Capítulo 1 Capítulo 1
Donna Jo Gallagher
Nova York, fevereiro de 2020.
Raios solares aquecem o meu rosto, conforme tento me equilibrar entre o café que meu queridíssimo chefe, Blake Williams, pede para comprar todas as tardes e o salto alto que teima em machucar meus calcanhares. Acelero os passos entre os carros desgovernados de Manhattan, seguindo para a empresa onde trabalho, pois não quero me atrasar novamente e ser obrigada a lidar com a arrogância do ditador, mesmo que meu atraso se deva a algo comprado para consumo dele e por causa dos minutos que passei dentro da única cafeteria que ele acha apropriada na cidade.
E só pensar no diabo que, magicamente, o nome Blake Williams/ditador aparece no meu telefone. Filho da puta! Tudo bem que a senhora Charlotte não tem nada a ver com a minha raiva e com o egocentrismo do filho mais velho, que, pelo meu atraso, já deve estar irritado, como todos os dias medíocres e entediantes da vida dele.
Bom! Isso é o que eu deduzo, já que ele vive com aquela cara azeda!
É incrível como um cara gato consegue ser envolvido por uma carga tão negativa como essa.
Aprendi a estudar o meu chefe e suas facetas em apenas seis meses de trabalho, e hoje, sua personalidade deve ser a “amargurada” por causa da falta da cafeína, devido aos meus dez minutos de atraso.
Okay! Talvez trinta! Mas não é como se eu fosse a única culpada por ter saído da aula de finalização de pratos com atraso.
Já entendi que trabalhar e estudar não é meu forte, pois estou dividindo meus horários entre o último período do curso de gastronomia e o cargo de secretária do CEO da Caldwell Entertainment; empresa televisiva que, além dos Estados Unidos, tem uma filial em Londres, onde o meu verdadeiro sonho profissional vive. Pretendo ser uma grande chef, como Albert Gallagher foi para os Williams, antes de minha mãe e eu o perdemos para o câncer.
E além de um legado culinário, meu pai me deixou um cargo na empresa, consequente de um pedido pessoal à Charlotte Williams nos seus últimos dias de vida. Resultado da confusão que se tornou a minha, desde que fui obrigada a aceitar o cargo há alguns meses.
Era isso ou passar fome. Mas se eu soubesse que comeria o pão que o diabo amassou — e eu não estou sendo eufemista nesta parte — e que teria que aguentar as loucuras ácidas do diabo, digo, chefe, jamais o teria aceitado. Sem contar a minha incompatibilidade ocupacional e a batalha diária com o ditador.
Mas não é culpa minha ser inexperiente!
Tecnicamente, a culpa é dele por ter me contratado depois de ter visto o meu currículo.
Meu celular vibra no bolso da calça e percebo que se trata de Kim e Annie, minhas amigas dentro e fora do trabalho.
Kimberly Miller é secretária de Edward Williams, irmão do meio dentre os três filhos de Charlotte. Ele atua como financeiro da empresa e leva, facilmente, a medalha de segundo lugar, na minha opinião, como o mais gato entre eles.
Sucedido por Conrad, que recebeu o terceiro lugar, pois sua fama tem ultrapassado os corredores da empresa e a quantidade de calcinhas da grande maioria das funcionárias. E isso inclui a Kim, que há alguns meses tem feito parte dessa estatística.
Não é como se eu não o achasse bonito, mas sua imagem, como um bon vivant, fez com que perdesse pontos na minha humilde valiosa concepção, pelo menos para mim.
Conrad é o mais novo dos Williams e, segundo Kim, o melhor amigo de Blake. Ele atua como diretor de marketing da empresa e é chefe pessoal de Annie Foster.
Kim diz que o ditador já está na área e que a cara dele não é das melhores. Como se algum dia tivesse sido!
Digo exatamente essa frase e ela ri em demasia, sendo seguida por Annie, que comenta que está tudo bem me jogar da beira de uma ponte porque ele trouxe junto a cobra peçonhenta, que, segundo ela, significa Ava Taylor, filha de Richard Ferguson, um dos sócios de Bernard Williams, patriarca dos Williams e fundador da Cadwell.
O grupo Caldwell foi fundado por três das famílias mais poderosas da América do Norte, nesse ramo: os Williams e os Fergusons, administradores da empresa de Nova York, e Christian Macgyver e seu filho, Henry, que gerenciam a filial de Londres.
Filial que fechou um empreendimento há, mais ou menos, quatro anos com a Forbes Fashion, uma revista de negócios mundialmente famosa, destinada à moda, finanças, indústria, investimentos e marketing, e a fofoca que circula pelos corredores do prédio é que Henry foi o autor por trás desse negócio, e que, graças a ele, a empresa está entre as três maiores do mercado televisivo no ranking mundial.
Ele se tornou um herói na empresa, mesmo que nunca o tenhamos visto de fato, já que reside e trabalha em Londres. Mas devemos ao divo o aumento do nosso salário e de empregos, e isso inclui o meu cargo, que antes não existia.
E nada seria mais conveniente para o rendimento do grupo, do que um casamento entre Blake e Ava, que nunca escondeu sua obsessão pelo meu chefe. Ela, literalmente, não gosta de nenhum ser do sexo feminino e isso inclui a mim, desde o primeiro dia em que pisei na empresa.
Solto uma lufada de ar, assim que cruzo a porta principal do prédio, e observo que já estou mentalmente exausta a essa hora do dia, mesmo ele estando longe de começar, e é incrível como tudo isso se deve a uma única pessoa: Blake Williams.
— Ele já está em reunião, DJ. Pela demora, disse que você pode se desfazer do café. — Annie aponta para o copo disposto entre meus dedos e eu reviro os olhos.
— Eu deveria jogar o líquido na cara azeda dele para ver se melhora!
— Ele não precisa, amiga! O cara é como um deus nórdico: gigante, fascinante e com um ar de mistério fodido! — Annie replica conforme seus cabelos loiros se desprendem do coque frouxo e eu tenho vontade de gritar: eu sei!
Ele é, sem dúvidas nenhuma, o número um dos Williams e de tantos outros homens espalhados pela cidade, mas prefiro me abster da humilhação de admitir isso em voz alta.
— Annie! — gargalho, sentando em torno da minha mesa, e beberico o líquido fumegante, sentindo-me irritada e ao mesmo tempo agradecida pela cafeína pura e coada manualmente, enquanto nós, meros funcionários, somos obrigados a enfrentar o café de máquina que é servido na empresa.
— Onde está Kim? — questiono vendo-a revirar os olhos por causa de nossa amiga e deduzo que Kim esteja na sala de Conrad, fazendo tudo, menos trabalhando, pois como mencionei anteriormente, ela está frequentemente se enrolando com o chefe de Annie, sem nunca desatar o nó do carretel que ela mesma se enfiou. — Ela ainda está nessa?
— Você achou que tinha saído?
— Depois de o prédio inteiro saber sobre a Mary. Sim! — refiro-me a um dos casos expostos de Conrad, onde nunca descobriram o lugar em que ele se pegou com uma das atrizes que trabalha no segundo andar. Mesmo eu tendo certeza do momento e dia certo se for parar para analisar sobre uma descoberta aleatória de pacotes de camisinha vazias numa das escadas do prédio.
— Ela disse isso quando não tinha uma bengala de apoio! — Suas mãos se referem ao tamanho do pau do próprio chefe, arrancando-me uma gargalhada e olhos esbugalhados.
— Achei que sua preferência fossem figos! — Ela dá de ombros, mediante à minha comparação de um órgão genitor feminino e frutas grotescas.
— Já comentei a minha diversidade! — Ela dá uma piscadela e abro um sorriso por saber e compreender sua opção sexual diversificada. — Animada para o Valentine's Day deste ano*?*
— Se for para me encher de chocolates, chorar como um neném desgarrado e dormir de conchinha com os travesseiros. Sim!
— Pois eu proponho uma loucura.
— Lá vem você com doses de tequila e pau para toda obra, Annie. Estou fora! Da última vez, fui obrigada a escutar duas horas sobre beisebol e nem chegamos no quarto, porque o camarada não teve a hombridade de me esperar. — Ligo o computador e vejo um email de Edward, onde há uma exigência de dois quartos de hotel em Londres para uma semana depois do dia dos namorados, o que me faz lembrar de Louise, minha amiga mais antiga, e nossa paixão pela mesma profissão.
Lou era nossa vizinha e hoje vive em Londres, agraciada pelos chefs e melhores gastrônomos possíveis. Nós tínhamos um sonho: abrirmos um restaurante em Londres, mas precisei adiar o meu, quando papai ficou doente. Seria ótimo visitá-la, caso pudéssemos acompanhar nossos chefes.
— Teremos reunião no Reino Unido? — Annie questiona, e confirmo com a cabeça.
— Poderia ser aumento de salário ou uma de nós como companhia.
— Mais fácil arrumar cupons de desconto para o American Multi-Cinema, do que sermos chamadas para alguma coisa nessa empresa. — Gargalho, sabendo o quanto é difícil arrumar cupons de desconto atualmente.
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Como amante de sabores e texturas, acredito que cozinhar seja uma arte que desperta os sentidos dos ingredientes, e a cada prato finalizado, sinto como se eu tivesse acabado de contar uma história. Um pão saindo de um forno, o cheiro de um café fresco, o toque da manteiga derretendo na frigideira.
Cozinhar é mais do que seguir receitas; é sentir o tempo das coisas, respeitar processos e permitir que o improviso também tenha espaço; é transformar ingredientes simples em memórias afetivas e adicioná-las em nosso convívio familiar e núcleo de amizades.
Uma receita de guisado com pétalas de lírios amarelos e desidratados está na nossa família há gerações, continuamente sendo passada de pai para filho. Até que, em uma noite qualquer, foi a minha vez de ser beneficiada através do meu pai.
Ele sempre amou a arte de acrescentar flores nas receitas, por isso, nosso jardim é vasto de flores de várias espécies diferentes, com a grande maioria sendo comestíveis, e hortaliças de todos os tipos.
A receita é simples: carne desmantelada e curada em vinho tinto, com legumes salteados e folhas desidratadas de lírios amarelos, mas é o curry que faz toda a diferença e costuma deixar as pessoas loucas para prová-lo quantas vezes forem necessárias.
Em contrapartida, há desafios que não são prazerosos, resultando em um prato de má qualidade, como a que é servida no refeitório. Eu não faço ideia do que eles colocam no tempero, isso se existir tempero naquela coisa que eles chamam de comida, contudo, uma coisa é certa: é humanamente impossível, mesmo uma pessoa com ausência de paladar, gostar daquilo.
Mas como não sou rica nem nada e suo demais a camisa pelo meu salário — literalmente falando —, jamais gastaria meus dólares com uma refeição na rua, preferindo economizar. Por isso, prefiro mil vezes me sujeitar ao sabor de plástico servido na empresa. E de brinde, nós funcionários, ainda ganhamos um café com gosto de ferrugem da máquina de última geração — provavelmente da época em que minha mãe nem pensava em nascer —, que parece água suja.
O líquido dentro do meu copo olha de volta para mim e juro que consigo enxergar o reflexo do rosto do meu chefe dizendo: isso é o que você merece por ser tão incompetente, senhorita Gallagher.
Estendo o dedo do meio e replico, irritada:
— E isso é o que você merece por ser tão muquirano, desalmado, mandão e mesquinho!
Empurro o primeiro gole, goela abaixo, tentando afastar o sono pós-almoço, contudo, assim que viro em um corredor qualquer, assisto o meu copo voar pelo menos um metro de distância acima da minha cabeça e cair em um muro de músculos, e jatos líquidos praticamente se jogam da minha boca e caem justamente no rosto perfeito, embora irritado, de ninguém mais ninguém menos do que meu chefe.
Mas o gran finale acaba sendo o copo caindo em sua testa e o líquido escuro escorrendo em seu terno e na minha blusa clara.
Merda!
Sua boca não emite som, mas suas mãos atadas e seu semblante destacam sua fúria.
Nem um “ai” sai da minha boca antes de eu pensar em procurar pedaços dobrados de papel higiênico que sempre tenho nos bolsos das minhas roupas e começo a esfregá-los em seu paletó, absurdamente, caro. E como se não bastasse o meu dia de merda, eles teimam em grudar no tecido.
— Merda! — esbravejo novamente, mas em voz alta dessa vez.
— Percebeu que está piorando? — Sua voz é sucinta, porém impiedosa, e gera desconforto suficiente para dez gerações da família Gallagher em mim. — A senhorita tem noção do quanto me custou esse terno? — Minha reação mais coerente é negar com a cabeça, enquanto continuo sendo esmagada por sua arrogância: — Claro que nem em seus melhores sonhos.
Sua tentativa de afastar o papel esmiuçado faz com que grudem ainda mais e é suficiente para tornar o meu dia ainda mais fodido, e tudo o que me presto a fazer é olhar para os lados, doida pelo buraco mais próximo para me enfiar.
— Que cheiro horrível é esse? — solta aproximando o nariz do paletó, e meus pensamentos me levam ao café de ferrugem.
Sua água suja, senhor.
Não detenho um sorriso.
— Minha água suja? — Pisco os olhos, algumas vezes, para entender em que momento esse troglodita, em formato de gente, começou a ler mentes.
Cala a boca, DJ! Ou mente, porque é bem capaz de ele escutar você.
— Fale logo! Como assim água suja? — bufa com a raiva mais enraizada, se é que isso é possível.
Brilhante, DJ, se o cara já era um ditador antes, agora ele vai virar um demônio.
— Eu disse café… — falo baixinho.
— Não me ateste como estúpido, Gallagher, não costumo ser paciente.
— Não é nada demais, senhor, foi apenas uma confusão. — comento sabendo que, pelo seu olhar, isso não vai colar. — É o café servido no refeitório. Ele não é tão gostoso e não tem um cheiro bom também… — confesso, finalmente, esperando um praguejo, um surto psicótico ou no mínimo uma sacudida nos ombros, contudo, seus olhos se encontram com os meus em uma análise descarada e um pouco mal-intencionada, a julgar pelo seu semblante.
— Se quiser, posso pedir ao seu motorista para trazer um novo terno e mandar o seu para a lavanderia, senhor. — continuo, incerta.
Observo seus cabelos, sempre bem penteados, convertidos em um selvagem arrumado; suas duas lagoas, geralmente cristalinas, nubladas, como tempestade, que o torna ainda mais sexy, e a maneira como sou despida por eles desperta, erroneamente, meus sentidos mais pervertidos.
Ele deixa os olhos caírem para a minha boca e automaticamente mordo os lábios.
Se controla, mulher.
Mas é difícil desviar o olhar quando tudo o que tenho na frente é uma escultura bem esculpida de um anjo com, pelo menos, um metro e noventa de altura e músculos avantajados.
Um anjo com áurea diabólica, DJ.
Essa criatura acabou de te arrasar todinha e você, como qualquer trouxa, está achando que vai viver uma fanfic de adolescentes.
Estou prestes a deixá-lo sozinho no corredor, mantendo uma distância considerável — isso se minha mente entorpecida voltar ao seu estado normal —, contudo, ele consegue ser mais rápido ao praticamente cuspir:
— Não será preciso! — E se vai, deixando-me sozinha, preocupada com uma possível demissão e principalmente confusa, devido aos pensamentos insanos que transitam em minha mente.
