Capítulo 2 Capitulo 2
Blake Williams
Meu pai e Richard estão em uma conversa acalorada, enquanto Edward, Ava e eu aguardamos Conrad para iniciarmos a reunião sobre Londres, onde Christian Macgyver garantiu um negócio que pode arrecadar milhões para a empresa, e tenho certeza que meu irmão está com uma das funcionárias em sua sala, já que estamos esperando-o há uns vinte minutos.
Conrad e eu somos melhores amigos.
Temos as nossas diferenças no trabalho e na vida pessoal, mas o que me preocupa é seu apetite sexual, a julgar pela quantidade de mulheres que frequentam o seu apartamento. Não que algum dia eu pudesse ser canonizado pela Igreja Católica, mas tudo nessa vida exige discernimento, algo que costuma faltar nele.
— Sabe onde o Conny se enfiou? — Edward se refere ao apelido do nosso irmão mais novo, e eu respondo, irritado:
— Ainda pergunta?
— Filho da puta, sortudo! — ri provavelmente ciente que nosso irmão deve estar com um dos seus casos do escritório.
— Quando vocês engravidarem alguém e o nosso pai tiver que arcar com os pagamentos da pensão, esse sorriso vai desaparecer rapidinho. — Sinto meus lábios se abrirem, observando os dele fecharem aos poucos, mas flashes do rosto borrado de Amelie vem à minha mente, após a exposição do seu caso amoroso com Henry Macgyver e sinto o corpo entorpecendo de ódio.
— Você está exagerando, como sempre, Blake! Deixa o garoto se divertir…
— Não sei se lembra, mas Amelie e eu começamos dessa forma. — E depois tudo virou um pesadelo...
Desde que me entendo por gente, escuto de Bernard Williams que a única coisa capaz de enfraquecer um homem é o amor, mas sempre enxerguei potencial no casamento dos meus pais e não acreditei. Um dia, cheguei até a questioná-lo e julgá-lo um hipócrita, porém, o que mais me irritou foi escutar que a minha mãe desde nova foi moldada a ser essa pessoa: a que deve compreender e ser submissa ao marido e ao cargo pesado que o casamento representa no núcleo social em que vivemos. Algo que Amelie jamais conseguiria suportar aos olhos dele, devido à sua origem humilde.
“Sua mãe e eu aprendemos a nos amar com o tempo, Blake, e um dia você encontrará uma pessoa como ela, para ser sua companheira.”
Hoje consigo compreendê-lo e até cogitei Ava Taylor para ser essa pessoa, mas sua paixonite por mim me fez desistir.
Ava Ferguson é a personificação de um casamento consolidado para a empresa e a mais confiável das mulheres para o cargo, contudo, todos sabemos sobre sua paixão e isso implicaria muito a minha aversão a relacionamentos. O único jeito que eu me submeteria a ter uma família hoje em dia, seria um casamento sem envolvimento romântico por não acreditar mais no amor, desde Amelie.
Amelie sempre trabalhou como modelo. A conheci no outono de 2021, durante a Fashion Week. O esplendor e sua performance na passarela chamaram a minha atenção, logo de cara, mas o que consolidou para que eu pedisse sua mão com apenas um ano de relacionamento foi o tempo e seu jeito carinhoso e extrovertido.
Contudo, devo ao Bernard o fato de ter sido o portador da notícia que mudou os nossos destinos, pois nosso casamento seria uma parceria de mentiras e traições, devido aos instintos mercenários dela. Desde então, passei a ser tão cauteloso quanto o meu pai, colocando as necessidades de nossa família em primeiro lugar, passando a direcionar a vida dos meus irmãos.
— Você e suas teorias da conspiração. — ele ri, conforme observamos Conrad adentrar o ambiente com a cara mais mal-lavada do mundo, como se não estivéssemos atrasados o suficiente.
— Pensei que teríamos que aguardar a beldade por mais tempo. — Bernard reclama, observando o filho mais novo ocupar o assento ao lado de Ava, que desliza os dedos pelos vastos cabelos ruivos.
— Eu estava acertando a agenda com a minha secretária. — Conrad comenta e eu pigarreio, uma vez que a senhorita Foster estava bem folgada na recepção, enquanto eu reclamava sobre a demora da minha secretária, que só tem uma função que julgo ser importante no dia: a de comprar um copo de café; na melhor cafeteria da cidade.
Mas o que me irrita é precisar lembrá-la disso todos os dias.
Com certeza ela não possui o hipocampo, parte do cérebro que organiza memórias.
E sempre que sua falta de bom senso atrapalha os meus planos, lembro-me do dia em que Charlotte praticamente me implorou para empregá-la e da minha recusa inicial, porque abomino incompetência, motivo pelo qual não gosto de pessoas trabalhando para mim, pois sou exigente o suficiente para suportar a ideia de ter que ensinar a alguém o trabalho dela.
Sempre fui da seguinte filosofia: se deseja perfeição, resolva você o problema. Caso contrário, a probabilidade de acontecer o que vem acontecendo comigo, desde que contratei Gallagher há alguns meses, é de 99%.
Mas Charlotte me conhece o suficiente para saber que eu não deixaria de atender a um pedido dela. E graças a ela e em memória de Albert, nosso antigo cozinheiro e alguém que se tornou um amigo, acabei criando essa vaga de trabalho para a filha dele.
O problema é que a menina não possuía experiência de trabalho em lugar nenhum e consegue ser pior do que eu esperava no ramo, e todas as vezes em que penso em demiti-la, os olhos suplicantes de minha mãe vem à mente, junto com as vezes em que fui flagrado por Albert, fumando um cigarro em torno da piscina, enquanto fugia da recriminação dos meus pais por absolutamente nada.
Passávamos horas conversando assuntos aleatórios, enquanto ele ainda encontrava tempo para me aconselhar sobre meu vício noturno. E muitas vezes nossas conversas eram referentes à beleza da filha e ao amor que sentia por ela.
Eu não entendia o que era sua conexão com Gallagher, pois não vivi essa experiência com a minha família. Embora nossa mãe fosse adepta a um lar harmonioso, nosso pai era avesso à demonstração de afeto, com nossas conversas se limitando às etiquetas, ações da empresa e, depois de um tempo, trabalho.
Confesso que Albert fez jus em todas as vezes que elevou a beleza da filha. Em seu primeiro dia de trabalho, ela chamou a minha atenção por parecer um trem descarrilhado, atropelando várias pessoas nos corredores da Caldwell, provavelmente com receio de estar atrasada. Seus cabelos castanhos, pareciam um amontoado selvagem, balançando de um lado para o outro.
Eu não fazia ideia de quem ela era filha e que seria funcionária nova da empresa. A única coisa que passava pela minha cabeça era que eu precisava ter aquela mulher e, inclusive, burlaria uma das minhas regras: a de foder a mesma pessoa em mais de uma ocasião.
Mas mudei esse pensamento, assim que descobri que ela trabalharia conosco, e essa é uma das minhas regras principais: jamais me relacionar com alguém do convívio profissional.
Prefiro deixar essa adrenalina para o meu irmão.
Contudo, contra qualquer princípio que eu poderia pensar em ter em relação a isso, aparentemente, Bernard e Richard possuem outros planos para mim e novamente nossa última conversa vem à minha mente e não contenho a irritação.
— Agora que estamos todos a postos, cedo a palavra ao CEO da companhia. — Bernard aponta na minha direção e sou obrigado a começar a reunião falando sobre o projeto de Christian em conjunto com os Rousseaus, uma família francesa que possui uma empresa de streaming e que estão dispostos a fechar uma sociedade conosco.
Através de slides, mostro os percentuais do empreendimento, e Conrad faz uma pesquisa rápida em sites e redes sociais a respeito da marca e da demanda dos clientes, constatando o que Bernard e eu já fazíamos ideia: que os nossos rendimentos aumentariam e muito anualmente.
Apresentamos as estratégias de lucros e métodos de trabalho que poderíamos adotar para impressionar os Rousseaus, pois há outras empresas na disputa, enquanto Ed questiona sobre o tempo em que Conrad e eu pretendemos ficar por Londres.
— Eu pagaria para não ir. — revelo pensando no incômodo que será rever Henry e Amelie, depois de anos. Quanto antes eu chegar e sair, melhor.
— Espero estar incluída nessa viagem. — Ava comenta, aparentemente chateada por não ter o nome cogitado durante a conversa, e seu pai responde:
— Infelizmente não será possível, filha.
— E alguém se importaria de me dizer o motivo? Já que sempre participo das viagens com o Blake. — ela retruca e detém os olhos em mim, e o silêncio toma conta da sala. Prefiro dar espaço para Bernard falar, pois não estou de acordo com os planos que ele e Richard têm em mente:
— Porque Blake estará acompanhado de sua nova noiva. — Os olhos de Conrad, de Edward e de Ava recaem sobre mim, enquanto aperto a caneta esferográfica disposta em meus dedos, ciente que isso, em nada, pode ser bom. Mesmo um noivado fictício.
— Como assim noivado? — Conrad é o primeiro a rir da situação, conforme Ava se levanta, exaltada:
— Blake?!
— Não é nada demais, Ava! Será um noivado fictício. — Meu pai tenta contê-la, mesmo nitidamente desconfiada. — Os Rousseaus são conservadores e zelam pelo legado. Para isso, Blake precisaria seguir os protocolos de uma família tradicional.
