Capítulo 6
POV de Kelly
Saí e fui até o quarto. Peguei um travesseiro e um cobertor. Me virei para sair quando Pierce entrou e olhou para mim.
“Aonde vai?”
Olhei para ele com dureza. “Por que se importa?”
“Me importo porque você é minha esposa, Kelly!”
Uma risada sarcástica escapou dos meus lábios ao ouvir o que ele disse. Olhei para ele cheia de fúria. “Vamos nos divorciar de qualquer jeito.”
“Kelly, você não pode simplesmente fugir assim. Precisamos conversar sobre o nosso problema.”
“Não tenho problema nenhum, Pierce. Foi você quem criou todo esse problema, só para lembrar.”
Quando tentei sair, ele segurou meus pulsos e me impediu de andar. A mandíbula dele estava apertada, e os olhos me fitavam com raiva. “Meu pai está furioso, Kelly. Ele está me acusando de te trair.”
Inclinei a cabeça. “E você não está?”
Ele franziu a testa. “Eu não sou um canalha, Kelly. Você me viu beijando ela ou dormindo com ela? Ainda tenho juízo. Não me envolveria com ela enquanto você carregar o meu nome —”
“Falando francamente, não carrego o seu nome, Pierce,” o interrompi. Ele ficou surpreso com as minhas palavras. “Ninguém nem sabe que somos casados.”
“Kelly!”
“Não se preocupe. Vou conversar com a sua família sobre isso. Vou dizer que já não sou mais feliz ao seu lado e que quero o divórcio.”
Ele engoliu em seco e olhou profundamente nos meus olhos. “V-Você faria isso por mim?”
Ri sem nenhum humor. “Faria isso por mim mesma.”
“Espera, Kelly…”
Empurrei a mão dele e lancei um olhar gélido. “O quê?”
Ele baixou os olhos e lambeu os lábios. Naquele momento, parecia realmente culpado. Por um instante, vi o homem por quem me apaixonei. Vi o meu melhor amigo.
Suspirou e caminhou na minha direção. Segurou meu pulso com gentileza, envolveu os braços ao redor do meu corpo e me deu um abraço caloroso, cheio de desculpas.
Senti ele beijando o meu cabelo enquanto murmurava: “Desculpa… E-eu fui idiota por descarregar tudo em você. Eu só… estava preocupado com a Lexi. Você conhece meu pai, ele destruiria ela.”
Fechei os olhos com força. Você tem medo de que ela seja destruída, mas não liga que isso esteja me destruindo.
Quero dar um soco nele. Quero machucá-lo, bater na cabeça dele — quem sabe assim ele finalmente acorde.
“Fica aqui, por favor. Dorme ao meu lado, Kels…”
Essa foi a minha deixa. Empurrei ele e abracei o travesseiro com mais força. Olhei bem nos olhos dele e balancei a cabeça. "Não tem por que a gente dormir junto, Pierce. Vou ficar no quarto de hóspedes."
"Kels..."
Virei as costas e deixei ele sozinho no quarto principal. Fui direto para o quarto de hóspedes e me joguei exausta na cama. Toquei o meu rosto, achando que estava chorando de novo sem perceber, mas não havia lágrimas.
Estou sofrendo, mas as lágrimas não saem mais. Será que essa é aquela fase do coração partido em que a gente se acostuma com a dor e acaba aceitando ela? Patético! Sei que isso é pura autopiedade.
"Kels..." A voz de Pierce veio logo atrás de três batidas na porta. Ele tentou abrir, e fui muito idiota de esquecer de trancar.
Ele entrou segurando uma bandeja com comida. Apertou os lábios e caminhou até mim. Parou ao lado da cama e olhou para baixo, como se estivesse testando qual seria a minha reação.
"Trouxe o seu jantar. Já esquentei. Desculpa te incomodar."
Meus olhos foram direto para a bandeja. Ele nunca me deixava comer sozinha antes. Mesmo se já estivesse cheio, sempre me acompanhava, ainda mais quando eu mesma tinha cozinhado.
Uma amargura tomou conta do meu coração. Para de revirar o passado, Kelly! Essas memórias são só ilusão. Aqueles momentos foram todos emprestados.
Ele suspirou, colocou a bandeja na mesinha de cabeceira e me olhou de novo. "A mãe mandou mensagem. Convidou a gente para jantar amanhã à noite. Espero que você possa ir comigo."
"É óbvio que o assunto somos nós. Eles iam desconfiar se eu não aparecesse. Além disso, já passou da hora de contar sobre o nosso divórcio."
Ele sentou na cama e ficou olhando para o meu rosto. Fez de tudo para encontrar o meu olhar. Usou até os dedos para levantar o meu queixo, forçando nossos olhos a se cruzarem.
Mesmo quando ele me machucava, um simples toque, um gesto de carinho ou um olhar dele me fazia tremer inteira e me deixava vulnerável. Bastava uma palavra reconfortante para parecer que todas as minhas feridas começavam a cicatrizar.
"Desculpa, Kels... Por favor, me perdoa. Para começo de conversa, eu não devia ter aceitado casar com você. Sei que só vou te magoar. Desculpa..."
Escondi as mãos fechadas em punho atrás das costas. "Você se arrepende de ter casado comigo?"
Ele balançou a cabeça. "Não me arrependo do casamento. Fui muito feliz nesses três anos, Kels. O que me arrependo é de ter te colocado numa situação em que só você sai machucada. Você é a minha melhor amiga. Jurei te proteger, mas, no fim das contas, sou eu quem te magoa."
Desviei o olhar. Bom saber que ele reconhecia o erro. O triste é que ele não tinha a menor noção do estrago que fez. Nem percebeu que era apaixonada por ele. Achava que eu também só via ele como um melhor amigo.
Todos à longa mesa de jantar estava em silêncio. Eu estava sentada ao lado de Pierce. No centro da mesa estava o pai de Pierce. Na frente de Pierce estava sua mãe, e Phoebe, a irmã mais jovem de Pierce, não veio ao jantar de família hoje por causa dos treinos na escola.
"É melhor a gente comer primeiro," a Sra. Anderson limpou a garganta e sorriu para mim.
Devolvi o sorriso mais doce do mundo. Ela sempre foi a sogra perfeita. Eu respeitava e sempre ia respeitar ela, mesmo depois de tudo isso. Na verdade, ela era a melhor amiga do meu pai.
Começamos a comer em silêncio. Olhei para Pierce quando ele começou a colocar comida no meu prato. Se eu não conhecesse ele bem, acharia que estava só atuando, mas conhecia. Ele era atencioso por natureza, doce por natureza.
Ficava com água na boca só de ver aquela comida que eu costumava odiar. Queria muito comer, mas sabia que os pais dele iam notar e achar estranho, então me segurei.
"Não sabia que você era um canalha, Pierce." Estávamos no meio do jantar quando Sr. Anderson falou, com um tom de repulsa e raiva pura. Levantou a cabeça e encarou Pierce. "Quer matar a sua avó antes da hora? Se ela escutar uma palhaçada dessas, não seria capaz de aguentar."
"Querido...", a Sra. Anderson acariciou o braço do marido.
Engoli em seco ao ver as mãos de Pierce fechadas em punho debaixo da mesa. Sabia que ele morria de medo do pai desde criança. Sr. Anderson era perfeccionista. Era rígido demais e detestava bagunça.
"Onde foi parar a sua hombridade, Pierce? Você já é casado e ainda se deixa ver por aí com uma vagabunda?"
Pierce estava prestes a falar alguma coisa, espumando de fúria, quando levantei a mão, interrompendo os dois. Ele me machucava, sim, mas não aguentava ver ele sofrendo. Era uma idiotice minha, mas sabia que meu coração sempre ia fazer de tudo para proteger ele. Não só porque era meu marido, mas porque a gente era melhor amigo antes de casar.
"Ele não está me traindo, pai."
"Não defenda ele, Kelly!", o Sr. Anderson me alertou, sério, mas balancei a cabeça.
"Quero o divórcio, pai."
"Meu Deus do céu!", a Sra. Anderson soltou um suspiro e começou a chorar.
"OLHA O QUE VOCÊ FEZ, PIERCE!", Sr. Anderson gritou e deu um soco na cara dele.
"NÃO!", gritei, me metendo na frente do Sr. Anderson quando ele tentou avançar no Pierce de novo.
"Sai do caminho, Kelly. Vou dar uma lição nesse moleque."
"Pedi o divórcio antes mesmo de ele ser visto com a Lexi. E a Lexi é a nova modelo da empresa. Eles estavam trabalhando quando foram flagrados juntos."
Sr. Anderson me olhou de testa franzida. "Como é que é?"
"Kelly...", a Sra. Anderson soluçava.
Olhei para ela e sorri. "Amo o seu filho, mãe, mas não do jeito que a senhora queria. Ele é meu melhor amigo e sinto muito por ter aceitado casar com ele só por causa da vovó. Quero consertar o meu erro. Fui eu que quis o divórcio, então não coloquem a culpa nele."
Todo mundo ficou em silêncio depois que falei. Olhava para cada um ali com firmeza, mas a minha coragem foi sumindo bem devagar quando escutei uma voz vinda logo atrás de mim.
"O que foi que você disse, Kelly?"
