Capítulo 4 3

Capítulo 3

Heloise narrando

— O senhor está bem mesmo? — eu pergunto antes de descer para a casa dele.

— Estou — ele fala. — Estaria melhor se você não estivesse aqui.

Eu abaixo os olhos por alguns segundos. Mesmo depois de tantos anos, meu pai continuava sendo exatamente assim. Nunca demonstrava o que sentia e parecia fazer questão de esconder qualquer sinal de carinho atrás de palavras duras.

— Eu preciso de um lugar para ficar e posso falar com a Jessica e ficar na casa dela se eu for atrapalhar o senhor. Eu sei que a gente não se fala há muito tempo — eu o encaro. — Mas eu sinto falta.

Ele fica alguns segundos em silêncio, aparentemente desconfortável com as minhas palavras.

— Olha — ele fala, nervoso, me encarando. — Desce e fica na nossa casa. Ela também é sua.

Sinto um pequeno alívio no peito.

— Obrigada — eu respondo. — Eu jamais vou esquecer que está me deixando ficar lá.

— Eu espero que não esqueça mesmo — ele fala.

Meu pai era assim. Não demonstrava sentimentos e, sinceramente, eu já estava começando a achar que tinha sido uma loucura subir aquele morro e pedir ajuda a ele.

Mas a verdade era que eu não tinha para onde ir.

Eu já estava sendo despejada do alojamento por não conseguir pagar o valor do aluguel e não tinha condições de assumir outro lugar naquele momento. A faculdade estava consumindo boa parte do meu tempo, e os trabalhos com maquiagem já não estavam sendo suficientes para manter tudo.

Eu precisava de ajuda.

Mesmo que essa ajuda viesse justamente da pessoa que eu menos queria precisar.

Meu pai estava nervoso e bastante atrapalhado dentro da farmácia. Ele mexia nas coisas sem necessidade, olhava para a porta a todo momento e parecia esperar que alguma coisa acontecesse.

— Pai, o que o senhor tem? — eu pergunto.

— Nada não — ele fala, olhando para frente.

Nesse momento, vejo um dos vapores do RK entrando na farmácia, com um fuzil atravessado nas costas.

Meu corpo fica imediatamente tenso.

— Antonio — ele fala. — Tem um cara querendo falar contigo lá na entrada. RD te mandou descer.

Meu pai fica ainda mais sério.

— Quem é? — eu pergunto, sem conseguir esconder a preocupação.

O homem me olha de cima a baixo.

— Se mete não, garota.

Eu aperto os lábios.

— Heloise, eu já volto — meu pai diz.

— Pai — eu chamo por ele.

Ele para por um instante e olha para trás.

— Eu já volto — ele afirma.

Eu apenas assinto e suspiro.

Assim que ele sai, meu coração acelera e fica apertado.

Eu não sei por quê, mas estava sentindo que havia alguma coisa errada desde a hora em que coloquei os pés naquele morro. Desde que vi LK conversando com meu pai, eu sentia que existia algo naquela história que ninguém queria me contar.

Eu sempre soube que meu pai lidava com algo a mais ali dentro.

Talvez tenha sido justamente por isso que minha mãe foi embora naquela época.

Meu pai sempre foi bastante protetor e ditava várias regras quando eu era pequena e morava ali com minha mãe. Ele queria saber onde eu estava, com quem eu estava e o que eu fazia. Na época, eu achava aquilo normal.

Hoje, olhando para trás, consigo perceber que existiam muitas coisas naquela casa que eu não entendia.

As únicas pessoas que eu tinha eram ele, minha tia Marta e minha prima Jessica.

Mas a relação do meu pai com minha tia nunca foi das melhores. Ela era irmã da minha mãe, e tenho certeza de que os dois não se davam bem por causa da forma como minha mãe foi embora dali, praticamente fugida.

Eu era pequena demais para entender tudo.

Meu pai sempre me incentivou a estudar quando eu era criança. Dizia que queria me dar uma vida muito melhor e que eu não precisava seguir os mesmos caminhos daquela comunidade.

Talvez essa seja uma das razões pelas quais eu escolhi Direito.

Depois que fui embora, porém, nunca mais consegui falar direito com ele.

O tempo passou.

A distância aumentou.

E agora eu estava ali novamente.

— Quando minha mãe disse que você estava aqui, eu nem acreditei.

A voz de Jessica me tira dos pensamentos.

Eu me viro e sorrio.

— Jessica!

Ela vem até mim e me abraça apertado.

— O que você faz aqui? Como assim?

— Eu precisei vir pedir ajuda ao meu pai.

Ela se afasta e me olha preocupada.

— Por quê? Você não me ligou? Vamos para minha casa. Você não vai ficar na casa dele.

— Eu preciso ficar com ele. Eu sinto que meu pai não está bem.

Ela franze a testa.

— Ele deixou você ficar?

— Deixou — eu dou de ombros.

— Ele vai te maltratar com as palavras. Seu pai é um ogro. Nem pensar que você vai para a casa dele.

Eu solto uma pequena risada.

— Está tudo bem. Ele me deixou ficar na casa dele. Se der alguma coisa errada, eu vou para a sua.

Jessica respira fundo, mas parece aceitar.

— Eu vi seu pai descendo o morro — ela fala. — Junto daquele vadio.

— Ele disse que o RK mandou falar com um cara lá embaixo.

Ela fica pensativa.

— É... Estou tentando falar com Pedro Henrique, mas não consigo.

— Você não acha perigoso demais tudo isso? — eu pergunto.

— Namorar com bandido? — ela pergunta, e eu assinto com a cabeça.

Ela sorri.

— Eu amo ele e sinto que ele me ama também. Ele me trata super bem. Pedro Henrique é diferente do irmão dele. O RD, sim, é o demônio em pessoa.

Eu arregalo os olhos.

— Eu acho que é adrenalina demais para mim.

— Como está a faculdade? — ela pergunta, mudando de assunto.

— Está bem. Bastante corrida.

— Você sempre foi estudiosa. Sabia que ia conseguir.

Eu sorrio.

Antes que eu consiga responder, o celular dela toca.

— É Pedro Henrique — ela diz, sorrindo.

Ela atende rapidamente e começa a falar com ele.

— Depois, à noite, passo na sua casa — ela diz antes de desligar.

Eu assinto e ela sai falando com ele pelo telefone.

Fico ali, tentando me distrair e organizando algumas coisas da farmácia. De vez em quando, olho para a porta.

Meu pai já estava demorando.

Muito.

Os minutos passam e ele não aparece.

Eu tento me convencer de que estava tudo bem, mas aquela sensação ruim continuava dentro de mim.

Eu olho novamente para a rua.

Nada.

Já fazia tempo que meu pai tinha descido e, até agora, não tinha subido de volta.

Começo a me preocupar.

Saio para fora da farmácia e olho para os becos do morro, tentando encontrar algum sinal dele.

Nada.

Nenhum sinal.

Meu coração aperta ainda mais.

Eu poderia perguntar para alguém o que estava acontecendo, mas não conhecia mais aquele lugar como antes. Depois de tantos anos fora, eu já não sabia quem era de confiança e quem não era.

Então prefiro voltar para dentro da farmácia.

Fico ali esperando.

Tentando acreditar que meu pai realmente voltaria como havia prometido.

Mas, pela primeira vez desde que cheguei à Rocinha, começo a sentir que talvez eu tivesse cometido um grande erro ao voltar.

E aquela sensação de que alguma coisa estava errada só aumentava.

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