3 Trabalhos

Ao que tudo indicava, aquela era a casa do Alfa Wayland — um lugar onde o próprio homem não morava de fato em tempo integral. Ele só aparecia de vez em quando. O que, na minha opinião, era um pouco estranho. A casa era deslumbrante e tinha tudo o que qualquer pessoa poderia precisar.

Mais tarde, Lakisha confessou que aquela propriedade tinha sido construída havia quase cinco anos, mas ninguém nunca tinha morado ali de verdade. O Alfa tinha um apartamento na cidade onde passava a maior parte do tempo.

“Uma loba mais velha daqui costumava manter tudo em ordem por aqui”, explicou Lakisha, com um traço de tristeza na voz. “Mas o tempo não poupa ninguém... ela faleceu faz pouco tempo. Uma pena. Era uma boa mulher.”

“Por isso precisamos de alguém novo, só temporariamente. A casa é grande, mas como não é realmente habitada, o que precisa é uma limpeza básica — tirar o pó das superfícies e trocar a roupa de cama, deixar tudo fresco. Tem que ficar impecável. Você vai precisar vir dia sim, dia não, bem cedo, para arrumar os quartos. E sempre deve falar com a segurança antes de entrar, para confirmar se o Alfa não está em casa. Se ele estiver, você não vai entrar no quarto dele. Limpe o resto e espere ele sair para arrumar a suíte. Ele pode, de vez em quando, passar a noite aqui e, acredite em mim, é melhor não ficar no caminho dele”, disse ela com severidade, enquanto me guiava pela propriedade e explicava o serviço. “A segurança vai ser avisada, e eu vou fazer um passe especial para você. Também vai ter um uniforme de limpeza. Você pode se trocar na salinha dos funcionários no primeiro andar. Alguma pergunta?”

“E o pagamento?”, perguntei, com a preocupação mais importante martelando na cabeça.

“Ah, sim”, Lakisha sorriu, tirando um bloquinho e uma caneta. Ela rabiscou um valor e me entregou o papel.

Quando vi o número que ela tinha escrito, fiquei pasma. Era o triplo do que eu ganhava esfregando prédios de escritórios — e isso, com certeza, foi uma surpresa e tanto. Eu não me importava de acordar mais cedo ou terminar antes das aulas começarem. Sinceramente, por aquele dinheiro, eu até podia largar o trabalho do escritório. Mas eu não ia me precipitar — primeiro, eu me acostumaria com esse novo bico.

Lakisha notou o brilho nos meus olhos e sorriu, satisfeita.

“Então imagino que você está aceitando a vaga?”

“Sim”, respondi na hora. “Mas me diga: por que você não contratou alguém do assentamento aqui perto?”

“Este assentamento é a nossa alcateia”, ela disse, sorrindo. “Todo mundo aqui tem suas próprias funções e seu lugar na sociedade. A maioria ocupa cargos e patentes de prestígio, então...”

“Limpar não seria... respeitável”, completei a frase dela, entendendo o recado. Mas eu não tinha orgulho ferido — eu não me envergonhava de trabalho honesto, nem mesmo de ser faxineira.

“Pode-se dizer que sim.” Ela soltou uma risadinha quando saímos da casa e seguimos em direção aos portões. “Então está combinado. Amanhã de manhã, você começa. Mas, Aline, escute bem: o Alfa Wayland não tolera erros nem negligência. Ele pune com severidade. Não nos decepcione.”

“Vou fazer o meu melhor”, prometi, e nos despedimos.

Entrando no carro, fui para casa, remoendo tudo o que tinha acabado de ouvir. Então aquilo não era só um bairro chique — era o território privado da alcateia. Isso explicava a entrada vigiada e as cercas. Os lobos de alta patente da nossa região moravam ali. Bom, tudo bem. Que vivessem do jeito que quisessem. Contanto que pagassem em dia, eu não ligava.

Em casa, fui recebida pelo aroma irresistível de borscht, e meu estômago roncou na hora. Tanyusha já estava acordada e comendo, e os cheiros deliciosos se espalhavam pelo apartamento.

Cumprimentei minha irmã e me sentei com ela à mesa depois de esquentar uma tigela para mim.

“Come direito”, cutuquei. Ela comia e, ao mesmo tempo, rabiscava alguma coisa no caderno. Como professora, eu me orgulhava, mas saúde vinha primeiro. “Estudar pode esperar.”

“Eu sei, é só que essa apresentação está me deixando nervosa”, Tanya suspirou. “Por que a gente sequer tem que fazer um show para o Alfa?”

Eu entendia a frustração dela. Nossa escola não era lá grande coisa, então a administração recorria ao Wayland em busca de patrocínio. Não dá para saber só de olhar para uma criança se ela é humana ou lobisomem sem testes especiais, então tanto o prefeito (um humano) quanto o Alfa eram responsáveis pelos assuntos juvenis na nossa região. O prefeito não se dava ao trabalho de nos dar atenção, então nossa única esperança era Wayland.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo