4 Amador

Ele vinha à nossa escola com uma comitiva, e a gente precisava causar uma boa impressão. Um concerto, apresentações dos alunos — todo aquele desfile. Tanya estava entre os melhores estudantes que deveriam falar.

— Bom, você sabe que a escola precisa de verba pra consertos e desenvolvimento — dei de ombros, divertida. — A gente vai dançando conforme a música.

— Como se ele fosse ligar pras nossas apresentações idiotas — Tanya bufou, enfim largando o caderno de lado e se concentrando na comida. — Ele vai morrer de tédio antes da gente terminar.

— Então faz o seu discurso tão bom que ele queira ouvir — aconselhei, com um sorriso. — Senão, você vai ser acusada de homicídio culposo.

— Haha — ela debochou, com um sorrisinho de canto. — Se eu quiser deixar esse circo divertido, vou ter que me vestir de palhaça e fazer truques de mágica. Ou melhor ainda: mandar você fazer o discurso — pelada. Aí com certeza eles iam prestar atenção.

— De onde você tira essas coisas? — estreitei os olhos, vendo-a rir.

— Duas maçãs não caíram longe da mesma árvore — ela respondeu, com um sorriso malicioso.

Depois do nosso… combo de café da manhã com almoço, deixei a louça com ela e fui corrigir as provas finais dos meus alunos do 8º e 9º ano. Faltava uma semana para as férias de inverno, e eu precisava fechar as notas.

Segurando um bocejo, comecei a decifrar a letra deles. Algumas crianças escreviam lindamente; outras… era como se um demônio tivesse possuído as canetas. Perdi a noção do tempo revisando o trabalho. Meu pescoço doía, minhas costas latejavam e meus olhos se recusavam a focar, mas eu terminei. Alonguei para soltar a rigidez e fiz uma série rápida de exercícios leves.

Depois de um lanche rápido, era hora de ir para os escritórios. O prédio não ficava longe de casa e, assim que saí do elevador, o fedor de bebida passada, salame e cítricos me acertou em cheio. Pelo visto, alguém achou que uma festa do escritório não bastava e fez a própria farra depois do expediente. Com uma semana e meia ainda pela frente até o Ano-Novo, eu realmente esperava que isso não virasse rotina diária.

Quando me viram chegar com meu carrinho de limpeza, o grupinho barulhento tratou de juntar as coisas e sumir. Resolvi começar pelas salas do fundo, que já estavam vazias.

Empurrando meu carrinho rangente em direção ao último escritório, não notei alguém me observando. Mergulhei o pano na água com sabão e comecei a esfregar o chão de azulejo — até sentir um tapa firme na minha bunda. Levei um susto, esbarrando numa cadeira, que tombou com um estrondo.

Ao me virar, vi a cara presunçosa e bêbada de algum moleque magricela.

— Nada mal — ele disse, me avaliando como se eu fosse um pedaço de carne. — De perto, você tem uma vibe de MILF gostosa.

Como é que é?! Eu só tinha vinte e cinco anos! Eu já estava mesmo na categoria MILF?! Tá, talvez o lenço na cabeça e o uniforme de faxina de segunda mão não ajudassem — mas eu não estava aqui num encontro! Ainda assim, doeu. Muito. Pelo menos ele não me chamou de “tia”.

— Jovem — eu disse, tentando manter a calma. — Acho que você está no escritório errado. O seu grupo está duas portas adiante, à esquerda.

— Ooooh, brava — ele arrastou as palavras, balançando um pouco. O brilho nos olhos entregava: um lobisomem jovem, claramente. Era só o que me faltava. E ainda por cima com a lua cheia brilhando do lado de fora da janela. Ótimo.

— Não luta contra — ele insistiu. — Você não vai se arrepender. Nada supera a paixão de um lobo.

Quase caí na risada na cara dele, mas me segurei. Eu já tinha ouvido cantadas parecidas antes.

— Escuta, moleque — rosnei —, tem mulheres que são pagas pra esse tipo de coisa. Vai procurar uma delas.

— Ahá! Já sei! — ele exclamou, como se tivesse sido atingido por inspiração divina. — Eu te pago!

Movido por coragem líquida e pela lua cheia, o filhote cambaleou na minha direção. Mas a fantasia dele de dar sorte morreu rápido — graças ao meu bom e velho esfregão. Ainda bem que meus patrões eram pão-duros demais pra comprar um moderno e frágil. Eu tinha um cabo de madeira sólido e, com uma única pancada, apaguei o vira-lata tarado.

— Amador — murmurei, observando-o encolhido em posição fetal no chão. Aí continuei esfregando o piso como se nada tivesse acontecido.

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