Capítulo 3 — O Homem que Não Deveria Estar Aqui

Na quarta-feira, o Gabriel voltou.

Eu estava na triagem quando eles entraram — a mãe dele, a mesma do casaco que ela nunca tira, e o menino no colo dela com a febre que não tinha baixado direito nem com os remédios que mandamos para casa. Eu me lembro do rosto dela porque era o mesmo rosto que eu tive durante a primeira febre de Miguel, aquele rosto que não quer mostrar o desespero para não assustar a criança mas que está desesperado de qualquer jeito.

— Voltou a subir — ela disse. — Trinta e nove e dois agora.

Eu registrei. Chamei o plantão pediátrico. O médico de plantão veio avaliar — não era Pedro, era outro residente —, pediu novos exames, passou para internação provisória enquanto aguardava resultado. Eu acompanhei o processo, anotei tudo, verifiquei o leito.

Era um dia comum de quarta-feira no Hospital Municipal São Lucas, que é o único hospital num raio de três quilômetros daquele bairro do Ipiranga, que atende em média duzentos e quarenta pacientes por dia, que tem quarenta e dois leitos ativos para uma demanda de sessenta.

Era um dia comum. E então não era mais.

Às quatorze horas, entrou pelo corredor principal um homem que eu reconheci pelos ombros antes de ver o rosto.

Lucas Costa não tinha mudado tanto. Três anos é tempo suficiente para mudar um rosto e não foi o que aconteceu com ele. Continuava alto — um metro e oitenta e algo, sempre fez questão disso —, continuava com o queixo forte e os cabelos escuros começando a ter um ou dois fios brancos nas têmporas que na verdade combinavam com o terno cinza que ele estava usando. Estava com o celular na mão. Sempre estava com o celular na mão.

Ao lado dele, de jaleco branco e estetoscópio no pescoço, estava uma mulher bonita de uns vinte e nove anos com cabelo preso e expressão de alguém que costuma resolver problemas.

Dra. Fernanda Alves. Eu sabia quem ela era porque a internet existe e eu não sou de ferro: oito meses atrás, quando apareceu nos grupos de ex-alunos da faculdade uma foto de Lucas Costa "noivo de médica brilhante", eu fiquei olhando para a foto dois minutos antes de fechar o aplicativo e nunca mais abrir esse grupo.

Dra. Fernanda Alves, pediatra, consultora do Hospital Pediátrico Boa Vista, noiva de Lucas Costa há seis meses.

E ela estava no meu hospital porque — eu processiei isso em frações de segundo — ela devia estar aqui como consultora externa. Para o caso de uma criança com febre persistente que precisava de especialista pediátrico.

Para o Gabriel. Ela estava aqui pelo Gabriel.

E Lucas tinha vindo com ela.

Eu fiz o que precisava fazer: voltei para a mesa de enfermagem, coloquei a cabeça para baixo, e comecei a fingir que tinha algo muito urgente para fazer nos prontuários. Meu coração estava batendo rápido de um jeito que eu não me deixava reconhecer. Três anos. Eu tinha três anos de prática naquele corredor de fluorescente, três anos de aprender a separar o que eu sentia do que eu precisava fazer. Eu era boa nisso.

Mas então eu ouvi a voz dele.

Não para mim. Para a Dra. Fernanda. Baixa, controlada. A mesma voz das três da manhã.

— Quantos leitos tem aqui?

— Quarenta e dois ativos — ela respondeu. — SUS, Lucas. É assim.

— Tem como transferir o paciente para o Boa Vista?

— Se fechar diagnóstico e indicar, sim. Mas primeiro preciso avaliar.

Eles passaram pelo corredor em direção ao leito do Gabriel. Eu não levantei os olhos. Continuei nos prontuários. Fiz isso por dezoito minutos — eu contei, de algum jeito absurdo eu contei — até que tinha que ir verificar o soro de um paciente no outro corredor, o que me levou a passar pela porta do leito do Gabriel, que estava semiaberta.

Dra. Fernanda estava examinando a criança. Lucas estava do lado de fora, no corredor, olhando para o celular.

Eu deveria ter dado meia-volta. Deveria ter ido por outro caminho. O hospital tem três corredores e eu sei todos de cor.

Mas naquele momento, do corredor, a porta do leito da frente estava aberta, e pela porta eu vi Miguel.

Não era o Miguel. Era o Gabriel, claro. Era o Gabriel deitado na maca com a mãe ao lado. Mas havia um menino de três anos com febre e olhos grandes naquela maca, e por um segundo que não deveria ter existido, o meu cérebro fez uma coisa que eu não pedi: me mostrou Miguel.

Eu parei. Por um segundo, só um segundo, eu parei.

E Lucas Costa levantou os olhos do celular.

Ele me viu.

O processo de reconhecimento levou uns três segundos — vi quando aconteceu, vi a expressão mudar, vi ele piscar como se estivesse calibrando alguma coisa. Então:

— Ana?

Minha voz saiu estável. Aprendo a ser estável.

— Dr. Costa — eu disse, porque ele era o acompanhante de uma médica no meu hospital e eu era profissional. — A Dra. Fernanda está com o paciente, ela deve terminar em breve.

Eu virei para ir embora.

— Ana — ele disse de novo, diferente. Não era a voz de reunião. Era outra voz. — Espera.

Eu devia ter continuado andando. Eu continuaria andando se naquele momento exato ele não tivesse olhado para dentro do leito, onde a criança de três anos estava deitada, e a luz do corredor não tivesse batido do ângulo certo.

Eu vi quando ele viu.

Vi quando os olhos dele foram do rosto do Gabriel — castanho, grande, exatamente o tipo de rosto que meninos de três anos têm — para o meu rosto. E de volta. E de novo.

Os olhos do Gabriel eram castanhos e grandes. Os olhos de Miguel eram castanhos e grandes. Os olhos de Lucas Costa eram castanhos e grandes.

E eu vi no rosto de Lucas o momento em que alguma coisa clicou, alguma conta que ele não queria fazer mas que fez de qualquer jeito: três anos. Ela foi embora grávida. Esse menino teria...

Ele se virou para mim devagar.

E começou a caminhar na minha direção.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo