Capítulo 3 2
RK narrando
Eu saio para fora da boca para fumar. Eu tinha pavor de fumar lá dentro e ficar aquele cheiro de droga impregnado no ambiente, então ficava sempre na porta e já aproveitava para observar o movimento.
Tinha mandado Lk cobrar aquele velho maldito da farmácia. Eu já estava de saco cheio dele. Toda hora arrumando confusão e devendo horrores aqui dentro do morro e também lá fora. O problema é que agora estavam vindo cobrar as dívidas dele na porta do morro, e isso eu não admitia.
Eu estava fumando quando vejo uma garota subindo.
Cabelos cacheados, claros, compridos até a bunda e uma mochila nas costas. Eu não tinha visto ela por aqui ainda, mas, de alguma forma, parecia que eu a conhecia.
Até que ela passa por mim.
Eu estreito os olhos, tentando enxergar melhor.
Era a Heloise.
A filha do velho.
Porra.
Depois de tantos anos, ela estava de volta.
Um dia eu disse que a tornaria minha fiel. Que palhaçada. Até parece que eu assumiria uma garota na minha vida, sendo que poderia ter todas que quisesse.
— Está revivendo os velhos tempos? — Ph fala. — Achei que meu irmão não era de se apegar. Nem sabia que ela estava por aqui — ele comenta.
— Estou pensando que essa garota vai estragar tudo — eu resmungo. — Esqueceu que LK está lá na farmácia do coroa dela?
— Ele está trazendo problemas para o morro — ele fala. — E você está deixando. Já passou da época de colocar esse velho para vazar.
— Estou deixando não. Se ele tiver que resolver as dívidas dele, vai ser lá fora — eu falo. — Não quero problemas aqui e você sabe disso.
— Por isso ele nunca vai sair daqui — ele fala. — Você não quer problema e deixa o problema aqui dentro.
— A filha dele mora fora do morro. Nem sei por que subiu aqui hoje. Uma hora vão pegar ela — eu falo.
— Se ele se importar com ela — ele diz. — Aquele lá não se importa nem com a sombra dele. Jéssica vive dizendo que ele nunca sequer responde às mensagens da filha.
— Fala baixo — eu falo. — Essas coisas não se fala, ainda mais se aquela sua namorada aparece e escuta. Vai levar isso para a garota, aí eu quero ver o rolo que vai dar.
— Vou para casa — ele fala. — Vou levar a nossa coroa para fazer umas compras na feira.
Meu rádio toca assim que Ph se afasta.
— Fala, vadio — eu falo no rádio.
— Estão atrás do Antonio — ele fala.
— Manda subirem na farmácia dele e manda ele descer — eu falo. — Depois traz para a boca. Quero conversar reto com ele.
— Pode crer — ele responde.
Eu peguei a mania do meu pai de ficar na frente da boca, observando as pessoas subirem e descerem por aqueles becos.
Eu gostava de morar aqui.
Gostava de comandar aquilo tudo, de ser o herdeiro e de fazer com que as coisas andassem da mesma forma que eram com ele.
Talvez fosse por isso que eu não aceitava quando alguém ameaçava a paz do morro.
— O cara lá tá de sacanagem — LK fala. — Vai trazer as drogas depois.
— A garota chegou para atrapalhar — eu falo. — Eu vi ela subindo. E ainda estão cobrando ele lá embaixo. Mandei aquele vadio do caralho buscar ele.
— A garota ficou sem entender nada. Tu tem noção de que daqui a pouco ele vai trocar a garota por essas dívidas, né? — LK fala. — Ainda mais que estão dizendo que ela veio morar aqui com ele porque tá sem como se bancar do lado de fora.
— Quem vai trocar quem? — Jéssica chega.
— O que faz aqui, cunhadinha? — eu pergunto. — Aqui não é lugar de mocinha.
— Cadê Pedro Henrique?
— Ph — eu falo.
— O namorado é meu e eu chamo ele como eu quero — ela responde.
— Caralho — eu falo.
— Tá aqui não, Jéssica — LK fala.
— Vou procurar ele — ela fala, saindo.
Eu acompanho ela com os olhos até desaparecer.
— Essa garota é fofoqueira do caralho — eu falo. — Vai querer saber de quem a gente estava falando, e a gente estava falando da prima dela.
— Se ela contar para a mãe dela, a mãe dela vai sacar — LK fala.
— Por mim, todos eles desapareciam — eu falo. — Mas esse merda do Antonio tinha que ser melhor amigo do meu pai. Por mim, dava um tiro e mandava ele para o inferno de uma vez.
— Tá nervoso o bicho — LK diz, rindo.
— Só resolve. Depois que ele for na entrada, traz ele para cá — eu falo. — Não deixa na mão do vadio as coisas não.
