Capítulo 3 Faça com que isso pare
O impacto não foi grande, mas o suficiente para fazer o coração dela saltar para a garganta.
A cabeça de Rebecca foi projetada para a frente, e o cinto de segurança a segurou. O ar lhe faltou num pânico súbito enquanto o carro derrapava até parar.
Rebecca piscou rápido, atordoada com o pensamento de que poderia ter sido muito pior e de que ela provavelmente poderia ter morrido. “Meu Deus…”
Ela ficou ali por alguns segundos, tentando recuperar o fôlego. Mas, tão rápido quanto, percebeu que precisava ver a outra pessoa. Afinal, a culpa tinha sido dela.
Ela se atrapalhou com o cinto e empurrou a porta, cambaleando para fora, debaixo do temporal.
Um outro carro, um sedã de luxo preto e elegante, estava parado a poucos metros, com o para-choque dianteiro amassado.
Uma figura alta saiu, segurando um guarda-chuva. A chuva realçava seus traços definidos, o cabelo escuro grudado na testa, a mandíbula tensa e, ainda assim, serena.
“Você está bem?”, a voz do homem era grave, firme, mas carregada de preocupação.
“E-eu não vi você”, Rebecca gaguejou, a culpa a inundando. “Me desculpa. Eu não—”
“Tudo bem.” Ele se aproximou, o olhar avaliando mais ela do que o carro. “Você está tremendo. Se machucou?”
Ela balançou a cabeça depressa. “Não, não, eu estou bem. Eu só… eu não estava prestando atenção.”
“Você não deveria estar dirigindo assim”, ele disse baixo, notando o vermelho nos olhos dela, o rosto marcado por lágrimas, o cabelo desgrenhado grudado nas bochechas. “Parece que você estava chorando.”
Rebecca desviou o olhar, constrangida. “Eu estou bem. De verdade. Eu só… preciso ir.”
Ela se virou para voltar ao carro, mas, quando girou a chave, nada aconteceu. O motor engasgou, fraco, e morreu.
“Ah, vai…”, ela resmungou, tentando de novo. Ainda nada.
O homem soltou o ar devagar, fechou o guarda-chuva e se agachou perto da porta dela. “Seu carro não vai a lugar nenhum esta noite. Provavelmente entrou água no sistema ou queimou um fusível. Deixa eu te ajudar.”
“Não, você já fez mais do que o suficiente por não ficar bravo mesmo depois de eu bater no seu carro”, ela disse, com a voz trêmula, afastando o cabelo do rosto. “Eu vou chamar um guincho ou sei lá.”
“Já é quase meia-noite, e está caindo o mundo”, ele respondeu. “Você não vai conseguir que ninguém venha aqui rápido.”
“Eu espero”, ela insistiu, embora a voz estivesse tremendo.
Ele se endireitou, encarando-a com uma calma autoritária. “Você vai ficar doente aqui fora.”
Rebecca hesitou. A chuva a encharcava; a roupa colava na pele, e os dentes dela começaram a bater.
“Por favor”, ele disse, mais suave dessa vez. “Pelo menos espere em algum lugar seco. Meu motorista pode cuidar do seu carro. Meu hotel fica perto. Você pode descansar e se aquecer lá enquanto meu motorista arruma alguém para consertar seu carro e trazer ele.”
Cada instinto dizia para ela não confiar num estranho. Mas esta noite—esta noite ela não tinha mais nada. O corpo tremia, o coração estava em cacos, a mente, entorpecida. E não havia nada de normal no dia de hoje.
“Tá bom”, ela sussurrou por fim.
Ele fez um leve aceno. “Ótimo. Eu sou Rek.”
“Becca”, ela murmurou, quase inaudível.
“Becca”, ele repetiu, como se experimentasse o nome na língua. “Vamos. Vamos tirar você dessa chuva.”
Ele a conduziu com cuidado até o carro dele. O calor do interior a atingiu de imediato, e ela afundou no banco de couro, abraçando a si mesma. Rek falou baixo com o motorista, instruindo-o a ligar para o mecânico e cuidar do veículo dela.
O trajeto até o hotel foi silencioso. Rebecca encarou a janela sem expressão, perdida na tempestade dentro de si.
Quando chegaram, Rek ajudou-a a descer. As luzes do saguão brilhavam no piso de mármore, fortes demais para os olhos inchados dela. Ele a levou até o elevador e subiu com ela até a suíte.
Lá dentro, o quarto era elegante e moderno—tudo com que ela também estava acostumada. Ele lhe entregou uma toalha e apontou para o banheiro.
“Você pode tomar um banho, se quiser. Vou pedir alguma coisa quente.”
Ela assentiu em silêncio, agarrada à toalha. “Obrigada. Por... ser gentil.”
Ele sorriu de leve. “Você parece ter tido uma noite difícil.”
Rebecca apenas assentiu antes de desaparecer no banheiro. Saiu alguns minutos depois, enrolada na toalha branca e grossa do hotel.
O cabelo úmido grudava no pescoço, e ainda havia gotinhas escorrendo pelos ombros. O calor da suíte era um contraste forte com a chuva fria e impiedosa da qual ela acabara de escapar.
Os olhos dela o encontraram de imediato. Ele tinha trocado o terno por uma camiseta branca lisa e um short escuro, o porte alto recortado pela luz dourada e fraca do quarto.
“Percebi que suas roupas estavam molhadas e não tem como você vestir de novo, então peguei minha camiseta. É nova, então você não precisa—”
“Tudo bem”, Rebecca interrompeu, dando um sorrisinho. “Obrigada.”
Ela pegou a camiseta e o short e voltou para o banheiro para se vestir.
Alguns minutos depois, ela saiu e encontrou Rek exatamente na posição em que o havia deixado. Com um sorriso tênue, como se entendesse alguma coisa, ele assentiu em direção à mesinha perto do sofá. “Achei que você podia querer algo quente”, ele disse. “É só café. Nada chique.”
O vapor subia delicado de duas canecas, enchendo o cômodo com o cheiro encorpado de grãos torrados.
Rebecca hesitou antes de se aproximar, cada passo lento, cauteloso. As pernas ainda pareciam fracas de tanto chorar, e o peito doía com o peso de emoção demais.
“Obrigada”, ela murmurou, a voz baixa, mas firme o bastante. Pegou a caneca, deixando o calor penetrar nos dedos frios. “Mas acho que um copo de uísque seria melhor.”
Rek olhou para ela e então assentiu. Apenas foi até a geladeira ao lado da cama, pegou uma garrafa de uísque, tirou dois copos e serviu um pouco em cada um.
Rebecca agarrou o copo e virou tudo de uma vez.
Rek, agora sentado, apoiou-se na borda do sofá, braços cruzados, observando-a em silêncio. “Quer me contar o que aconteceu?”, ele perguntou, depois de um instante. O tom não era inquisitivo, só uma preocupação estranha.
Rebecca não disse nada. Em vez disso, pegou a garrafa de uísque e bebeu direto dela.
“Hoje eu perdi meus pais.” Ela finalmente falou depois de dar um gole longo.
Derek ergueu o olhar, imaginando a dor que ela devia estar sentindo agora.
“E eu peguei meu noivo me traindo”, ela acrescentou, sem saber por que estava contando aquilo para ele.
“Você deve estar sentindo muita dor”, Rek disse, com pena dela.
Rebecca soltou um sorriso amargo. “É. Estou.”
Ele não se deu ao trabalho de fazer perguntas, nem de oferecer conselhos ou palavras de consolo. Não sabia o que dizer.
Rebecca suspirou pesado. O coração ainda batia fora do ritmo, como se não tivesse se recuperado do que tinha suportado. A garganta ardia de lágrimas não derramadas. O peito sangrava com tudo o que tinha acontecido.
“Eu sinto que vou afundar”, ela sussurrou.
“Sinto muito”, ele disse, e havia algo no jeito como ele disse que fez o peito dela doer ainda mais.
Ela olhou para ele — de verdade, dessa vez —, o rosto calmo. Não só parecia calmo como bonito. Mais como alguém que ela podia usar para esquecer a dor, mesmo que fosse só por um momento.
Rebecca nunca foi assim. Talvez a morte dos pais e a traição do noivo e da meia-irmã tivessem passado por cima dela, e a fizeram desejar um completo estranho.
Sem pensar, ela se levantou devagar. E caminhou até ele. A respiração trêmula.
Rebecca engoliu em seco. O coração martelando como um tambor. “Faz isso parar. Me faz sentir outra coisa. Qualquer coisa... pelo menos por hoje à noite.”
A expressão dele mudou de calma para algo que ela não conseguiu entender.
“O que você quer dizer?”, ele perguntou, as sobrancelhas arqueadas.
“Transa comigo”, ela disparou.
