Capítulo 2

À meia-noite, eu estava de pé no centro do círculo alquímico.

Setenta e duas horas tinham se passado desde que eu encontrara a resposta no livro antigo. Nos últimos três dias, revisei repetidas vezes cada linha do círculo alquímico e conferi cada sílaba do encantamento.

Quando tudo ficou pronto, peguei a faca de gravação. Respirei fundo e abri a palma da mão esquerda. O sangue pingou no círculo alquímico sob meus pés. Círculos, heptassilabários, runas antigas — tudo se acendeu de imediato, emitindo uma luz ofuscante.

Comecei a recitar o encantamento em latim do texto antigo:

“Amor aeternus, dolor aeternus. Quod in corde meo ardet, nunc crystallum fiat.”

Um feixe dourado disparou do círculo alquímico para o céu e me envolveu. Eu me ajoelhei no chão, as unhas cravando nas rachaduras das lajes de pedra, as roupas encharcadas de suor frio. Parecia que alguém enfiava a mão no meu peito e rasgava meu coração.

Mas cerrei os dentes e não gritei. Essa dor não é nada comparada aos últimos dez anos.

Meu peito começou a brilhar. Um ponto de luz surgiu lentamente do coração. Atravessou a pele, atravessou os ossos e se solidificou no ar.

Núcleo cristalino etérico — dourado, quente, irradiando uma luz suave.

Ele flutuava diante de mim, a superfície girando com incontáveis runas minúsculas — cada uma um momento dos meus dez anos de amor. O frio na barriga quando a vi pela primeira vez. A expectativa de segurar a mão fria dela no nosso casamento. O cuidado com que eu preparava o café da manhã para ela todas as manhãs. O coração se partindo cada vez que ela me afastava. A dor no peito sempre que eu via o rosto cansado dela.

Todo o amor, toda a dor, estavam contidos naquele pequeno núcleo cristalino.

Estendi a mão, tremendo, e o agarrei. Estava quente, como se fosse algo vivo.

— Então… — minha voz saiu rouca. — É assim que se sente arrancar o amor do próprio corpo.

Olhei para mim no espelho. Meu rosto estava pálido como papel, e a luz que antes havia nos meus olhos ia se apagando devagar, substituída por algo vazio e sem vida.

Eu estou morrendo. Consigo sentir a vida escorrendo aos poucos, como areia numa ampulheta.

Não dá para adiar mais.

Às três da manhã, comecei a preparar a poção. Seguindo a receita do livro antigo, acendi o equipamento de destilação e acrescentei os ingredientes um a um. Eu vinha preparando essas coisas havia três meses — erva do luar, orvalho de prata, fragmentos de meteorito… Eu tinha economizado cada centavo e comprado tudo às escondidas no mercado negro.

O passo final. Coloquei o núcleo cristalino etérico no cadinho.

Ele afundou devagar no líquido e começou a derreter. A luz dourada se dissolveu na poção, como luz do sol líquida. O quarto inteiro se iluminou.

Com cuidado, coloquei a poção no frasco.

As veias dos meus dedos começaram a ficar transparentes, e eu via partículas douradas de éter fluindo por dentro.

Enfiei a poção no bolso e saí do laboratório.

O dia já tinha amanhecido, e o sol batia em mim, mas eu não sentia calor. No caminho, pensei em como passar esses últimos momentos com ela. Meus passos eram leves, embora meu corpo estivesse tão fraco que eu sentia que ia desabar a qualquer instante.

Então vi aquela carruagem a vapor luxuosa estacionada em frente à minha casa.

O brasão da família Blackwood reluzia no veículo — um grifo dourado de asas abertas, símbolo de poder e riqueza.

Eu parei.

A porta se abriu. Freya desceu do banco do passageiro, vestindo um casaco azul-escuro que eu nunca tinha visto antes, o cabelo esvoaçando de leve na brisa da manhã. Theodore saltou do assento do condutor e, com gentileza, abriu a porta para ela.

A mão dele repousava na cintura dela.

Ela sorriu. Aquele sorriso era como o sol da primavera, a ternura que eu sonhava ver havia dez anos. Eu nunca a tinha visto sorrir assim. Ela sempre fora indiferente, enojada e impaciente comigo.

— Theodore, você é sempre assim... — veio a voz dela, num tom dengoso que eu jamais tinha ouvido.

Theodore sorriu e disse alguma coisa, e ela lhe deu um empurrãozinho de leve. O gesto trazia uma intimidade cúmplice.

A brisa da manhã revolveu o cabelo dela. Theodore estendeu a mão e, com delicadeza, colocou uma mecha de cabelo dourado atrás da orelha dela.

Ela não se esquivou.

Eu estava parado na esquina, apertando o frasco da poção contra o peito.

— Freya — chamei, por fim.

Ela virou o rosto e, quando me viu, um lampejo nítido de impaciência passou pelos olhos dela. Como se tivesse visto um inseto que não devia estar ali.

— Você voltou? — ela disse.

Theodore arqueou uma sobrancelha, olhando para mim com um meio sorriso:

— E este é...?

Ele sabe perfeitamente quem eu sou. Aquela frase era uma provocação gratuita.

Freya não me apresentou; apenas disse friamente:

— Meu marido.

Minha garganta se apertou.

— Eu tenho uma coisa para te dar...

Freya olhou para o relógio dele com impaciência:

— Falamos depois. Tenho uma conferência acadêmica mais tarde. Theodore vai me levar de volta para eu me trocar.

— Mas... — minha voz tremeu.

— Ethan — ela me interrompeu —, eu estou ocupada. A geladeira está vazia; por que você não vai comprar alguma coisa?

Ela se virou e entrou. Theodore se encostou na carruagem, acendeu um charuto e me encarou com um meio sorriso.

Cinco minutos depois, Freya saiu. Tinha trocado de roupa: um vestido de festa roxo-escuro, e estava perfumada — aquela mistura cara de rosa e almíscar. Ela nunca tinha se arrumado para mim.

Theodore abriu a porta do carro para ela:

— Professora, vamos nos atrasar para a reunião.

Ela entrou na carruagem sem sequer me lançar outro olhar. A carruagem disparou e desapareceu na névoa da manhã londrina.

Eu baixei os olhos para o frasco da poção na minha mão. O líquido dourado cintilava de leve no vidro, como se zombasse da minha ingenuidade.

Ela nem percebeu que eu estava morrendo.

Às seis da tarde, eu me sentei na casa vazia e comecei a arrumar a bagunça.

Entrei no laboratório dela. A válvula de vapor ainda estava vazando — ela tinha se queimado na semana passada, e eu me oferecera para consertar, mas ela, impaciente, mandara eu não tocar no equipamento dela. Agora, eu a consertei em silêncio.

Depois vieram os manuscritos. Aqueles rolos de pergaminho viviam espalhados pelo chão, e ela dizia que eu “nunca entenderia”. Eu os organizei por data e empilhei tudo com cuidado.

Fui até a cozinha, abri a geladeira e a enchi com as compras que eu tinha feito. Torta de mirtilo — a preferida dela, embora jamais admitisse.

Limpei as janelas empoeiradas, reguei as plantas quase ressecadas nos vasos e pendurei no armário o casaco que ela tinha largado de qualquer jeito.

Cada movimento era lento e deliberado, como se eu estivesse valorizando cada centímetro daquele espaço.

Eu faço essas coisas há dez anos.

Depois de limpar, coloquei o frasco da poção no centro da bancada onde ela costumava trabalhar. O líquido dourado cintilava suavemente ao luar, como um coração manso.

Caminhei até o espelho e encarei meu reflexo. Meu rosto estava pálido como o de um morto.

Então ele saiu e chamou uma carruagem puxada por cavalos.

— Para onde o senhor vai? — perguntou o cocheiro, olhando para mim com surpresa. — O senhor está péssimo.

— Para a Academia Real de Magia. — Abri a porta da carruagem e entrei; cada movimento era difícil.

As rodas começaram a rodar devagar, levando meu adeus final enquanto eu me afastava.

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