Meu rosto ficou sério.

— Foi você quem o rejeitou. Por que voltou rastejando agora?

O sorriso de Sophia se alargou, cheio de satisfação.

— Porque eu ainda o amo, e ele me queria. Foi por isso que voltei. Mas você... coitadinha. Passou três anos sem mim e mesmo assim não conseguiu conquistá-lo. Algumas coisas nunca mudam. Você continua sendo a mesma perdedora desesperada do ensino médio.

A voz de Sylvia trovejou na minha mente, tomada por uma fúria selvagem.

"Aquela vadia... Espere só até eu fazê-la chorar!"

Respirei fundo e lutei para conter a explosão de Sylvia. Então encarei Sophia com um sorriso firme e sereno.

— Mesmo que Nathan não me ame, nossas posições são perfeitamente compatíveis — respondi, num tom calmo, porém decidido. — Agora sou a Luna dele e controlo uma parte significativa da empresa. Mesmo que nos separássemos, eu sairia desse casamento com uma fortuna. E, sinceramente, acha mesmo que, depois que Nathan me rejeitar, a família dele e a alcateia receberiam você de braços abertos? Pelo que sei, sua família e a influência da sua alcateia não chegam nem perto das minhas. Então me diga: quem é realmente a Cinderela dessa história?

Deixei a sala de descanso a passos largos.

Pouco depois, ouvi uma xícara se espatifar.

Minhas palavras tinham acertado um ponto sensível de Sophia. Ainda assim, no fundo, eu sabia que ela estava certa.

Enquanto Nathan a amasse, eu sempre seria a perdedora daquele triângulo amoroso.


Girei a aliança no dedo, inquieta.

Eu tinha pedido a Nathan que voltasse cedo, mas ele nem sequer apareceu em casa. Também não respondeu às minhas tentativas de contato pelo elo mental nem às minhas ligações.

Agora que Sophia tinha voltado, aquela casa provavelmente já não era um lar para ele.

Meu olhar caiu sobre o resultado do exame de gravidez em cima da mesa.

Que ironia.

Eu tinha sido ingênua o bastante para acreditar que tudo poderia mudar se contasse a Nathan sobre o filhote. Precisava esquecer aquela ideia. Afinal, o filhote nunca tinha feito parte dos planos dele.

É claro que Nathan não me rejeitaria se soubesse da gravidez. Mas também não conseguiria abrir mão da obsessão por Sophia. Talvez permanecesse naquele casamento sem amor se os pais insistissem, mas tudo o que eu teria ao meu lado seria uma casca vazia.

Não era esse o pai que eu queria para meu filhote.

Quando olhei para o relógio na parede, já eram cinco da manhã. Tentei ligar mais uma vez, mas só chamou.

O que ele estava fazendo?

Estava ocupado fazendo amor com Sophia?

Devia ter sentido muita falta dela, não é?

Eu ainda me lembrava do dia em que Nathan voltou da primeira viagem a sós que tinham feito juntos. A felicidade dele era impossível de esconder. Percebi quase na mesma hora que eles tinham feito amor.

Naquele dia, voltei para o quarto e chorei enquanto tirava a maquiagem.

Nada do que eu fazia adiantava.

Eu jamais ocuparia o lugar de Sophia no coração dele.

Era como se um peso enorme esmagasse meu peito. Decidi tomar um banho para me livrar de toda aquela angústia, mas, assim que abri o guarda-roupa, vi nossas roupas íntimas acomodadas lado a lado.

A imagem me trouxe de volta à última vez em que Nathan e eu tínhamos feito sexo ali.

Naquela vez, ele não tinha usado proteção. Tinha sido tão intenso e apaixonado que cheguei a pensar que finalmente estava aceitando nosso casamento. Acreditei que sua volta daquela viagem de negócios marcaria um novo começo para nós.

No fim, foi o início da nossa separação.

Nem me lembrava de como tinha adormecido. Quando o despertador tocou, estendi a mão instintivamente para o travesseiro ao lado.

Estava frio, assim como na noite anterior.

Nathan ainda não tinha voltado.

Soltei uma risada amarga ao ver meu reflexo no espelho da penteadeira. As olheiras estavam profundas, e o cabelo, completamente desgrenhado. Eu parecia um fantasma.

"Kyra, não quero ver você sofrendo desse jeito. Se continuar insistindo no caminho errado, só vai acabar se destruindo. Deixe-o ir e poupe a si mesma. Seu filhote precisa de uma mãe forte", aconselhou Sylvia.

De repente, uma onda de náusea revirou meu estômago. Foi então que percebi que não tinha comido nada na noite anterior.

O enjoo voltou com força. Corri até a pia e vomitei um líquido amarelado. Enquanto enxaguava a boca, senti uma mão quente acariciar minhas costas.

Levantei a cabeça de imediato.

Pelo espelho, encontrei um par de olhos castanhos me observando.

Meu companheiro, Nathan, estava parado atrás de mim, com uma expressão preocupada.

— Você está bem? Está passando mal? Devia ter me contado.

Continuei encarando o reflexo dele.

— Você não atendeu às minhas ligações.

A culpa passou pelos olhos de Nathan.

— Sinto muito. Eu tinha algumas coisas para resolver. Passei a noite inteira no escritório.

Sequei o rosto e passei por ele.

Nathan veio atrás de mim.

— Kyra...

— Acordei tarde. Não preparei o café da manhã.

Evitei encará-lo. Sentia que perderia a paciência a qualquer momento.

Nunca tinha percebido o egoísmo dele com tanta clareza. Nathan me chamava de melhor amiga, mas nunca se importava com o que eu precisava.

Com os meus sentimentos.

— Kyra... Você sabe que não estou perguntando sobre o café da manhã. Só estou preocupado com você...

Ele hesitou.

— Kyra, ainda está tudo bem entre nós?

Ele estava mesmo me perguntando aquilo?

Depois de propor a rejeição sem nem querer saber se eu concordava? Nathan tinha decidido tudo sozinho só porque seu primeiro amor havia reaparecido.

Eu não conseguia acreditar nele.

Forcei um sorriso.

— Só não estou me sentindo bem hoje, Nathan.

Ele se agachou imediatamente ao meu lado. Aquilo não me surpreendeu, pois eu sabia que ele realmente se importava comigo.

O que eu não entendia era por que ainda agia assim depois de esmagar meu coração.

— Você está bem? — Tocou com cuidado minha testa e meu pescoço. — Está doente? Me diga o que está sentindo, Kyra.

— O que eu sinto não importa — deixei escapar.

Nathan pareceu chocado.

Tentei me afastar, mas ele agarrou meu pulso e me obrigou a encará-lo. A raiva em seu rosto deixava claro que sua paciência tinha chegado ao fim.

— O que está acontecendo com você, Kyra? Está assim desde ontem. É por causa de Sophia? Ou porque não voltei para casa ontem à noite?

Sustentei o olhar dele, irritada.

— Foi você quem pediu a rejeição! Eu mandei que voltasse cedo, mas você me deixou esperando a noite inteira. Como esperava que eu o recebesse esta manhã, Nathan?

Ele travou a mandíbula e balançou a cabeça.

— Kyra, eu...

— Chega. Podemos conversar sobre a rejeição depois do trabalho.

— Kyra! — Nathan agarrou meus ombros. Havia confusão e dor em seus olhos. — Você... está apaixonada por mim?

Fiquei paralisada.

Apaixonada?

Sim!

Desde o ensino médio. Desde que ele tinha se tornado meu melhor amigo. Afinal, quem não se apaixonaria por alguém que sempre a protegeu?

Mas eu não podia contar.

Aquilo só tornaria tudo mais complicado. Eu não queria a pena dele.

Balancei a cabeça e me livrei dos braços de Nathan.

— Você está louco? Não estou apaixonada por você. O que temos é apenas uma parceria. A única diferença é que não tive a mesma sorte que você. Nunca encontrei meu companheiro predestinado.

Dei as costas para ele e voltei ao banheiro. Tranquei a porta e me deixei cair ao lado da banheira.

Eu precisava me concentrar em mim mesma. Não podia continuar permitindo que minhas emoções me controlassem.

Então por que as lágrimas voltavam a cair?

Sylvia uivou dentro da minha mente:

"Kyra! Você não consegue nem contar a ele o que realmente sente."

Enxuguei as lágrimas, furiosa comigo mesma.

Demorei quase uma hora no banho. Quando terminei, Nathan já tinha ido embora.

Ele continuava me abandonando.

Eu nunca imaginei que nossa separação chegaria àquele ponto.


— Bom dia, Sra. Monroe...

— Bom dia, vice-presidente...

Não respondi aos cumprimentos como costumava fazer. Ainda me sentia péssima, e meu humor estava horrível. A irritação tomava conta de mim com facilidade, fugindo ao meu controle.

Talvez fosse por causa da rejeição de Nathan.

Ou da gravidez.

Eu estava prestes a entrar no escritório quando ouvi duas garotas conversando.

— Você viu aquela mulher? Aposto que é a namorada do Sr. Anderson. Os dois pareciam bem próximos.

Franzi a testa.

A namorada de Nathan?

— Ai! É a Sophia.

— Sophia? Sophia Gilbert, a modelo?

— Sim! Apostaria meu salário inteiro desse mês. Eles formam um belo casal.

— Qual é! A Sra. Monroe e o Sr. Anderson combinam muito mais.

— Você está falando sério? Eles são melhores amigos. Algumas pessoas dão mais certo só como amigas. É o caso do Sr. Anderson e da Sra. Monroe.

Fechei os olhos com força e entrei no escritório. Fechei a porta devagar e me apoiei nela.

Aquilo era ainda mais difícil do que eu tinha imaginado.

Respirei fundo e me sentei na cadeira giratória. Mal tinha ligado o computador quando uma notificação surgiu na tela do celular.

Minhas mãos começaram a tremer assim que a vi.

Nathan tinha acabado de postar nas redes sociais.

Era uma foto dele e de Sophia, comendo juntos em um restaurante sofisticado.

Fechei as mãos com força e cerrei os dentes.

É claro que eu nunca conseguiria competir com ela pelo coração dele.

Sophia sempre viria em primeiro lugar.

E, para Nathan, eu sempre seria a última.

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