Capítulo 1 Liberdade comercial para a família

[Sera]

Depois de um dia longo de tarefas intermináveis e de trabalhar na lojinha de conveniência da minha família adotiva, minha bochecha ainda ardia por causa do tapa que meu pai adotivo, Harold Walker, tinha me dado por eu ter contado errado o caixa. O banho tinha levado a sujeira, mas não a humilhação. Agora, finalmente sozinha no meu refúgio no sótão, eu podia me concentrar no que realmente importava.

Meus dedos tremiam enquanto eu atualizava a página do e-mail pela centésima vez, ou pelo menos parecia isso. Olhei, nervosa, para a porta do meu quarto — que, na verdade, era só um sótão adaptado, com um colchão no chão e alguns esboços de arquitetura colados nas paredes inclinadas.

Eu precisava tomar cuidado para ninguém descobrir o que eu estava fazendo ali em cima. Se meu irmão adotivo soubesse que eu estava me candidatando para faculdades pelas costas deles, ele ia surtar. Zack vinha fazendo comentários cada vez mais inapropriados ultimamente, me encurralando nos corredores e “sem querer” encostando em mim. O jeito como ele me olhava me dava nojo, fazia minha pele se arrepiar.

Uma brisa fria de outono assobiou pela frestinha da janela, fazendo os recortes de jornal com prédios famosos tremularem na parede. Meu portfólio de projetos tinha levado meses para ficar pronto, em momentos roubados na biblioteca pública, quando eu conseguia escapar de casa. Hoje era o prazo final para as respostas de aceitação.

— Por favor — sussurrei, para ninguém em particular, apertando o pingente em forma de chave que minha mãe tinha deixado para mim. — Essa pode ser a minha única chance de sair daqui.

Quando a página atualizou de novo, um e-mail novo apareceu. Meu coração parou.

De: Universidade Halloway, Departamento de Arquitetura e Design Urbano

Assunto: Decisão da Candidatura

Cliquei com as mãos trêmulas.

Prezada Sera Ginger,

Um suspiro engasgado escapou dos meus lábios antes que eu conseguisse conter. Bolsa integral. Eles estavam me dando uma bolsa integral! Eu não consegui segurar o gritinho de alegria que me escapou enquanto eu lia o e-mail mais três vezes.

Passos pesados ribombaram na escada. Minha porta se escancarou sem aviso, e a figura imponente do meu pai adotivo, Harold Walker, preencheu a entrada, fedendo a uísque barato.

— Que barulho foi esse? Tá fazendo algazarra aí em cima essa hora? — ele resmungou, com a fala enrolada, os olhos vermelhos se estreitando. — Passou da meia-noite, pelo amor de Deus.

Eu tentei fechar o notebook depressa, mas Harold já vinha cambaleando na minha direção, arrancando-o das minhas mãos. Os olhos turvos dele se fixaram na tela, e a expressão mudou de irritação para fúria.

— Faculdade de arquitetura? Bolsa integral? — A voz dele subiu até virar um berro. — Você acha que vai a algum lugar? Você não vai a lugar nenhum, mocinha! A gente investiu demais em você pra deixar você simplesmente fugir!

A voz estridente de Meredith veio em seguida quando ela apareceu na porta.

— O que é toda essa gritaria?

— Olha isso! — Harold enfiou o notebook na direção dela. — A nossa princesinha acha que vai embora da gente!

Nessa hora, passos pesados anunciaram a chegada do Zack. Ele entrou tropeçando no quarto, uma garrafa de cerveja na mão, o cabelo oleoso caindo nos olhos.

— Que foi? — ele murmurou, e então o olhar dele caiu em mim, sentada na cama. Aquele olhar faminto e conhecido voltou a aparecer no rosto dele.

Meredith percebeu na mesma hora.

— Olha só pra ela! Sempre tentando seduzir meu filho! Rebolando por aí com esse pijaminha! — ela gritou, apontando o dedo acusador para mim.

Os olhos de Zack brilharam quando ele viu a tela do notebook.

— Faculdade? Você tá tentando ir embora? — A expressão dele escureceu, e ele deu um passo ameaçador na minha direção. — Acho que não. Você vai ficar bem aqui, ter meus filhos e tocar a nossa lojinha pro resto da vida.

Meu sangue gelou.

— Não, eu não vou… — eu comecei.

"Talvez tenha chegado a hora de eu te mostrar exatamente qual é o seu lugar", ele rosnou, a outra mão vindo na minha direção enquanto me empurrava de volta no colchão.

Foi então que um toque estridente cortou a tensão. O celular do Harold acendeu, vibrando sobre o criado-mudo.

Os olhos injetados de sangue do Harold se arregalaram quando ele olhou para a tela. "É... é o Hector Ginger", ele gaguejou, endireitando a postura de repente.

O quarto ficou em silêncio absoluto. Até o Zack congelou no meio do movimento. Ele me lançou um olhar desconfiado antes de atender. "Alô, senhor Ginger. Que surpresa agradável..."

Meredith soltou um suspiro ofegante e imediatamente alisou o cabelo e a camisola. Ela articulou, sem som: "Seu pai?", e a expressão dela mudou de desprezo para uma doçura falsa num piscar de olhos.

"Sim, senhor... ela está bem aqui, senhor... claro, uma chamada de vídeo seria... a gente configura agora mesmo", Harold se atrapalhou com o celular, como se o estado de embriaguez dele tivesse evaporado diante da ligação do meu pai.

"Desce", ele ordenou, de repente agindo completamente sóbrio. "Seu pai quer te ver. Agora."

Vinte minutos depois, eu estava sentada, dura, na ponta do sofá da sala. Os Walkers me obrigaram a vestir a camisa mais limpa que eu tinha e ainda pentearam meu cabelo. Meredith beliscou meu braço com força. "Sorri. Mostra pro seu pai como a gente cuidou bem de você."

A chamada de vídeo conectou, e minha respiração travou na garganta. Lá estava ele — Hector Ginger. Meu Deus, fazia tanto tempo que eu mal reconheci. Doze anos mudam uma pessoa, eu acho. O cabelo dele tinha alguns fios grisalhos agora, mas aqueles olhos... aqueles eram exatamente os mesmos. Frios. Distantes. Como se ele estivesse avaliando um produto que talvez comprasse.

Tudo parecia tão estranho. Esse homem era pra ser meu pai, mas era praticamente um desconhecido.

Olhando pro rosto dele naquele dia, eu lembrei exatamente por que eu tinha acabado com os Walkers. Não foi porque minha família de verdade não tinha dinheiro pra me manter — foi porque simplesmente não me queria.

Num dia eu tinha uma casa; no outro, fui mandada embora. Tudo por causa da Penelope — que começou como nossa empregada e, de algum jeito, virou esposa dele — não queria o filho de outra mulher por perto depois de garantir o lugar dela. Eu era só o lembrete indesejado do casamento anterior do meu pai.

Ele fez um aceno breve para os Walkers antes de fixar o olhar em mim. Eu me senti um espécime sob um microscópio enquanto os olhos dele percorriam meu rosto. "Você cresceu", ele disse por fim, os lábios se contraindo de leve.

A chamada de vídeo tinha aquela tensão desconfortável de sempre — meu pai, com a cara fechada e formal; eu, tentando não me remexer sob o escrutínio dele. Os Walkers ficaram em silêncio atrás de mim, tensos e atentos.

Meu pai não perdeu tempo com gentilezas. "Está na hora de você voltar pra casa", ele afirmou, olhando direto pra mim.

Meu coração falhou uma batida. Voltar pra casa? Depois de todos esses anos? Uma esperança infantil tremeluziu dentro de mim — talvez ele finalmente tivesse percebido o que fez ao mandar a própria filha embora. Talvez ele tivesse sentido minha falta.

"Eu tenho uma boa notícia pra você", ele disse, com aquele tom familiar, condescendente, como se estivesse me concedendo um grande favor. "Neste fim de semana é seu aniversário de dezoito anos. Eu providenciei pra você conhecer um pretendente adequado, de uma família influente — um cavalheiro que prefere... mulheres mais novas, mais tradicionais. Puras." Os olhos dele se estreitaram um pouco enquanto ele analisava meu rosto pela tela. "Você tem se comportado direito aí, não tem? Continuou sendo uma boa menina?"

Eu quase tive vontade de rir de tão absurdo. Depois de doze anos de silêncio, era isso que meu pai escolhia discutir comigo — se eu ainda era virgem.

Próximo Capítulo