Capítulo 2 O fogo e o selo
Kaelen Hook.
O fogo não deveria ter aquela cor.
Chamas comuns dançam feito animais famintos: laranja, dourado, vermelho vivo. Aquelas eram mais antigas. Mais baixas. Mais obedientes. Ardendo em vermelho escuro nas bordas e azulando no centro, como se alguém tivesse aberto uma ferida no meio da madrugada e deixado a magia sangrar pelas tábuas da velha livraria.
Parei do outro lado da rua, onde a fumaça ainda não escondia completamente a fachada. O cheiro de papel queimado, verniz antigo e feitiço malfeito me arranhou a garganta. Meu lobo rosnou dentro de mim, inquieto sob a pele negra, empurrando contra meus ossos como se pudesse atravessá-los e correr para dentro das chamas.
Não deixei.
Um Alfa que corre sem pensar condena mais do que a si mesmo. Condena o clã inteiro.
Ainda assim, tive que fechar as mãos com força para não avançar. A cada estalo da madeira, a marca antiga no meu peito queimava sob a camisa. O selo do pacto Rook-Thorne, gravado em sangue antes mesmo do meu nascimento, reagia como se alguém tivesse passado uma lâmina quente sobre ele.
Ela estava lá dentro. Héstia Thorne.
Eu conhecia o nome havia anos. O conselho o repetia em voz baixa, como se uma garota criada entre livros pudesse derrubar uma fortaleza inteira. A herdeira. A última chave. A dívida viva de um pacto que muitos queriam enterrado e outros pretendiam usar como coleira.
Eu nunca gostei de coleiras.
Mas também nunca fui livre para ignorar uma promessa feita com sangue alfa.
— Meu alfa? — A voz de Malik soou atrás de mim, baixa o bastante para não chamar atenção dos humanos que começavam a se aglomerar na rua. — Devemos entrar?
Olhei para ele por cima do ombro. Malik era grande, leal, impaciente. Como todos os meus melhores guerreiros, confundia proteção com invasão.
— Ninguém entra sem minha ordem.
— Mas se ela morrer...
Meu rosnado cortou o resto da frase. Alguns humanos recuaram sem entender por quê, guiados apenas pelo instinto antigo que reconhece predadores antes da razão. Malik abaixou a cabeça.
— Ela não vai morrer.
Eu disse como ordem. Como sentença. Como mentira necessária.
Porque a verdade era que eu não sabia. A magia que consumia a livraria não pertencia aos Thorne. Também não pertencia aos Rook. Era algo torcido, profano, tecido para destruir registros, apagar linhagens e fazer parecer acidente o que havia sido ataque.
Então eu a vi.
Primeiro, apenas um vulto entre a fumaça. Depois, uma mulher coberta por uma manta encharcada, os cabelos grudados no rosto, o corpo inclinado contra o calor enquanto se recusava a sair. Pequena demais diante do incêndio. Teimosa demais para sobreviver por sorte.
Héstia ergueu a mão, os dedos molhados de alguma tintura vermelha, e falou palavras que não consegui ouvir por inteiro. Mas senti o efeito no osso. O fogo hesitou.
Meu lobo se calou.
Poucas coisas no mundo conseguiam silenciar a fera dentro de mim. Dor não. Sangue não. Desafio, muito menos. Mas aquela mulher, em meio a chamas que deveriam devorá-la, ordenou à magia que se curvasse e por um instante, a magia obedeceu.
Meus olhos brancos encontraram os dela através da fumaça mas não houve reconhecimento. Ela não sabia quem eu era. Não sabia meu nome, meu clã, minhas leis ou a promessa que me prendia ao sangue dela. Ainda assim, alguma coisa passou entre nós, rápida e afiada, como uma garra riscando vidro.
Perigo reconhecendo perigo.
E, contra todo controle que eu levei uma vida inteira para construir, desejo reconhecendo destino.
Cerrei a mandíbula. Desejo era fraqueza quando nascia antes da estratégia. Destino era palavra usada por covardes para justificar escolhas ruins. Eu não podia querer a herdeira Thorne. Eu precisava dela viva, inteira e sob minha proteção até que o pacto fosse cumprido.
Proteção. Não posse.
Repeti isso mentalmente quando ela virou as costas e correu, desaparecendo por uma lateral antes que os bombeiros chegassem perto o bastante para cercar o prédio.
— Siga a amiga — ordenei a Malik. — Sem ser visto. Se alguém tocar nela, traga o braço da pessoa antes de trazer a notícia.
Ele não sorriu. Meus homens já conheciam a diferença entre ameaça e promessa.
Quando Malik sumiu na fumaça, avancei até a entrada lateral da livraria. O calor lambeu meu rosto, mas não queimou. Minha pele reconhecia fogo desde criança. Minha verdadeira forma, o lobo de pelo escuro que o clã chamava de presságio, se agitava sob minha carne, pronta para romper a qualquer sinal de ameaça.
Entrei apenas o bastante para encontrar o que eu precisava.
No chão, perto de uma prateleira tombada, havia cinzas formando um círculo imperfeito. Dentro dele, a marca que eu temia: um selo quebrado em três linhas, cortado por uma runa cega. Não era assinatura de bruxa comum. Era aviso.
Alguém sabia que o pacto despertaria naquela noite.
Alguém tentou chegar à herdeira antes de mim.
A raiva veio fria. Profunda. A ira silenciosa de um Alfa que identifica uma ameaça ao próprio território. E Héstia Thorne, quer ela soubesse ou não, acabara de se tornar território disputado.
Eu não permitiria.
Do lado de fora, sirenes cortaram a noite. Virei antes que os humanos pudessem me ver saindo ileso de dentro do incêndio. A fumaça grudava na minha camisa, mas, por baixo dela, o selo no meu peito continuava queimando.
Levei dois dedos à marca, sentindo o chamado antigo pulsar na pele. O pacto não pedia permissão. Nunca pediu.
Pela primeira vez desde que assumi o clã Hook, a obrigação tinha um rosto. Tinha coragem. Tinha olhos que me encontraram no meio do fogo e não se curvaram.
Sorri sem humor.
Então era verdade.
A herdeira não se curvava.
Melhor assim.
Eu nunca soube o que fazer com pessoas fáceis de dobrar.
