Capítulo 1 Prólogo
Héstia Thorne.
Os primeiros estalos do fogo vêm logo após o cheiro de fumaça que por um instante, ignorei. Levanto em um sobressalto com os gritos da Elara, à essa altura, já passando pela porta principal enquanto pede desesperada que eu também fuja.
Me esgueiro com cuidado, bem perto da parede, evitando as chamas que, estranhamente, têm um tom mais avermelhado do que deveriam. Um detalhe que provavelmente ninguém perceberia, mas, graças a minha avó, eu percebi.
— Observe sempre o que ninguém mais vê, Héstia.
Ela repetia, insistentemente, enquanto escondia cartas em prateleiras aleatórias da nossa velha livraria repleta de relíquias que agora estão virando pó.
— Procure nas entrelinhas, minha filha, é lá onde o essencial se esconde.
O barulho da janela estilhaçando me faz tomar um susto e com o pulo, esbarro em um dos velhos calhamaços da vovó, que estranhamente, faz um barulho diferente.
Paro, observo mais de perto e quando estou prestes a pegá-lo, a voz de Elara me faz desviar o olhar.
— Pelo amor de Deus, Héstia! Você precisa sair agora! — Elara tem o corpo protegido por uma manta enxarcada, os olhos estão vermelhos, provavelmente pela exposição à fumaça.
Em suas mãos, outra manta, que ela joga em mim enquanto me puxa pelo braço, tentando me impedir de ficar.
— A gente não tem muito tempo, caramba! — grita quando o pedaço de uma viga desprende e cai, bem perto de nós.
— Então saia antes de tudo queimar, eu vou logo atrás de você!
Ignoro os protestos da minha amiga que, mesmo irritada, não me deixa.
Me cubro com a manta, vou até a cristaleira escondida entre duas prateleiras, pego todos os pequenos frascos dispostos nela e volto, e quando pego o livro, um envelope cai junto. Abaixo e enfio o papel no bolso, bem a tempo de ver outra viga cair, na frente da estante.
Quando finalmente alcanço a saída lateral, entrego o livro e os frascos —quase todos — à Elara e peço que ela vá pra casa, porque ainda preciso fazer uma coisa.
Observo ao redor, pra ter certeza de que ninguém está vendo, pego o frasco vermelho no bolso, tiro a tampa, molho as pontas dos meus dedos e, em movimentos circulares direcionados às chamas, ordeno:
— Que o fogo profano, nascido da mente daquele que não pode ver, curve-se a mãe terra. Fechem-se as folhas em casca sagrada, proteja-se o conhecimento oculto, onde a magia do homem não apaga nada.
Vejo a cor das chamas, antes vermelhas, trepidar em tons quase imperceptíveis de azul e roxo. Sinto um aroma de café queimado atravessar a fumaça e tenho a nítida impressão de ver uma silhueta entre o fogo. Alta. Imóvel. Observando.
Por um segundo absurdo, esqueço o calor. Esqueço o medo. Há algo naquela figura que não combina com a destruição ao redor; uma calma feroz, quase indecente, como se o incêndio obedecesse antes mesmo de tocar sua pele. Não vejo seu rosto direito, só o contorno dos ombros largos, a mão fechada ao lado do corpo e dois olhos claros demais para pertencerem à madrugada.
Meu corpo reconhece ameaça. Meu sangue, traidor, reconhece outra coisa.
Ele inclina a cabeça, como se também tivesse me sentido entre a fumaça, e a certeza me atravessa com mais força que o fogo: seja quem for, não veio para me salvar. Veio para me encontrar.
Não fico para descobrir por quê. Dou as costas e corro.
Assim que me afasto o suficiente, respiro fundo e abro o envelope.
"O pacto não acabou. O Alfa virá. Não recuse, mas também não se curve."
Meus dedos apertam o papel até amassá-lo. E, antes que eu consiga duvidar da carta, penso nos olhos claros entre as chamas e no modo como, por um instante, o perigo teve forma de homem.
