Capítulo 3 Capitulo 3
Blake Williams
Os olhos do meu pai recaem sobre mim e tenho vontade de contestá-lo e protestar essas convenções arcaicas. Estamos no século XXI e já existem maneiras de fazer filhos sem precisar de uma esposa. Mas ele não me dá espaço e continua:
— Não somos os únicos nessa disputa, Blake, precisamos trabalhar com todas as armas que temos.
— Continuo sem ver relevância nisso.
— Não há possibilidade de perdermos um negócio dessa proporção, porque o CEO da companhia — há deboche em seu tom de voz —, não quer ter responsabilidade. E se não fosse importante, eu não cogitaria essa hipótese.
Ele faz uma pausa breve e continua:
— Estamos com o prato pronto; faltando apenas o forno para aquecê-lo. Não desperdiçaremos essa oportunidade.
Bufo ao ouvir a gargalhada de Conrad.
— Eu poderia ser essa pessoa, já que é fictício. — Ava diz, e conto até dez lentamente.
— Impossível! Henry e Amelie estarão presentes a todo momento em Londres e eles não podem sonhar com o que estamos tramando. Quanto menos pessoas souberem, melhor, pois todos sabemos que Henry e Blake não se suportam e… — ele começa, e eu completo:
— E ele não pensaria duas vezes antes de sabotar o projeto do próprio pai para me atingir.
— E vocês já possuem alguém em mente. — Não é uma pergunta de Edward.
— Estamos cogitando uma das secretárias. Precisamente a mais nova na empresa. — Richard começa, e Ava complementa, por fim, com os olhos fixados em mim:
— Donna Jo Gallagher. — Assinto discretamente, ciente que, desde o ingresso de minha secretária ao RH, Ava tem implicado com sua postura, exacerbando o quanto é desqualificada para o cargo.
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Ao sair da sala de reunião, preciso de um tempo para pensar sobre os últimos acontecimentos e dispenso o almoço com Ava, seguindo para o meu escritório. Durante os anos que fui cogitado para o cargo que um dia foi de responsabilidade de meu pai, nunca imaginei as cobranças que viriam com ele e o que eu seria obrigado a fazer em prol da empresa.
E não havia nenhuma cláusula de noivado no meu contrato de trabalho. Sempre fui obstinado em tudo, mas sinto como se estivessem arrancando as minhas convicções e colocando outras, sem valor, no lugar, onde desejos se tornaram ficção.
Eu nunca me opus aos ensinamentos de Bernard, mas a palavra noivado passou a ser um assunto delicado para mim, sem contar que o meu estado civil nunca foi uma ideia de trabalho e me incomoda o fato de ele achar que meus irmãos e eu somos seus fantoches.
Ainda com os pensamentos confusos, caminho a passos lentos pelos corredores da Caldwell, até ser atropelado por um vendaval chamado Gallagher e, automaticamente, minha mente retorna à exigência dos diretores da empresa e sinto a raiva aumentar por ela estar relacionada, indiretamente, à situação.
Meus olhos se detém no café espalhado por todos os lados.
Ela tenta limpar o meu terno, mas espalha ainda mais a sujeira, demonstrando, mais uma vez, que esse cargo não condiz com o seu intelecto, porque não entra na minha cabeça uma pessoa não saber a diferença entre um pano e um pedaço de papel.
Óbvio que ia foder com o tecido!
E ainda sou obrigado a ouvir sobre oferecermos um café de má qualidade para os nossos funcionários, quando sempre prezamos oferecer o melhor para eles.
— Se quiser, posso pedir ao seu motorista para trazer um novo terno e mandar o seu para a lavanderia, senhor. — continua conforme adentro seus diamantes negros, que tem poder hipnótico.
Desço meus olhos, que recaem para seus lábios vermelhos e convidativos. Sinto meu pau crescendo na boxer, o que me causa dor, e a opção mais sensata é desviar o olhar.
Se controle, Blake!
— Não será preciso! — vomito, preferindo deixá-la sozinha, saindo sem rumo pelos corredores do prédio, percebendo tarde demais que desci no estacionamento.
Por fim, decido encerrar meu dia.
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Na manhã seguinte, ainda com a mente focada no protesto de Gallagher em relação ao café, caminho até o refeitório e observo vários rostos curiosos se voltarem para mim. Como não tenho o costume de vir aqui, eles devem estar tão confusos quanto eu.
Uma das funcionárias se direciona até mim e observo seu nervosismo ao perguntar se desejo alguma coisa para comer. Peço uma xícara de café, acompanhando-a até a sua estação de trabalho.
Sou um apreciador nato da bebida e preciso concordar com a minha secretária, já no primeiro gole. Questiono a respeito da saída do produto e a funcionária prontamente responde que muitos trabalhadores têm como preferência trazer a própria bebida, ao invés de consumir a que oferecemos na copa, e não consigo disfarçar a irritação. Como essa merda pode estar acontecendo na minha empresa, bem debaixo do meu nariz?
Agradeço-a, pela boa vontade, e subo até a presidência, onde encontro a secretária de Conrad disposta em sua área de trabalho. Não contenho uma pontada de inveja do meu irmão, devido ao fato de ele ter uma funcionária sempre pontual, enquanto eu tenho Gallagher, que costuma chegar em cima da hora e, inúmeras vezes, amassada, como se tivesse saído de uma maratona.
— Bom dia, senhorita Foster, Ava e Edward já chegaram? — Ela responde que sim com a cabeça e eu continuo: — Ótimo! Peça que venham à minha sala para uma reunião repentina e pode se incluir nisso também. — Ela arregala os olhos, assustada, uma vez que mencionei os nomes do diretor do RH e de sua assistente administrativa e é bastante provável que tenha passado uma demissão em sua mente.
Eles não demoram a entrar na minha sala, sendo acompanhados por Annie que, pelo semblante, continua preocupada.
— O que aconteceu para você convocar uma reunião, do nada, pela manhã, Blake? — Meu irmão senta de frente para mim, conforme Ava e Annie continuam de pé.
— Ontem fui informado pela minha secretária que o café servido na empresa é horrível e… — Ava não esconde uma gargalhada debochada, enquanto os olhos de Annie se arregalam.
— Ela deve ter se equivocado, senhor. A Donna é um pouco estabanada, mas tem um coração de ouro e…
— Eu não sou cardiologista para saber do coração da sua amiga, Annie! — vocifero, irritado, esquecendo-me totalmente de tratá-la formalmente, assistindo-a se calar no automático. Encaro o meu irmão e disparo: — Contudo, sou obrigado a concordar com ela. Aquilo é tudo, menos café.
— Não sei onde pretende chegar, Blake! — Ava diz, incomodada.
— Já tiveram o prazer de experimentar o nosso maravilhoso café? — debocho, observando-a revirar os olhos e continuo: — Então, não me subestimem. Senhorita Foster, quero um dossiê completo sobre isso e sobre as refeições distribuídas no refeitório.
Annie confirma automaticamente com a cabeça e toma nota de tudo, ao contrário de minutos atrás.
— Ah! Por favor, Blake! Só falta agora o grande CEO contratar uma equipe de buffet e colocar de prontidão no refeitório! — Edward ironiza, e eu comento que não seria uma má ideia, assistindo Ava tentar segurar uma risada irônica. — Isso é ridículo! Vai fazer mais despesas quando podemos diminuí-las?
— Foster, providencie uma degustação para a diretoria do que oferecemos aos nossos funcionários — ignoro-o completamente, enquanto Annie é ágil em suas anotações. — Quero de tudo um pouco: carnes brancas e vermelhas, sopas e salteados e todos os molhos que puderem providenciar.
— Sim, senhor! — A funcionária de Conrad responde prontamente, aparentemente, ansiosa.
Quando ela está prestes a sair da sala, após ser dispensada por uma Ava visivelmente perplexa, lembro-me de pedir-lhe um último favor:
— Traga o melhor expresso da cidade e me avise assim que chegar aqui.
Ao sair da sala, Annie bate discretamente a porta e Edward não perde a oportunidade de dizer que estou louco por causa de um simples café. O que me faz ironizar:
— Um café de merda!
— Só não consigo entender o motivo de todo esse alarde por causa de uma funcionária… — Ava começa, mantendo seus olhos em mim. — A não ser que tenha algo a mais…
— Eu provei que é uma droga! — vocifero. — Não estou louco! Dependendo de como for a degustação, acho válido realmente contratarmos uma equipe de buffet.
— Nosso pai vai adorar saber disso… — Edward ironiza antes de deixar a mim e Ava sozinhos.
— Tem alguma coisa para me contar sobre você e sua secretária, Blake?
— Não sei aonde você quer chegar, Ava. — Levanto do assento, afastando-me estrategicamente, enquanto ouço seus passos atrás de mim.
— Não haja como um tolo! Você e essa sua secretária… — Seu semblante entrega sua desconfiança e o duplo sentido na frase.
— Guarde o seu ceticismo para você. Esqueceu que não me relaciono com funcionárias? Acho que está perdendo o bom senso.
— Esquecer? — Sua gargalhada sai seca. — Veneza nunca me deixa esquecer, Blake. — Fecho os olhos, tentando não lembrar da noite de bebidas e risadas no qual encerramos um dia de trabalho, em um quarto de hotel. No dia seguinte, eu não conseguia encará-la e minhas ações denunciavam que nossa noite nunca deveria ter acontecido.
— Isso não tem nada a ver com o que aconteceu naquela noite. — Encaro-a, enfim, observando tristeza em seus olhos amendoados. Seguro uma de suas mãos, mas somos interrompidos pelo som do telefone, e o nome Foster aparece na tela. Peço que entre novamente e assisto-a caminhar sob seus saltos em minha direção, com o copo disposto em uma das mãos.
— Donna Jo está na mesa dela? — Há um silêncio incômodo na sala e observo a testa franzida de Annie, conforme Ava se afasta de mim e observo a sua chateação.
— Ainda não deu a hora dela, senhor, mas posso entrar em contato e… — corto-a:
— Não precisa! — Caminho a passos rápidos até a minha mesa e rabisco algumas palavras em um pedaço de papel, dobrando-o ao meio. Entrego o bilhete para Annie, antes de sentir qualquer arrependimento, percebendo sua testa franzida.
— Coloque na mesa dela, junto com o café. — Assisto sua cabeça tombar para o lado, com o papel em mãos, como se sua vida dependesse disso.
— E isso não é nada?! — Ava aproveita a saída dela para questionar. — Só espero que faça parte do teatro, Blake. — diz antes de bater com força a porta do escritório, deixando-me pensativo. Talvez ela não esteja tão errada assim.
