1 Prólogo. Oferta tentadora
Prólogo
Engolindo em seco, encaro aquelas profundezas ardentes que parecem me atravessar — até os ossos, até os cantos mais distantes da minha alma.
Droga... ele é realmente muito bonito. Daquele jeito masculino, perigoso. Cabelo preto como azeviche num corte estiloso, uma barba bem aparada e alinhada, sobrancelhas fortes, nariz reto e lábios finos agora comprimidos numa linha furiosa e rígida.
Eu me pergunto que cor são os olhos dele quando a besta dentro dele não está no controle.
Alô?! Alina! Você está prestes a levar uma multa até o último centavo que você tem — se tiver sorte — e está pensando na cor dos olhos dele?!
Raiva. É essa a cor. Furiosos, putos — é isso que eles são!
Mentir não vai ajudar. Nem dar desculpas ou tentar me safar na conversa. Eu estraguei tudo. E feio. No meu primeiro dia!
E, sejamos sinceros — provavelmente este não é só o meu primeiro dia, mas o meu último... e tomara que seja só o meu último dia de trabalho, não o meu último dia de vida.
Afinal, ele é um Alfa. Uma figura de poder e lei. Ele não vai realmente me matar... vai?
Mas do jeito que ele está me olhando, começo a achar que vai. Eu não posso esquecer que ele é uma besta. Uma das mais perigosas do seu tipo. Nunca dá pra saber o que esperar deles — e eles nunca sofrem consequências.
Ele podia me rasgar em pedaços, enterrar os restos no território enorme dele, e boa sorte pra quem tentasse me encontrar.
Até a Lakisha disse que ele não tolera erros e pune com dureza.
Eu tento me mexer, só pra ficar numa posição mais confortável pra receber seja lá qual for a punição verbal, moral ou — mais provavelmente — financeira que vem aí... mas, no segundo em que me movo debaixo dele, ouço um rosnado baixo, gutural, e vejo um lampejo de dentes afiados.
Meu Deus. Ele está me prendendo com ainda mais força agora.
Meu coração está prestes a explodir de medo — e, sejamos honestos, pela posição comprometedora em que eu estou.
Pronto! Morri. Ele vai me matar, bem aqui, bem agora.
Será que eu vou ter um túmulo?
Uau, que pensamento...
Aperto os olhos e solto um suspiro pesado. Péssima ideia.
Meus pulmões se enchem de um cheiro — o cheiro dele — que faz arrepios correrem por todo o meu corpo.
Ele cheira exatamente como a cama dele... só que mais forte, mais profundo, absurdamente melhor.
Eu inspiro uma vez.
Duas.
E meus olhos se arregalam, em choque, quando sinto ele se inclinar, roçar o focinho no meu pescoço, respirando pesado, o nariz deslizando pela minha pele enquanto um som grave vibra no peito dele.
Bem. É isso. Ele vai na jugular. Como em qualquer documentário de predador.
É aqui que a minha vida termina. Conveniente que os lençóis sejam pretos — mais fácil esconder o sangue...
Uma Oferta Tentadora
— Alina, você sabe que o Maxim conseguiu uma posição decente trabalhando com a alcateia dominante, né? — Jasmina começou, com cuidado, depois da nossa conversa rápida. — Ele agora faz parte da guarda pessoal do Alfa e tem contatos — humanos e lobos. Enfim, tem uma vaga em aberto pra serviço de limpeza. Temporária. Eu não sei todos os detalhes, mas tenho um número pra você ligar. Eu realmente acho que você devia tentar. Por que não? A alcateia paga muito bem, e você está precisando do dinheiro.
É... dinheiro. Ultimamente eu sempre podia usar mais disso.
Logo depois que me formei na universidade, meus pais morreram. Talvez a fiação da casa fosse velha, talvez meu pai tenha adormecido fumando de novo. Mas a casa pegou fogo enquanto eles dormiam — e eles nunca acordaram.
Foram encontrados na cama, queimados a ponto de não serem reconhecidos.
Nossa vila ficava no meio do nada. Tão no meio do nada que nem um único caminhão de bombeiros conseguiu chegar até lá. O quartel mais próximo ficava a duas horas de distância. Quando chegassem, não haveria mais nada a salvar.
Os vizinhos nem se deram ao trabalho de tentar. Só ficaram olhando queimar.
Minha irmãzinha viu tudo. Tanya. Ela tinha só doze anos na época.
Não sei que anjo estava olhando por ela, mas naquela noite foi a primeira vez na vida que ela dormiu na casa de uma amiga.
Caso contrário... teriam sido três caixões.
Tudo o que nos restou foram algumas peças de ouro encontradas nas cinzas e o velho Opel do meu pai. Vendemos o terreno — a preço de banana. Quem é que quer morar num lugar daqueles?
Eu tentava me estabelecer na cidade onde eu tinha feito a universidade. Agora eu me mato de trabalhar para dar uma vida melhor para a minha irmã — e garantir que a gente nunca mais volte para aquele canto esquecido do mundo.
Ela está no primeiro ano do ensino médio agora, e eu já estou juntando dinheiro para a faculdade dela. Quero que ela tenha roupas bonitas, que se encaixe, que não seja ridicularizada como eu fui.
Ainda me lembro de como meus colegas me chamavam de “Alina, a caipira” só por causa de como eu me vestia e de onde eu vinha.
Eu não vou deixar isso acontecer com a Tanya.
— Isso talvez ajude mesmo — suspiro, exausta, com os olhos já tentando se fechar. — Me manda o número. Eu ligo.
— Vou dizer ao Maxim que você está interessada, para ele dar uma força. Você sabe como essas vagas somem rápido — responde Jasmina.
— Obrigada — digo com sinceridade, encerrando a ligação.
É sábado. Era para eu estar de folga do meu segundo trabalho — aquele em que eu limpo escritórios das nove da noite até meia-noite.
Mas ontem foi a festa de Ano-Novo da empresa, e ela se estendeu por horas.
Então, hoje de manhã, a supervisora ligou e mandou eu limpar tudo antes de começar o expediente.
Adeus, dormir até tarde.
Durante a semana, eu trabalho como professora de História numa escola do bairro — a mesma em que a Tanya estuda.
Mexendo a panela de borsch que iria nos alimentar pelos próximos dias, por fim desliguei o fogão e soltei um suspiro profundo, exausto. Cada parte do meu corpo doía. Depois de um dia inteiro de aulas, eu ainda tinha que resolver coisas na rua, fazer compras e cozinhar refeições suficientes para aguentarmos a semana.
Pelo menos eu não precisava me preocupar com a limpeza — essa responsabilidade era toda da mais nova e, graças a Deus, ela dava conta e sem reclamar. Para falar a verdade, ela também se vira bem na cozinha. Mas hoje estávamos com pouca comida, então cozinhar acabou ficando naturalmente comigo.
Arrastando os pés cansados em direção ao quarto, tudo em que eu conseguia pensar era em desabar na cama. Só algumas horas de sono... era tudo de que eu precisava. Amanhã seria outro dia longo e, se eu não descansasse agora, não sobreviveria.
Bem, tudo bem. Amanhã de manhã eu durmo direito. À tarde, vou corrigir as provas finais e, no fim do dia, volto para os escritórios para deixá-los prontos para a nova semana de trabalho.
