Capítulo 4 O alfa à porta

Kaelen Hook.

Quando voltei à porta principal da livraria, o fogo já estava controlado.

Algumas chamas mais teimosas lambiam as vigas partidas com uma persistência doentia: vermelhas nas bordas, azuladas no centro, como brasas que se recusavam a morrer porque ainda tinham algo a esconder: fogo mágico.

A água dos bombeiros escorria pelo chão, misturada a cinzas, vidro estilhaçado e páginas carbonizadas, aliás, mesmo com todo o fogo, haviam muitas páginas intocadas.

Parei no batente destruído.

Não precisei anunciar minha presença. Nunca precisei.

O silêncio chegou antes do meu nome, espalhando-se pela rua como uma sombra obediente. Conversas morreram. Um bombeiro com o capacete torto abaixou a mangueira sem perceber. Dois policiais que discutiam perto da fita de isolamento deram um passo para trás ao mesmo tempo, os olhos evitando os meus sem entender a própria cautela.

Humanos chamavam aquilo de instinto. Lobos chamavam de reconhecimento.

Ergui o rosto devagar. Meus olhos brancos refletiram as últimas labaredas e devolveram à escuridão um brilho gélido. Vi o reflexo deles no vidro quebrado de uma vitrine: dois pontos claros em um rosto endurecido pela fumaça, pelo dever e pela irritação crescente de chegar tarde demais.

Um dos policiais levou a mão ao coldre por puro reflexo. Não chegou a tocar a arma. Meu lobo ergueu a cabeça dentro de mim e o homem recuou como se tivesse ouvido um rosnado que nenhum ouvido humano poderia captar.

— Área isolada, senhor — tentou dizer.

Passei por ele sem responder.

A fita amarela foi desintegrada contra meu peito. Nenhum deles me impediu.

Não por saberem quem eu era. Pelo menos não conscientemente. Os humanos daquele bairro podiam fingir que lobos eram lendas, que bruxas eram superstições de famílias antigas e que pactos de sangue pertenciam a livros mofados. Mas o corpo humano se lembra de coisas que a mente moderna tenta negar. Eles sentiram o predador atravessar a linha e fizeram o que presas inteligentes fazem: saíram do caminho.

O primeiro cheiro de magia atingiu as minhas narinas. Na verdade, vários cheiros misturados. Respirei fundo, tentando assimilar cada um.

A primeira magia era elementar. Antiga. Experiente. Firme como raiz atravessando pedra. Não havia hesitação nela, apesar da idade da bruxa que a lançara. Reconheci terra sob cinza, água chamada às pressas, fogo dobrado por uma vontade disciplinada. Aquilo pertencia à avó de Héstia Thorne: Rhea Thorne. Sua assinatura jazia nas paredes, nos livros protegidos por encantamentos ocultos, nos frascos escondidos entre brechas propositalmente colocadas entre estantes.

A velha Thorne havia preparado aquele prédio para sobreviver a um ataque. Não para impedir o fogo. Para impedir que o fogo encontrasse o que realmente importava.

A segunda magia era mais jovem. Verde, úmida, viva. Natural.

Tinha cheiro de folhas esmagadas entre os dedos, chuva presa em terra quente e sangue correndo depressa demais depois do susto: Héstia. Reconheci antes mesmo de aceitar que reconhecia. O rastro dela estava espalhado em círculos irregulares perto da saída lateral, misturado ao vermelho de uma tintura ritual e à teimosia de quem ordenou ao fogo que se ajoelhasse, sem saber o tamanho do inimigo.

Havia outro fio da mesma natureza acompanhando o dela. Mais leve, mais afiado, como hera subindo por uma cerca. Elara Vance. A amiga carregava magia natural também, mas de outro temperamento: menos instintiva, mais defensiva, pronta para se enrolar ao redor de Héstia e ferir qualquer mão que chegasse perto.

Interessante.

Duas bruxas naturais criadas sob o teto de uma elementar era uma escolha, não acidente. A velha Thorne não apenas protegeu a neta. Ela a treinou cercada por outra magia compatível, ainda não sei se para esconder seu rastro, ou para fortalecê-lo. Talvez para garantir que, quando eu finalmente viesse, Héstia não estivesse sozinha.

Meu maxilar travou.

A terceira magia veio por último.

E, quando veio, meu lobo mostrou os dentes.

Não era terra, nem folha, nem fogo domesticado. Era um cheiro ruim de coisa fechada há tempo demais: metal oxidado, carne podre, água parada em um túmulo antigo. Sangue ruim. Desconhecida. Corrompida. A magia se agarrava às cinzas como piche, tentando imitar o caos natural de um incêndio, mas havia intenção demais naquela sujeira.

Alguém a lançou para apagar provas.

Ou para apagar Héstia.

A ideia fez meu controle vacilar. O alfa em mim queria caçar. O homem que eu precisei me tornar queria respostas antes do sangue. Os dois concordavam em uma única coisa: quem tocou aquela livraria não entendeu quem havia acabado de provocar.

Agachei perto do círculo de cinzas e passei dois dedos por uma marca quase apagada no assoalho. A runa cega. Não pertencia a nenhum clã lobo sob meu domínio. Não pertencia às famílias de bruxas que eu mantinha vigiadas. Aquilo vinha de fora, de um nome que alguém teve coragem de esconder até de mim.

— Meu alfa.

A voz de Malik veio da entrada lateral, baixa demais para os humanos ouvirem, mas carregada o bastante para fazer meu lobo parar de rosnar por um segundo.

Levantei devagar, mas a calma foi apenas aparência. Sob minha pele, o lobo avançou, pressionando, farejando o ar como se pudesse encontrar Héstia apenas pela menção do nome dela.

— Onde ela está? — perguntei.

— Viva — Malik respondeu primeiro, porque era esperto o bastante para saber qual informação separava uma conversa de uma caçada. — Ferida, mas de pé. Elara a  encontrou. As duas conversaram numa travessa, longe dos humanos. Observei tudo de longe, como ordenou.

O alívio não me suavizou. Apenas abriu espaço para outra coisa, mais escura e mais antiga. Héstia estava viva, mas alguém a queria morta.

— E? — Minha voz saiu baixa. Baixa demais. A fumaça pareceu prender a respiração junto com Malik.

Malik encontrou meus olhos através da fumaça que ainda rastejava pelo chão. Por um instante, ele hesitou, e essa hesitação fez minhas unhas pressionarem a palma até quase romper a pele.

— Elas falaram sobre o pacto — disse ele. — E sobre você.

O fogo estalou atrás de mim como se risse.

— Diga exatamente o que ouviu. — Trovejei.

Malik engoliu em seco. Malik, que já encarou lâminas de prata sem piscar.

— Ela perguntou se era você o homem dos olhos brancos.

A marca do pacto queimou no meu peito com tanta força que, por um segundo, as chamas pareceram se curvar em minha direção.

Então Héstia Thorne não apenas me viu.

Ela começou a me procurar.

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