Capítulo 3 Na Cova dos Leões
[Sera]
Fiquei de pé na beira da estrada principal da cidade de Harper, segurando firme minha pequena mala. Eu queria que Harmony estivesse aqui para se despedir de mim, mas ela tinha partido três dias atrás em uma de suas viagens espontâneas de trilha, completamente desconectada de telefones e tecnologia, como de costume.
Uma limusine negra e elegante apareceu no horizonte, parecendo completamente deslocada contra o pano de fundo dos prédios desgastados da nossa pequena cidade. Ela deslizou até parar na minha frente, as janelas escuras refletindo minha expressão nervosa. O motorista uniformizado saiu, seus olhos varrendo minha aparência simples com um julgamento mal disfarçado.
"Você é a garota dos Ginger?" ele perguntou, com dúvida evidente em sua voz.
"Sim", respondi baixinho.
Ele me olhou de cima a baixo mais uma vez. "Certo. Você deve ser alguma prima distante ou algo assim que eles se sentiram obrigados a trazer de volta." Seu tom deixou claro que ele não acreditava que eu pudesse ter parentesco direto com os Ginger.
O motorista pegou minha mala gasta, resmungando ao levantá-la. "O que uma garotinha como você tem aqui dentro? Pedras?" ele murmurou. "Sempre empacotando a vida inteira quando viajam." Ele a manobrou desajeitadamente para dentro do porta-malas com uma dificuldade desnecessária.
"Cuidado onde pisa", ele disse, sem se dar ao trabalho de me ajudar a entrar. "Estes bancos custam mais do que a maioria das casas nesta... cidade."
O interior do carro não se parecia com nada que eu já tivesse experimentado — bancos de couro macio, painéis de madeira polida e o aroma sutil de luxo. Me sentei cuidadosamente na beirada do banco, com medo de afundar completamente em seu abraço macio.
A propriedade dos Ginger surgiu por trás de portões de ferro ornamentados, uma imensa mansão de pedra e vidro. Quando o carro parou na entrada circular, um homem idoso em um terno formal estava esperando na porta.
"Bem-vinda à Propriedade dos Ginger, Senhorita Sera", ele disse com uma leve reverência enquanto o motorista abria minha porta. "Sou Walter, o administrador da casa. Seu pai e a Sra. Ginger estão ocupados com negócios no momento. Eles devem se juntar a você para o jantar esta noite."
Eu balancei a cabeça, sem saber o que dizer. "Obrigada por vir me receber."
"Posso lhe mostrar o seu quarto? Você deve estar cansada da viagem."
Enquanto Walter me guiava pela mansão, não pude deixar de ficar boquiaberta com a opulência ao meu redor. Lustres de cristal, obras de arte originais, móveis que provavelmente custavam mais do que a casa inteira da família Walker.
Estávamos subindo a grande escadaria quando vozes animadas e sons de água espirrando vieram através de uma porta aberta do pátio.
"O que é isso?" perguntei.
"Ah", Walter pareceu um pouco desconfortável. "A jovem Senhorita Marissa está dando uma pequena festa na piscina. Seus meios-irmãos e os amigos deles."
Antes que eu pudesse responder, a voz de uma garota chamou: "Walter! Quem é essa com você?"
Uma linda adolescente loira apareceu na porta, usando um biquíni de grife com uma saída de praia transparente. Seus olhos curiosos se arregalaram quando me viu, depois se estreitaram de forma calculista.
"Ai meu Deus, é ela, não é? A filha perdida do papai!" Ela veio saltitando, me surpreendendo com seu entusiasmo. "Eu sou a Marissa! Você deve ser a Sera!"
Walter pigarreou. "Senhorita Marissa, eu estava apenas mostrando o quarto da Senhorita Sera—"
"Bobagem! Ela acabou de chegar — não quer ficar trancada lá dentro." Marissa enlaçou seu braço no meu. "Venha conhecer todo mundo, maninha! Estão todos loucos para te conhecer."
Walter pareceu preocupado. "A bagagem da Senhorita Sera—"
"Mande levarem para o quarto dela, Walter. Eu a estou sequestrando!" Marissa deu uma risadinha, praticamente me arrastando em direção à área da piscina.
"Mas eu não tenho roupa de banho", protestei fracamente.
"Não se preocupe com isso", ela disse com um sorriso que não chegou aos olhos. "Eu tenho de sobra."
A área da piscina parecia algo saído de uma revista de resorts de luxo. Uma piscina de borda infinita tinha vista para os jardins bem cuidados, com cerca de quinze adolescentes relaxando em móveis de grife, com bebidas nas mãos.
"Pessoal!" Marissa anunciou. "Esta é minha meia-irmã perdida, Sera. Ela estava morando no interior." O jeito que ela disse "interior" fez soar como "estação de esgoto."
Todos os olhares se voltaram para mim, me avaliando em meu vestido simples. Notei um garoto mais novo, de uns catorze anos, me observando com uma curiosidade indisfarçável.
"Esse é o Talon, nosso irmão", Marissa confirmou, seguindo meu olhar. Em seguida, ela apontou para um garoto alto e bonito, de cabelos loiros. "E aquele é o Ronan Thompson."
Ronan se levantou com preguiça, os olhos me analisando como um raio-X. "Então esta é a sua irmã 'especial'?"
"Ronan, não seja mal-educado", Marissa o repreendeu em tom de brincadeira, dando um tapinha no braço dele. "Este é o Ronan Thompson, filho do tio Dominic."
Família Thompson. Disfarcei minha surpresa. Aquele garoto era, na verdade, membro daquela dinastia política.
Uma garota cheia de curvas e cabelos escuros se aproximou, segurando um coquetel. "Sou Sadie Carson, a melhor amiga da Marissa."
"Vamos trocar essa roupa!", Marissa insistiu, me puxando em direção à casa da piscina. Lá dentro, ela me entregou um maiô claramente pequeno demais para mim — algo que percebi ter sido intencional quando saí relutante para o deck da piscina, puxando o tecido inutilmente.
A conversa rapidamente se voltou para o futuro deles:
"Vou para Princeton no próximo semestre", um garoto se gabou. "Sou legado de terceira geração."
"Eu vou para Yale", outro se intrometeu. "A faculdade de administração já garantiu a minha vaga."
Ronan se recostou casualmente com um sorriso presunçoso: "Halloway me aceitou na admissão antecipada. Bolsa integral." Os outros garotos ficaram em silêncio por um instante, claramente impressionados.
Marissa jogou o cabelo para trás. "É claro que o Ronan entrou em Halloway. É a universidade mais prestigiada do país. Ele sempre foi o mais inteligente daqui."
"Filho da mãe sortudo", um garoto resmungou. "Meu pai tentou mexer os pauzinhos para me colocar lá, mas não teve jeito."
"É, mas ouvi dizer que eles também dão as festas mais loucas", Ronan acrescentou, piscando para os amigos.
Sadie, que escutava ali perto, não conseguiu deixar de se intrometer: "Ronan, mesmo que você tenha entrado em Halloway, o tio Barrett vai te dar uma surra se descobrir que você só planeja ir a festas."
A expressão de Ronan mudou na mesma hora, e seu sorriso congelou. "Não brinque com isso, Sadie."
"Não estou brincando", Sadie disse, dando um gole dramático em seu coquetel. "Da última vez que você arrumou confusão na festa da empresa, o tio Barrett quase fez você se mijar nas calças só com um olhar."
Todos riram, mas notei que o sorriso de Ronan foi forçado.
"O tio Barrett é muito sério", ele tentou salvar as aparências. "Mas é verdade, ninguém ousa bater de frente com ele."
"Mas ele é um gato", Sadie disse de repente, com os olhos brilhando. "Mais charmoso do que todos vocês juntos. Se ele aparecesse em festas como esta, eu..."
Marissa deu uma risadinha e voltou sua atenção para mim. "E você, Sera? Pelo menos terminou o ensino médio?" Seu tom doce contrastava com a malícia em seu olhar.
Encarei meus pés. "Sim... eu me formei."
"E faculdade? Deixa eu adivinhar: não está nos seus planos?", outra pessoa provocou.
"Ei, caipira", um dos amigos de Ronan se aproximou, os dedos roçando de propósito no meu ombro. "Precisa de aulas particulares? Posso te ensinar como o pessoal da cidade se diverte."
Outro garoto sussurrou no meu ouvido: "Podemos ser 'bons amigos' se precisar de ajuda com alguma coisa." O tom de voz dele fez as palavras soarem nojentas.
Balancei a cabeça, sem vontade de mencionar minha bolsa de estudos. "Eu... ainda não tenho planos para a faculdade."
O sorriso de Marissa foi triunfante. "Estão vendo? Nem todo mundo precisa de estudos. Algumas pessoas têm... outros talentos."
"Espera aí", uma garota de óculos interrompeu. "Sera Ginger? Não foi você quem conseguiu a bolsa integral para Halloway? Minha prima foi rejeitada e mencionou o seu nome."
A roda de amigos ficou em silêncio. A expressão de Marissa congelou em um misto de choque e fúria.
"Halloway?", ela sibilou. "Eles nem sequer olharam para a minha inscrição!"
"Não é possível", Sadie murmurou, estreitando os olhos com desconfiança. "Ela deve ter... contatos."
Ronan deu um sorriso presunçoso. "Ou outros talentos persuasivos. Fico imaginando qual professor ela seduziu para conseguir isso."
"Ou a cama de quem ela esquentou", um dos amigos dele acrescentou com uma risadinha.
