Capítulo 2 1
Heloise narrando
— Aqui, falta apenas o delineado — eu falo, terminando os últimos detalhes da maquiagem.
— Ficou perfeito — a noiva fala, se olhando no espelho com um sorriso no rosto.
— Obrigada.
Eu termino de guardar minhas coisas, pego minha bolsa e saio do hotel. Assim que piso na rua, solto um suspiro cansado.
Meu aluguel tinha vencido e, nos últimos meses, eu estava tendo poucas clientes. Com a correria da faculdade, eu mal estava conseguindo pagar tudo o que precisava. Cada conta que chegava parecia pesar o dobro e, por mais que eu tentasse me organizar, já não estava conseguindo fazer o dinheiro render.
Infelizmente, eu teria que recorrer aos meus dois piores pesadelos: meu pai e minha melhor amiga, Jessica.
Desde que fui embora do Morro da Rocinha, nunca mais coloquei os pés lá. Fui embora para São Paulo com a minha mãe e, depois de alguns anos da morte dela, voltei para o Rio de Janeiro para cursar Direito.
Foi uma decisão difícil.
Eu tinha deixado para trás uma parte enorme da minha vida quando fui embora, e voltar para o Rio significava estar mais perto de lembranças que eu passei anos tentando esquecer.
Graças aos cursos de automaquiagem e às clientes que consegui ao longo do tempo, eu estava conseguindo ganhar uma grana para me manter. Não era muito, mas dava para sobreviver.
Só que agora estava quase impossível.
Meu pai tinha uma casa no Morro da Rocinha e, mesmo ele não querendo me ver nem pintada de ouro, eu iria até lá pedir abrigo. Afinal, ele era meu pai e não poderia simplesmente me negar um teto.
Ou pelo menos era isso que eu tentava acreditar.
Caso ele me negasse, eu ficaria na casa da Jessica, como ela já tinha me oferecido diversas vezes.
Eu a via com bastante frequência. Na verdade, quase toda semana. Ela não me contava muito sobre as coisas do morro e eu sabia exatamente o motivo.
Ela estava envolvida com Ph, irmão do RK.
Quando éramos crianças, eu tinha uma amizade muito sincera com ele. Éramos próximos, brincávamos juntos e fazíamos parte da mesma turma de crianças que cresceu naquele lugar.
Mas isso tinha sido há muito tempo.
Agora, RK tinha assumido o morro e eu duvidava que ele sequer se lembrasse de mim.
Fazia quase um ano que eu tinha começado a faculdade de Direito. Todos os dias eu saía bem cedo para ir até a faculdade e voltava no meio da tarde. Minha rotina era uma verdadeira loucura entre aulas, trabalhos, provas e as maquiagens que eu conseguia fazer.
Eu só queria conseguir terminar minha faculdade e construir uma vida diferente.
Talvez por isso eu tivesse tanto medo de voltar para aquele lugar.
Minha casa ficava bem no alto do morro, quase ao lado da casa de Alice e do dono e do subdono do morro. Porém, a minha casa era bem mais simples.
Meu pai tinha uma farmácia e Jessica sempre me dava notícias dele. Ela dizia que a farmácia estava indo muito bem.
Também pudera.
Era a única farmácia do morro.
Começo a subir o morro em direção à minha casa. Cada passo parece trazer uma lembrança diferente. Algumas boas, outras nem tanto.
Eu passo pela boca principal e é quando vejo um homem sem camisa, todo tatuado, fumando um baseado.
De longe, fico em dúvida se é o RK.
Até porque eu não o via há mais de quatorze anos.
Mas era ele.
Meu coração dá uma pequena acelerada e eu paro por alguns segundos, apenas observando.
Eu o encaro e percebo que ele também está me encarando.
Seus olhos se estreitam enquanto ele tenta me reconhecer.
Talvez esteja tentando descobrir de onde me conhece.
Ou talvez tenha simplesmente esquecido.
Eu não sei por que aquilo me incomoda tanto.
Quatorze anos é muito tempo.
As pessoas mudam.
E, olhando para ele agora, eu tenho certeza disso.
O menino que eu conheci não existe mais.
No lugar dele está um homem completamente diferente. Mais forte, cheio de tatuagens, com um olhar sério e uma presença que faz qualquer pessoa perceber quem manda naquele lugar.
E, por mais que eu não queira admitir, o tempo fez bem a ele.
Quando éramos pequenos, ele dizia que se casaria comigo e me tornaria a sua fiel quando virasse dono do morro.
Que loucura.
Eu quase sorrio ao lembrar disso.
Até parece que hoje, com a minha sã consciência, eu viraria fiel de um traficante.
Nem pensar.
Eu balanço a cabeça, tentando afastar aqueles pensamentos, e continuo subindo.
— Heloise!
A voz conhecida me faz olhar para o lado.
Minha tia Marta vem em minha direção com um enorme sorriso no rosto e, pela expressão dela, com certeza ainda está tentando acreditar que está me vendo dentro do morro.
— Tia — eu falo, sorrindo. — Como a senhora está?
— Estou bem. E você? — ela fala, me abraçando. — Faz tanto tempo que eu não te vejo.
— Não tenho tempo para vir até aqui, mas hoje eu precisei vir — eu falo.
Ela me olha por alguns segundos, como se estivesse tentando entender o que me trouxe de volta.
— Mas eu sou a sua tia — ela fala. — Você pode vir me visitar.
Eu dou um sorriso fraco.
— Seu pai não gosta de mim e nem eu dele, mas eu sou sua família também. E sei que, para você estar aqui, alguma coisa aconteceu.
Eu abaixo os olhos por um instante.
Ela sempre foi assim.
Mesmo com todos os problemas que tinha com meu pai, nunca deixou de se importar comigo.
— Eu sei, tia. Prometo que eu vou vir — eu falo. — Jessica está em casa?
— Não — ela fala, suspirando. — Está com aquele lá.
Ela nega com a cabeça.
— Eu não gosto dele e ele vai só afundar a minha filha.
— Ela gosta dele, pelo menos — eu falo. — Deixa ela ser feliz.
Eu também achava que Jessica não deveria se envolver com ele. Mas, se ela ama aquele homem e ele a trata bem, como nós poderíamos impedir?
Ela é adulta.
Pode fazer as próprias escolhas.
Mesmo que algumas delas possam acabar machucando.
— Mas ele não tem futuro para ela — ela fala. — Jessica deveria querer estudar que nem você, ir atrás de uma vida melhor que eu não posso dar para ela e sair do morro. Você está procurando um destino diferente para você e eu tenho orgulho disso.
Eu sorrio.
Ouvir aquilo dela me deixa feliz.
Eu sempre quis que minha família tivesse orgulho de mim, mesmo que, às vezes, eu sentisse que estava completamente perdida.
— Eu preciso ir, tia — eu falo. — Preciso falar com meu pai.
— Ele te explora — ela fala. — Você não deveria deixar. Eu sei que o pouco que ganha, às vezes, manda para ele.
Eu respiro fundo.
— Preciso ir mesmo.
Dou um beijo em sua testa e continuo subindo.
Eu não gostava de falar mal da Jessica e muito menos de ouvir alguém falando mal do meu pai.
Ele era tudo o que eu tinha.
Por mais que, na verdade, nunca tivesse sido um pai presente, ainda era meu pai.
E, sim, eu ainda o ajudava quando entrava um pouco mais de dinheiro.
Talvez porque eu soubesse que as coisas eram complicadas para ele.
Talvez porque, no fundo, eu ainda esperasse que um dia ele pudesse olhar para mim e enxergar a filha que nunca conseguiu enxergar de verdade.
Chego finalmente à farmácia.
Respiro fundo antes de entrar.
Eu não sabia como ele iria reagir ao me ver ali.
Talvez fosse me mandar embora.
Talvez dissesse que não tinha espaço para mim.
Ou talvez, por algum milagre, aceitasse me ajudar.
Entro no estabelecimento.
— Oi, pai — eu falo, entrando, e vejo LK conversando com ele.
— Valeu — LK fala. — Precisava desses remédios para dor de cabeça.
Vejo LK sair com uma sacola cheia.
— Depois você me leva as pílulas lá — ele fala antes de sair.
— Ok — meu pai responde, sem mostrar os dentes.
LK para ao perceber minha presença.
— Pai? — ele fala, me encarando. — Heloise?
— Olá — eu respondo.
Ele me olha por alguns segundos, claramente surpreso.
— Heloise? — meu pai fala, finalmente me encarando.
— Oi, pai — eu respondo.
O silêncio que se instala entre nós é estranho.
Eu não sei se ele está feliz em me ver.
Na verdade, pela expressão dele, parece exatamente o contrário.
— O que faz aqui? — ele pergunta.
Eu engulo em seco.
Agora não tem mais volta.
— Eu preciso morar com você.
— Como? — ele pergunta, franzindo a testa.
— Estou sem ter onde morar e queria saber se posso ficar um tempo com você, até conseguir me arrumar.
Ele me encara em silêncio.
— E sua faculdade?
— Por isso mesmo — eu respondo. — Eu estou estudando e não tenho como trabalhar o suficiente para pagar tudo.
Ele suspira e passa a mão pelo rosto.
Por um instante, penso que ele vai dizer não.
Mas, para minha surpresa, ele pega uma chave e coloca sobre o balcão.
— Só não quero que me traga problemas — ele fala. — Aqui a chave. Você sabe como chegar até lá.
Eu pego a chave e aperto os dedos ao redor dela.
— Obrigada.
Não consigo evitar o alívio.
Pelo menos eu teria um teto.
— E o que o LK queria? — pergunto, ainda curiosa.
Meu pai volta a mexer nas coisas da farmácia antes de responder:
— Coisas que o RK pede para as mulheres dele lá.
Eu fico parada por alguns segundos.
RK.
Novamente aquele nome.
Parece que, mesmo depois de quatorze anos, eu não consegui escapar dele.
