Capítulo 4 Capítulo 4

Donna Jo Gallagher

A Cadwell é um antro de gente atrasada. 

Por que digo isso? Porque há uma disputa diária entre os funcionários para ver quem é o último a chegar na empresa, e o curioso é que o departamento pessoal sempre deixa escapar esses indivíduos. Mas é claro que na minha vez sempre sou usada como exemplo e constantemente sou flagrada pelo meu chefe. 

Atrasada mais uma vez e com medo de ser deportada para o RH com uma carta de demissão a tiracolo, caminho a passos rápidos até a presidência, sentindo raiva do ditador por causa dos meus scarpins. Se não fosse por causa dele e de sua empresa, eu não precisaria me humilhar todos os dias usando saltos desconfortáveis que a empresa faz questão de pagar para as funcionárias.

Cumprimento Annie e Kim, notando suas caretas de repreensão devido ao meu horário. Espero Annie questionar se o meu atraso é devido a algum pedido de café, mas o seu silêncio e seu rosto preocupado me deixam em alerta, já que hoje não recebi nenhuma mensagem do nosso chefe. 

Será realmente uma conspiração para minha demissão?

Aproximo-me da minha mesa e vejo um copo de café de uma das cafeterias mais caras da cidade. Franzo o cenho, confusa, e meu faro anti-problemas piora quando uma das meninas faz gestos, nada sutis, com as mãos para que eu prossiga e pegue o objeto. Questiono-me sobre as intenções por trás desse gesto e descubro um bilhete, que rapidamente se torna alvo da minha ansiedade.

“Não permito que meus funcionários fiquem insatisfeitos. Que esse seja do seu agrado. 

Blake.” 

Surpresa, volto o olhar para as meninas, e elas dão de ombros, incentivando-me a provar a bebida. Não as julgo, porque, se fosse o contrário, eu faria o mesmo. Testo lentamente o amargo do expresso à medida que os olhos intensos e esverdeados de Blake preenchem os meus pensamentos.

Em que momento ele decidiu que eu era especial o suficiente para comprar algo para mim? Se é que posso confiar que não tem nada dentro desse copo, além do café. Vai que ele colocou alguma coisa na minha bebida como retaliação, depois de ontem.

— Isso é estranho! — Elas assentem, aparentemente, tão surpresas quanto eu. — Foi ele quem deixou isso aqui?

— Pediu para que eu comprasse. Mas fez questão que fosse da melhor cafeteria. — Annie faz uma pausa e em seguida complementa: — E não é só isso. Ele intimou o Edward a contratar uma nova empresa de buffet. Eles farão uma inspeção no cardápio. 

Isso é ótimo!

— O inferno deve estar em festa! — Kim nos corta, enquanto continuo apreciando a bebida, observando a diferença gritante do café servido no refeitório. 

Escuto o toque do telefone da empresa e, automaticamente, reconheço o ramal do meu chefe.

— Donna Jo Gallagher, bom dia! — começo, prestes a agradecê-lo para demonstrar a minha educação, mas ele consegue ser mais rápido ao me cortar:

— Boa tarde, Gallagher, está há quinze minutos atrasada! Espero que já tenha checado os meus e-mails. — ele é rude, minando a minha animação anterior.

— Desculpe pelo horário, senhor Williams, posso ajudar em alguma coisa?

— Sim! Conversei com a senhorita Foster, a respeito de um buffet, e... — ele dispara suas ideias sobre possíveis melhorias para a cozinha e pede para que eu ajude Annie no processo. — Espero que tudo esteja pronto antes do dia de São Valentim, já que o RH está providenciando a festa que fazemos todos os anos na empresa.

— Sim, senhor!

— Conto com a descrição de vocês. — diz antes de desligar o telefone na minha cara e continuo encarando o aparelho, perplexa. 

Volto o olhar para as meninas e observo que suas expressões de espanto são tão reais quanto a minha. 

— Devo me preocupar? — É de estranhar essa atitude depois de eu ter esbarrado e falado mal do serviço prestado para a empresa dele, e Annie retruca:

— Eu não confiaria em um William, mas se continuar com esse ponto de interrogação na testa por causa de um café, o Blake te engole viva. — Annie replica e Kim concorda com a cabeça.

— Não duvido! Estou até me sentindo mais importante. — gargalho, tentando não pensar em qualquer motivação que o tenha feito pensar em fazer isso, mas elas não me acompanham.

— Não sinta nada, DJ, ele é o pior dos irmãos. — Annie complementa e fica um silêncio incômodo na sala, porque, de alguma forma, sua frase abriu possibilidades para várias interpretações na minha mente. E pelos rostos confusos, não sou a única a tirar essa conclusão.

+++

Conforme os dias passaram, as alterações no refeitório foram realizadas e o sucesso da degustação foi tanto que fomos agraciados com um novo buffet, onde confesso ter me surpreendido com a qualidade. Não é qualquer refeição que me causa satisfação. O cozinheiro tem que ser uma águia, mesmo preparando o menu mais simples.

Os preparos de uma receita é como externar o amor que sentimos pela gastronomia, respeitando sempre os alimentos usados. Todo chef que se preze tem o dever de zelar desde a vida de um animal até à finalização de um prato e tem sido fácil identificar esse amor a cada refeição que tenho provado no refeitório.

Inclusive, devido ao sucesso com os funcionários, a diretoria está pretendendo expandir a novidade para a filial de Londres. 

— A senhorita por aqui? — brinco com Kim, e sua revirada de olhos me faz rir, porque a sala da copiadora parece ser sua segunda casa, já que Edward a usa de funcionária exclusiva das cópias. Ela olha em volta e não disfarça uma careta ao perceber teto e paredes enfeitados com corações de papel, devido ao dia dos namorados.

— Credo! Que decadência! — solta em meio a uma risada. — Não entendo comemorar uma data que prevalece apenas os casados e apaixonados — reclama.

— Sendo que nem nossos chefes se enquadram nisso! — gargalho ao pensar que os três maiores figurões da firma estão solteiros, livres e desempedidos, mas completamente fora do alcance de qualquer pessoa do sexo feminino da empresa, mesmo que Conrad tenha fisgado boa parte do quadro de funcionárias.

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