Capítulo 3 O nome proibido

"O pacto não acabou. O Alfa virá. Não recuse, mas também não se curve."

Li a frase uma vez. Depois outra. Na terceira, as palavras já não pareciam um aviso da vovó: pareciam dedos gelados, fechados ao redor da minha garganta.

A rua atrás da livraria estava repleta de sirenes, fumaça e gente falando alto demais. Eu estava sentada no meio-fio de uma travessa estreita, distante o suficiente de toda a confusão, com a manta úmida escorregando dos ombros. O envelope ainda entre meus dedos, como se ainda estivesse no calor do incêndio.

Pacto. Alfa. Não recuse. Não se curve.

Minha avó tinha um talento peculiar para transformar conselhos em enigmas.

Foi assim desde sempre: cada presente precisava ser descoberto entre charadas que eu me divertia resolvendo. Veio dela o meu talento pra ervas, o meu amor pelos livros, e até a bruxaria que ela sempre pediu que eu escondesse a todo custo.

Enquanto esteve viva, ela escondia respostas em prateleiras erradas, conjurava nomes em capas de livros e fingia que silêncio era proteção. Eu achava isso irritante. Agora, com a livraria dela ruindo, em chamas atrás de mim, comecei a entender que talvez ela não tivesse escondido coisas de mim.

Talvez tivesse escondido coisas por mim.

Dobrei a carta, mas não consegui guardar.

A palavra Alfa parecia quase pulava do papel amarelado, batendo contra a palma da minha mão no mesmo ritmo do meu coração. Pensei na silhueta que parecia calma demais. Nos olhos claros brilhando no meio da noite. Não havia rosto completo na minha memória, só fragmentos: ombros largos, postura de quem não pede licença ea certeza absurda de que ele me viu enquanto o resto das pessoas só enxergava fumaça.

Meu corpo arrepiou, e eu odiei isso.

— Você está sangrando. — A voz de Elara me arrancou do transe.

Levantei a cabeça. Ela vinha pela travessa segurando contra o peito o livro que eu salvei, os cabelos úmidos colados ao rosto, os olhos vermelhos de fumaça e raiva.

— Eu estou bem.

— Você sempre diz isso antes de desmaiar, quebrar alguma coisa ou fingir que não está fazendo uma idiotice.

Tentei responder, mas a garganta arranhou. O gosto de cinza ainda estava na minha língua. Elara se agachou diante de mim e só então percebeu a carta. Seu rosto mudou antes que ela dissesse qualquer coisa.

— De onde saiu isso?

— Do livro falso da vovó. Caiu quando eu peguei os frascos.

Ela estendeu a mão, mas não tocou no papel. Elara era corajosa, debochada e incapaz de levar qualquer autoridade a sério, mas havia coisas antigas o bastante para calar até ela. Vovó era uma dessas antiguidades que ela respeitava.

Sempre foi assim, desde que corríamos juntas no quintal da minha avó e ela obedecia como se tivéssemos o mesmo sangue. Minha avó ensinou a minha amiga com a mesma dedicação que tinha comigo, por isso, Elara, mais que uma amiga, se tornou uma irmã.

— Héstia... — sua voz baixou. — Esse símbolo no canto é dos Hook.

A palavra bateu em mim com mais força que o calor das chamas. Hook. Eu já tinha ouvido aquele nome em cochichos no mercado, em histórias contadas pela metade, em avisos que adultos davam quando achavam que crianças não entendiam.

Lobos. Território ao norte. Um Alfa que ninguém desafiava duas vezes. Pior do que isso: sempre houve uma guerra fria entre bruxas e lobos, duas espécies que se odiaram desde a criação. Com isso, me pergunto: O que uma carta com selo de lobos, fazia na biblioteca de uma Bruxa elementar?

— Kaelen Hook — sussurrou Elara, quase inaudível, como se pronunciar o nome pudesse trazê-lo pela sombra.

Meu estômago se contraiu. O nome tinha peso. O som ficou preso atrás dos meus dentes, áspero e perigoso.

— Você o conhece?

— Ninguém conhece Kaelen Hook — ela respondeu. — As pessoas sobrevivem a ele, quando têm sorte.

Eu ri sem humor, porque o medo, quando fica grande demais, às vezes encontra a pior forma de sair.

— Ótimo. Minha avó incendiou minha vida e ainda me deixou um encontro marcado com um assassino folclórico.

— Tecnicamente, também somos espécies folclóricas. — Deu de ombros.

— Vampiros morrem com bala de prata, e os lobos? — Cruzei os braços, encarando Elara.

— Héstia! — Advertiu — nem brinca com isso...

O aviso dela desarmou meu sarcasmo. Olhei outra vez para a livraria. As chamas já começavam se curvar sob água e a magia disfarçada de acaso, mas o prédio parecia menor. Mais velho. Mortal. Ali dentro estavam as receitas da minha avó, os mapas que ela dizia serem lendas, os bilhetes que nunca me deixava ler e metade das respostas que eu só perceberia tarde demais que precisava.

Apertei o livro contra o colo de Elara.

— Precisamos descobrir o que ela escondeu.

— Precisamos sair daqui antes que descubram que você saiu com qualquer coisa da loja — ela corrigiu. — A polícia vai fazer perguntas. Os bombeiros também. E se os Hook estiverem envolvidos...

— Eles não vão descobrir nada. Os livros foram encantados e eles só verão cinzas.

— Mais um motivo pra gente sair daqui e voltar depois.

Guardei a carta dentro da blusa, junto à pele. A frase continuava queimando em mim.

Não recuse. Não se curve.

Como se minha avó tivesse anotado cada defeito meu e decidido transformar todos em instrução de sobrevivência.

— Você viu alguém? — perguntei.

Elara franziu a testa.

— Além de você tentando morrer de modo dramático?

— Um homem. Entre as chamas. Alto. Olhos... brancos.

Elara empalideceu.

Por alguma razão, aquela reação me assustou mais do que o incêndio. Elara sabia mais do que dizia. Todo mundo parecia saber mais do que dizia. Eu era a única peça andando cega em um tabuleiro montado antes do meu nascimento.

— Era ele? — Minha voz saiu baixa demais.

Elara demorou um segundo para responder. Ao longe, uma viga cedeu dentro da livraria com um estrondo que fez as pessoas gritarem. Ela segurou meu pulso e me puxou de pé.

— Se você viu olhos brancos, Hés, então ele já viu você.

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