Capítulo 4 Onde você esteve?

— Acho que você está bêbada...

— Não estou bêbada. Não estou. Eu sei o que estou dizendo. — A voz dela estava calma, mas firme. — Eu preciso me sentir... desejada. Ou você tem namorada?

— Não, eu não...

— Então você deve ser casado — Rebecca interrompeu.

— Eu não sou casado.

— Então o que está te impedindo? O quê? Você não me acha atraente? — ela perguntou, sentindo uma pontinha de vergonha por estar sendo rejeitada desse jeito.

— Não. Claro que não. Eu... eu te acho muito atraente, Becca. Na verdade, eu também quero fazer isso, mas não posso. Você não está no seu juízo perfeito, e eu odiaria me aproveitar de você.

— Você não está. Eu estou pedindo por vontade própria. Eu estou consentindo. Por favor. Só me abraça, faz amor comigo e faz essa dor ir embora, nem que seja só por esta noite. Eu não estou pedindo pra sempre...

— Eu não poderia te dar um “pra sempre”, mesmo que fosse isso que você quisesse...

Antes que ele pudesse terminar, Rebecca pressionou os lábios macios nos dele, cortando suas palavras.

Rek se afastou, embora já mal conseguisse se controlar.

O rosto de Rebecca caiu, e ela engoliu em seco. — Acho que eu não sou atraente o bastante pra você — murmurou, a voz falhando um pouco enquanto se virava, os braços se abraçando, como se protegesse o que ainda restava do orgulho.

Mas, antes que ela desse outro passo, Rek a alcançou, a mão fechando com cuidado ao redor do pulso dela.

— Não — ele disse baixinho, a voz baixa, áspera, quase suplicante.

Rebecca se virou de volta, e o olhar nos olhos dele fez o coração dela tropeçar. Havia algo desarmado ali, algo que refletia a própria dor dela.

Ele a puxou para perto, devagar, deliberadamente, até o espaço entre os dois desaparecer. E então os lábios dele encontraram os dela.

O beijo não foi nada como ela esperava. Não foi gentil, nem cuidadoso. Foi profundo e arrebatador, o tipo de beijo que tirava o fôlego dela e o substituía por algo perigosamente parecido com alívio.

Toda a dor, todo o luto, toda a traição simplesmente se dissolveram naquele beijo.

Os dedos dela se agarraram à camisa dele, como se tivesse medo de que ele pudesse desaparecer ou mudar de ideia. As mãos dele emolduraram o rosto dela, depois deslizaram até as costas, segurando-a como se temesse que ela fosse se estilhaçar.

Ele se afastou só por um instante, a testa apoiada na dela, os dois respirando com dificuldade.

— Isso não é o que você quer — ele sussurrou, a voz carregada de contenção.

— É exatamente o que eu quero — Rebecca soprou, com as lágrimas ardendo nos olhos. — Só por esta noite... por favor.

Por um momento, nenhum dos dois se mexeu. A tempestade rugia lá fora, a chuva estalando contra as janelas como se o mundo estivesse tentando impedi-los. Mas nenhum deles se importou.

A determinação de Rek cedeu. Ele segurou o rosto dela de novo, beijando-a profundamente, não apenas por desejo, mas por algo não dito. Uma necessidade de arrancar a dor dela. Uma necessidade de esquecer a própria.

Os movimentos deles eram desajeitados, desesperados, alimentados por coração partido e exaustão. O ar entre os dois queimava com algo que não era só atração; era tristeza, solidão e a frágil ilusão de conforto.

Quando Rebecca finalmente caiu contra ele, não estava pensando em Liam nem em Vanessa, nem na dor que eles lhe causaram. Não estava pensando no que o amanhã traria.

Ela pensava apenas em calor — do tipo que não sentia havia tanto tempo. E, por algumas horas fugazes, deixou-se afogar naquilo, dizendo a si mesma que ia aproveitar tudo.

Na manhã seguinte, a primeira coisa que sentiu foi a luz do sol, forte e implacável, derramando-se sobre o rosto dela e puxando-a devagar para fora do sono.

A cabeça doía de leve; o peso atrás dos olhos era um lembrete do quanto tinha chorado. Por um instante, ficou ali deitada, encarando o teto, sem saber ao certo onde estava.

Então o cheiro fraco de uísque e café fez tudo voltar de uma vez.

A traição, e como ela tinha conhecido o estranho, Rek. E o jeito desesperado, doloroso, como tinha implorado para ele fazê-la esquecer.

O coração de Rebecca afundou no peito. Ela virou a cabeça devagar, meio com medo do que veria.

Mas o espaço ao lado dela estava vazio. Ele tinha ido embora.

O olhar dela deslizou até a mesinha perto da janela, onde as chaves do carro estavam bem arrumadas ao lado da bolsa. O vestido dela, lavado e cuidadosamente estendido sobre o sofá, parecia deslocado naquele quarto de hotel elegante.

Por um momento, ela apenas ficou sentada, encarando aquilo. Eram lembretes de uma noite que ela não podia desfazer.

A garganta se apertou. Ela não podia ficar ali. Não pertencia àquele lugar. Mas, ao mesmo tempo, ela temia voltar para casa e ver os rostos daquelas traições. Ainda assim, sabia que precisava ir.

Com movimentos silenciosos e trêmulos, se levantou e vestiu o vestido. O cheiro fraco da colônia dele ainda grudava na pele, e ela se pegou passando as palmas pelos braços, como se pudesse apagar aquilo.

Ele nem sequer deixou um bilhete, pensou, e então suspirou antes de sair.

A volta para casa pareceu mais longa do que o normal. O mundo lá fora parecia dolorosamente normal, um contraste cruel com o caos dentro do peito dela.

Quando enfim entrou de carro na propriedade dos Smith, ela parou por um instante, respirando fundo antes de descer.

Tinha esperado que a casa estivesse silenciosa.

Mas, no momento em que entrou, viu os três: o tio Richard, Vanessa e Liam, todos reunidos na sala de estar.

Ela achou que não sentiria nada, mas então o estômago se contraiu, dolorosamente.

O rosto de Vanessa foi o primeiro a se iluminar, a voz pingando uma preocupação ensaiada. — Becca! Meu Deus, onde você estava? A gente ficou te ligando a noite inteira!

Rebecca não respondeu. Não conseguia. A visão de Vanessa e Liam sentados juntos fez a bile subir na garganta. Como ela não tinha percebido nada? Há quanto tempo eles estavam enganando ela?

O maxilar de Liam se retesou, o tom mais irritado do que preocupado. — É, onde exatamente você estava, Rebecca? Você simplesmente sumiu, mesmo sabendo que seus pais tinham ido embora e mesmo sabendo que a gente ia ficar preocupado, você ignorou todas as nossas ligações.

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