Capítulo 5 4
RK narrando
Eu resolvo ir até a entrada do morro junto de LK para ver o que estava me esperando lá embaixo. Ph tinha razão. Talvez eu estivesse deixando Antonio se criar demais aqui dentro por causa da amizade que ele tinha com meu pai.
Enquanto meu pai era vivo, os dois eram carne e unha. Meu pai confiava muito nele e nossas famílias eram bastante unidas. Eu cresci vendo os dois juntos e, por respeito à memória do meu pai, sempre relevei as atitudes de Antonio dentro do morro.
Mas eu nunca confiei completamente nele.
Sempre tive o pé atrás.
Agora, depois de tantos anos, estava começando a perceber que talvez meu pai tivesse sido bom demais com aquele homem.
Assim que chego à entrada, vejo Antonio conversando com um cara que eu nunca tinha visto por ali.
Pela postura dele, já sei que a conversa não era das melhores.
— Eu já disse que não tenho o dinheiro agora — Antonio fala. — Uma semana e eu te consigo.
— Eu te dou dois dias — o homem responde. — Dois dias. Se não, você morre.
Ele fala enquanto o ameaça, deixando claro que não estava ali para negociar.
Vadio se aproxima, ficando entre os dois.
— Já deu — ele fala. — Vaza, anda. Aqui não é teu lugar. Quem manda aqui somos nós. Não queira que eu atire em você.
O homem encara Vadio por alguns segundos antes de recuar.
— Dois dias — ele ameaça novamente, entrando no carro.
O veículo desaparece pela rua e Antonio respira fundo.
Quando se vira, dá de cara comigo.
Os olhos dele se arregalam e, por alguns segundos, ele fica completamente sem cor.
Ele poderia ser mais velho e ter tido amizade com meu pai, mas eu sabia que aquele homem se cagava de medo toda vez que me via.
— RK — ele fala. — Você precisa me adiantar algum dinheiro. Por favor, eu te imploro.
Ele suspira, quase desesperado.
— Estou precisando. Não tenho como pagar esse cara.
Eu cruzo os braços.
— De novo você não tem como pagar ninguém, Antonio? Estou cansado disso.
— Por favor, tenha piedade. A minha filha veio morar comigo aqui agora.
Eu estreito os olhos.
Heloise.
Então era por isso que ela tinha voltado.
— Vamos conversar na boca — eu falo.
Antes que ele consiga responder, Vadio aparece.
— Chegou carregamento.
— Vai lá, LK — eu falo para ele.
LK se afasta e eu começo a subir com Antonio ao meu lado.
Ele não para de falar sobre dinheiro.
Era sempre a mesma coisa.
Vinham cobrar Antonio, ele não tinha como pagar e depois vinha atrás de mim pedir dinheiro emprestado. A dívida dele aqui dentro só aumentava, enquanto os problemas também se acumulavam.
— Você tem certeza de que quer continuar devendo para mim? — eu pergunto. — Porque sua conta já está grande aqui e, daqui a pouco, vamos começar a cobrar.
— Eu estou devendo esse dinheiro e você escutou. Ele me ameaçou de morte.
— Eu não tenho cara de banco, Antonio.
— Eu tenho uma filha para criar.
Eu solto uma risada.
— Tua filha já tem quase dezoito anos. E outra, tua filha nem aqui estava. Agora, do nada, voltou.
Ele fica em silêncio por alguns segundos.
— Mas ela só tem a mim — ele fala.
Eu paro de andar e olho para ele.
— Cadê a grana que tu recebeu quando ela foi embora?
Ele me encara, surpreso.
— Tu sabe que recebeu.
— Eu dei para ela e para a mãe dela — ele fala rapidamente. — E Heloise não pode nem desconfiar desse dinheiro.
Eu fico alguns segundos em silêncio.
Então balanço a cabeça.
— Eu não vou te dar um real e vai ser a última vez que eu vou te dar esse aviso.
Ele abaixa os olhos.
— Eu não quero mais ninguém na entrada do meu morro ameaçando morador meu. Da próxima vez, eu mando te levarem. Eu te entrego e não dou proteção.
— RK, por favor. Eu te vi crescer — ele fala.
— Isso aqui é negócio — eu respondo. — Eu não misturo as coisas.
Ele me encara.
— Se você conseguir me entregar tudo que eu encomendei em dois dias, você recebe a grana e paga seu prejuízo por aí. Se não, adianta o que conseguir para tua filha comprar teu caixão.
Ele me olha com raiva.
Eu sustento o olhar sem me importar.
— Agora vaza daqui.
Nesse momento, LK aparece carregando uma maleta.
— Anda, caralho. Vaza.
Antonio olha para mim mais uma vez.
— Tu vai se arrepender — ele fala, tentando me ameaçar.
Eu começo a rir.
Olho para ele e balanço a cabeça.
— Tu tá mesmo querendo me ameaçar?
Ele não responde.
— Eu desço depois para trazer uma parte da encomenda — ele fala para LK.
Antonio vai embora e eu continuo olhando enquanto ele se afasta.
— O idiota querendo me ameaçar — eu falo, rindo.
Olho para a maleta nas mãos de LK.
— Quanto tem aí?
Ele abre.
— Quatrocentos mil reais.
Um sorriso aparece automaticamente no meu rosto.
— Vem pro papai.
Pego alguns bolos de dinheiro nas mãos e começo a mexer nas notas, satisfeito.
Aquela era a parte boa de tudo.
Dinheiro entrando significava que podíamos movimentar as coisas novamente.
— Esse é o momento satisfatório para nós — eu falo. — Já podemos encomendar a nova leva de armas e munições.
— Vou providenciar — LK fala. — Só vou resolver uma coisa e já providencio isso.
— Fechou.
LK se afasta e eu continuo olhando para aquela grana, com um sorriso estampado no rosto.
Depois de toda aquela dor de cabeça, pelo menos alguma coisa tinha dado certo.
Eu guardo o dinheiro novamente na maleta e respiro fundo.
Hoje era dia de comemorar.
Eu já estava pensando em chamar as novinhas e esquecer, pelo menos por algumas horas, todos os problemas que estavam começando a aparecer no meu caminho.
Só não sabia ainda que a volta de Heloise para aquele morro seria justamente o começo de um dos maiores problemas — e talvez da maior mudança — da minha vida.
