Capítulo 1 Pesadelo

As portas de vidro do Hospital Geral St. Luke se escancararam quando Rebecca Smith tropeçou para dentro, encharcada de chuva e pânico. O pulso martelava nos ouvidos.

Ela mal se lembrava de como tinha dirigido até ali, apenas das palavras ecoando sem parar na mente:

“Becca, você precisa vir pra cá. Houve um acidente.” Como poderia esquecer aquelas palavras e o jeito como seu coração falhou naquele instante? Mesmo agora, as batidas ainda não tinham voltado ao normal, e ela temia acabar desenvolvendo um problema cardíaco a qualquer momento.

O que poderia ter acontecido? Como eles tinham se envolvido num acidente? Quão grave era? Ela precisava saber. Pensou nisso enquanto olhava ao redor e, quando seus olhos encontraram a mulher que parecia ser a recepcionista, correu até lá.

“Com licença”, ela arfou, chegando ao balcão. “Onde eles estão?”, perguntou Rebecca, os olhos varrendo o saguão à procura do tio.

“De quem você está falando, senhorita?”, a recepcionista perguntou, franzindo a testa.

“Sr. e Sra. Smith... trouxeram eles pra cá. Onde eles estão?”, Rebecca perguntou de novo, o pânico subindo por todo o corpo.

Antes que a mulher pudesse responder, uma voz familiar chamou do outro lado do saguão.

“Becca!”

A cabeça dela virou num estalo em direção ao som. O tio Richard estava ali, o cabelo ensopado, a camisa grudada no corpo por causa da chuva. O rosto dele estava pálido.

Ela correu até ele. “Tio Richard, onde eles estão? Me diz que eles estão bem!”

Ele segurou as mãos trêmulas dela entre as dele. “Eles estão na UTI”, disse baixo. “Os médicos ainda estão com eles. Eu cheguei há alguns minutos.”

Os olhos de Rebecca se voltaram para as portas duplas fechadas no fim do corredor, uma barreira branca e estéril entre ela e os pais. “Ai, meu Deus...” A respiração saiu em soluços irregulares. “Não, isso não pode estar acontecendo. Por que agora?”

Richard tentou conduzi-la até uma cadeira, mas ela balançou a cabeça. “Eu não consigo sentar. Eu preciso ver eles. Eles odeiam hospitais. A mãe sempre dizia que nunca pisaria num, a não ser que fosse obrigada...”

Ele pousou as mãos com cuidado nos ombros dela. “Becca, escuta. A gente tem que esperar. Você precisa se acalmar, tá? Eles vão ficar bem.”

O lábio dela tremeu. “Você não sabe disso com certeza. Se eles estão na UTI, então a situação é bem séria. Eu...”

“Eles vão ficar bem, Becca. Só espera os médicos saírem”, Richard disse, tentando ao máximo soar convicto, embora estivesse tão assustado quanto ela.

Rebecca apertou os punhos contra a boca, segurando o choro. “Tá. Eu vou esperar”, conseguiu dizer.

“Onde está a Vanessa?”, Richard perguntou quando se deu conta de que ela não estava em lugar nenhum.

“Ela não estava em casa quando você ligou”, Rebecca sussurrou. “Disse que ia ver o namorado. Eu tentei ligar, mas o celular dela está desligado.”

“Continua tentando”, Richard disse, soltando um suspiro.

Ela assentiu, entorpecida, e procurou o telefone às pressas. Ligou para Vanessa de novo e, como antes, caiu direto na caixa postal.

Então tentou Liam, seu noivo. Ela precisava dele ali, ao lado dela. A dor de saber que seus pais estavam lá dentro lutando pela vida era insuportável demais, e ela precisava da única pessoa que sempre sabia as palavras certas para dizer.

Ela discou, esperando que ele atendesse. Ele sempre atendia, mesmo quando estava ocupado. Mas, naquela noite, não atendeu.

Ela franziu a testa e tentou de novo. Ainda nada.

Talvez ele não estivesse com o celular por perto, disse a si mesma, e parou de tentar, decidindo esperar que os médicos atualizassem a condição dos pais.

A sala de espera parecia mais fria agora. O tic-tac do relógio na parede era ensurdecedor.

As mãos de Rebecca tremiam sem controle enquanto pensava nos momentos que viveram juntos. Seus pais tinham prometido ajudá-la a finalizar os planos do casamento na semana seguinte. Sua mãe estava tão animada para escolher o véu. Seu pai tinha brincado que choraria antes mesmo de ela chegar ao altar.

Eles precisavam ficar bem.

Os minutos passaram — ou talvez horas. Rebecca não sabia dizer. Cada segundo se esticava sem fim.

Finalmente, as portas no fim do corredor se abriram, e uma mulher de jaleco branco saiu.

O coração de Rebecca pareceu falhar várias batidas. “Doutor!”, gritou ela, correndo para a frente. “Por favor, meus pais. Sr. e Sra. Smith. Eles estão bem? Como estão os ferimentos deles? Espero que não seja tão grave assim... Posso ir ver meus pais?” Ela continuou disparando perguntas, mas o médico apenas ficou ali, incapaz de dizer uma palavra.

“Por que o senhor não está dizendo nada?”, Richard perguntou, com a preocupação evidente na voz.

“Vocês todos precisam se acalmar—”

Antes que o médico pudesse terminar de falar, Rebecca o interrompeu. “Se acalmar? Como pode nos dizer para nos acalmarmos quando meus pais estão lá dentro e eu nem sei qual é o estado deles? Por favor, diga... diga para nós qual é o problema. Ou quer que a gente faça o pagamento? Se for isso, então não tem com o que se preocupar. Eu vou fazer o pagamento agora mesmo”, disse Rebecca, tentando seguir para o setor financeiro.

Os olhos da médica se suavizaram. “Sinto muito. Fizemos tudo o que podíamos. Os ferimentos eram graves demais”, disse ela, antes que Rebecca conseguisse se afastar.

No mesmo instante, Rebecca congelou. Foi como se o chão tivesse desaparecido sob seus pés e ela pudesse sentir a si mesma afundando no vazio.

“Não.” Rebecca balançou a cabeça com força. “Não, não, não — a senhora está errada! Eles não podem... Deve estar enganada. Eles estavam bem ainda esta tarde. Meu pai me ligou antes de saírem do evento beneficente! Ele disse que estavam voltando para casa!”

“Srta. Smith...”

Ela tropeçou para trás, levando a mão ao peito, enquanto um grito cru rasgava sua garganta. “Não! Eles prometeram, prometeram que estariam no meu casamento! Eles estavam planejando meu casamento comigo!”

Richard a segurou antes que ela caísse no chão, mas Rebecca lutou contra ele, golpeando fracamente seu peito. “Eles não podem ter ido embora! Por favor, não, eles não!”

“Becca...” A voz dele falhou. “Sinto muito.”

Os soluços dela encheram o corredor. Rebecca se agarrou ao tio como uma alma se agarrando a um pedaço de madeira à deriva, com o corpo inteiro tremendo.

Quando seus gritos enfim diminuíram, ela desabou contra ele, exausta e trêmula. Sua voz saiu em um sussurro. “Como vou contar para a Vanny?”

Richard enxugou uma lágrima do rosto. “Nós vamos contar para ela juntos.”

“Ela já perdeu o pai quando tinha cinco anos”, murmurou Rebecca. “E agora perdeu outro. E eu... eu perdi minha segunda mãe.” Sua voz se partiu. “Ela me amava mais do que qualquer outra pessoa.”

O tio apertou seu ombro em silêncio, a dor dele espelhando a dela.

O telefone de Rebecca escorregou de suas mãos e bateu no chão. Ela ficou olhando para ele sem expressão, enquanto as lágrimas pingavam de seu queixo.

“Talvez você devesse descansar”, disse tio John, suavemente. “Você passou por coisa demais esta noite.”

Ela balançou a cabeça devagar. “Não. Não. Eu não consigo descansar. Não consigo respirar aqui.”

“Becca...”

“Eu só preciso de um pouco de ar! Sinto como se estivesse sufocando. Tudo isso tem que ser um sonho. Um pesadelo horrível. Nada disso é real”, murmurou ela, correndo em direção à porta.

Richard chamou por ela, mas Rebecca estava devastada demais pela dor para ouvi-lo, mesmo quando saiu correndo.

Lá fora, a chuva ainda caía — uma garoa constante e triste que combinava com o peso em seu peito. Ela entrou no carro e dirigiu sem pensar, com a estrada brilhando através do borrão de suas lágrimas.

Sua mente repassava tudo — a risada do pai naquela manhã, o perfume da mãe quando a abraçou ao se despedir, a promessa de que voltaria para casa em breve.

Agora não haveria mais volta para casa. Isso tudo não podia ser real, pensou, enquanto continuava dirigindo sem destino, até perceber que tinha ido parar na casa de Liam.

Ela nem sentia mais a chuva. Subiu as escadas como um fantasma e destrancou a porta com a chave reserva que ele havia lhe dado “para emergências”.

O apartamento estava escuro e silencioso, e isso a deixou desconfortável.

“Liam?”, chamou ela baixinho, com a voz rouca. “Sou eu.”

Uma risada sem humor escapou de seus lábios. Ela mal conseguia ouvir a si mesma, então como ele poderia ouvi-la? Será que ele estava em casa?

Ela entrou mais um pouco, com os pés descalços gelados contra os azulejos. Assim que chegou à sala, algo chamou sua atenção.

Uma bolsa estava sobre o sofá, pequena, elegante e inconfundivelmente familiar.

Seu coração disparou. Era a bolsa de Vanessa. O que ela estava fazendo ali, na sala de Liam?

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