Capítulo 5 Submissão não é o meu idioma
Héstia Thorne.
A casa antiga da minha avó ficava no fim de uma estrada estreita, escondida atrás de árvores tão velhas que pareciam poder cair a qualquer instante. Quase um mausoléu escondido, guardando ervas e elementos mágicos de uma Bruxa que, para os humanos, era só um curandeira. Quando Elara estacionou diante do portão enferrujado, o silêncio caiu sobre nós com um peso diferente do silêncio da livraria. Lá, o fogo ainda gritava. Aqui, tudo parecia prender a respiração.
Desci do carro segurando o livro falso contra o peito. A capa chamuscada ainda soltava cheiro de fumaça, couro velho e alguma coisa amarga que eu não sabia identificar. Era pesado demais para um objeto oco. Ou talvez eu estivesse fraca demais para carregar o que restou da minha vida.
— Não gosto disso — Elara disse, fechando a porta do carro com cuidado.
— Você não gosta de nada antes das seis da manhã.
— Eu gosto de sobreviver. É diferente.
A chave ainda estava debaixo do vaso rachado de alecrim, exatamente onde vovó sempre deixava, apesar de achar que esconderijo óbvio era coisa de amadores. A porta rangeu quando empurrei, exalando cheiro de madeira velha, ervas secas e mofo.
Elara entrou logo atrás de mim. Sem pedir licença, atravessou a sala pequena, foi até a mesa de madeira no centro da cozinha e depositou ali os frascos que tinha salvado do incêndio. Um a um: âmbar, verde-escuro, azul quase preto, roxo, laranja. O vidro tilintou baixinho.
— Isso é tudo que consegui pegar — ela disse. — O resto ficou lá.
Olhei para os frascos. Minha garganta apertou de um jeito ridículo. Eu deveria chorar pela livraria, pela minha avó, pelas respostas perdidas, mesmo sabendo que as gotas do frasco vermelho salvariam tudo o que preciso. Em vez disso, fiquei olhando aqueles pequenos recipientes como se fossem sobreviventes de guerra.
— Você vai ficar bem sozinha? — Elara perguntou.
A resposta honesta era não. Mas eu já tinha perdido demais naquela noite para entregar também a minha teimosia.
— Vou. Só preciso de um banho e de cinco minutos sem sirenes, fogo ou lobos folclóricos.
Ela não sorriu. Isso me preocupou mais do que qualquer sermão.
— Tranque a porta. Sal nas janelas. E se sentir qualquer coisa estranha, me liga.
— Elara.
Ela me olhou.
— Obrigada por não me deixar morrer dramaticamente.
Dessa vez, ela soltou um riso curto, depois me abraçou com força suficiente para doer nas costelas e foi embora antes que qualquer uma de nós transformasse o momento em um mar de lágrimas. Elara foi criada pela minha avó desde a adolescência, quando seus pais sumiram em um acidente estranho. Antes disso ela quase já morava aqui, mas por mais que eu repita que a velha casa da vovó é nossa, ela prefere o próprio espaço, e eu respeito.
Assim que o carro dela desapareceu na estradinha de terra batida, tranquei a porta. Não coloquei sal nas janelas. Talvez por estupidez. Talvez porque obedecer instruções, mesmo as úteis, sempre me pareceu uma forma pequena de rendição.
Subi para o banheiro desejando tirar o cheiro ruim do corpo. A água demorou a esquentar e eu fiquei ali, diante do espelho, encarando uma versão de mim que parecia ter atravessado outro mundo e voltado pela metade. Fuligem no pescoço. Um corte fino no ombro. Olhos grandes demais para o rosto pálido.
Entrei no chuveiro devagar. A água quente desceu pelos meus cabelos, pesou nos fios, correu pela nuca e levou junto os rastros do incêndio. Suspirei quando o calor tocou meus músculos doloridos. Não havia nada de bonito em sobreviver a um incêndio, mas havia algo quase íntimo em sentir meu próprio corpo voltar a pertencer a mim.
Passei as mãos pelos braços, pela cintura e pelas costelas marcadas pela pancada da fuga, reconhecendo cada dor como prova de que eu ainda estava viva. A água desenhou caminhos lentos pela minha pele, e por um instante vergonhoso, pensei nos olhos brancos entre as chamas. No modo como aquele desconhecido me olhou sem me tocar. Como se já soubesse onde eu terminava e onde o perigo começava.
Fechei o registro antes que o pensamento ficasse quente demais.
Desci alguns minutos depois ainda enrolada na toalha, com os cabelos pingando nas costas, observando a carta escondida entre as dobras da roupa que eu não tive coragem de vestir. A casa estava fria. A cozinha, iluminada apenas pela lâmpada amarela sobre a mesa, o ambiente parecia muito pequeno para comportar todas as perguntas que me esperavam.
Sentei diante do livro falso.
Coloquei os dedos na fenda quase invisível da lombada e puxei. A capa cedeu com um rangido. Lá dentro havia vários papéis dobrados, desenhos estranhos, círculos cortados por runas, mapas de território e nomes escritos com a letra da minha avó, que eu reconheci de imediato.
Antes que eu pudesse puxar o primeiro papel, a casa mudou.
Como se a noite tivesse ganhado forma humana e decidido ocupar minha cozinha. Droga, eu devia ter usado o sal.
Kaelen Hook estava parado junto à porta dos fundos.
Alto. Forte. Imóvel. Os olhos brancos brilhando na penumbra. Ele não parecia ter invadido a casa. Parecia que a casa, traidora, sempre soube que ele entraria. Apertei a toalha contra o peito e ergui o queixo antes que ele percebesse o efeito que tinha causado.
— Você costuma invadir casas sempre, ou está inaugurando uma tradição comigo?
O olhar dele desceu por uma fração de segundo. Foi rápido. Controlado. Ainda assim, senti a pele arrepiar onde a água do banho ainda esfriava. Quando Kaelen voltou a me encarar, percebi que teríamos um longo embate pela frente.
— O pacto despertou. Você vem comigo.
Ri, porque a alternativa era jogar um frasco na cabeça dele e descobrir se lobos sangravam igual aos homens. E eu não estava a fim de desperdiçar nenhum frasco com ele.
— Acho que você confundiu pacto com sequestro.
Ele deu um passo à frente. Sustentei o nariz empinado.
— Eu não vim pedir.
A voz dele deveria me assustar. Assustou. Mas eu nunca ia admitir.
— Que pena — respondi. — Primeiro porque eu não sei de pacto algum, segundo porque não quer conviver com quem fica com cheiro de cachorro molhado após a chuva. Por último, e não menos importante, eu gosto ainda mais de desobedecer do que você gosta de mandar.
— Não me desafie, bruxa. — Os olhos brancos brilharam mais forte. Ele deu um passo à frente.
Vovó havia morrido meses antes, levando consigo respostas que alguém tentou arrancar dela durante anos sem sucesso. A livraria virou pó, e eu estou agora seminua, diante de um cachorro molhado querendo mandar em mim.
De repente, me vi envolvida em runas, mundos mágicos e cães folclóricos, e ao invés de fugir, eu me aproximei.
Sorri sem humor.
Claro que o destino, essa coisa arrogante e sem senso de autopreservação, escolheria a mim que preferiria incendiar o meu caminho a atravessá-lo guiada pela mão de um totó qualquer.
— Ou o que, cachorrinho? — Ergui a sobrancelha, apertando mais a toalha contra meu corpo.
Kaelen rosnou. Ele queria obediência.
O problema é que eu sempre me recusei a obedecer.
