Capítulo 5 Quem é o pai?
Richard se levantou, o alívio suavizando seus traços. “Rebecca, graças a Deus você está bem. Eu já estava começando a me preocupar que algo terrível tivesse acontecido. Aonde você foi ontem à noite?”
Os lábios de Rebecca se entreabriram, mas nenhuma palavra saiu. Ela não devia explicações a eles. Não a eles. Especialmente não às duas pessoas que tinham destruído o pouco que restava do coração dela.
Ela se virou para a escadaria, esperando conseguir fugir para o quarto antes que as emoções a traíssem.
Mas Liam deu um passo à frente, a voz cortante. “Não ouse ir embora de mim, Rebecca!”
Ela parou, os dedos se apertando no corrimão.
“Eu te fiz uma pergunta”, ele disse de novo, esticando a mão para agarrar o pulso dela. O aperto era firme, possessivo.
“Solta meu braço”, ela disse baixinho.
Mas, em vez de ouvir, Liam se inclinou para mais perto. O nariz dele captou o ar perto do ombro dela e, então, a expressão dele mudou.
Ele franziu a testa. “Que cheiro é esse?”, perguntou, olhando para ela com desconfiança.
Rebecca piscou. “O quê?”
“Esse perfume.” Os olhos dele escureceram, a voz subindo. “Não é o meu. Você esteve com um homem!”
“Liam!” O tom de Richard ficou severo. “Chega! Não acuse ela de coisas que você não sabe!”
Mas Liam não estava ouvindo. A raiva dele se desfiava em algo mais feio. “Se ela não fosse culpada, ela negaria. Olha pra ela, não consegue nem dizer nada! Você me traiu, não foi, Rebecca? Eu não tenho sido bom pra você? O meu amor não é suficiente?”
Rebecca soltou uma risada amarga, embora soasse mais como um soluço engasgado. “Seu amor?”, ela perguntou, num tom de deboche. “Sabe de uma coisa? Fica com o seu amor, Liam. Eu cansei. O noivado acabou.”
Vanessa soltou um suspiro ofegante, levando a mão à boca, num choque exagerado. “Rebecca, como você pode dizer isso? Como você pode fazer uma coisa tão cruel com alguém que só foi bom com você? Nossos pais acabaram de morrer, e você está por aí — dormindo com outra pessoa? Você nem conseguiu viver o luto direito! Agora o Liam te confronta e você termina. Isso não é justo.”
A cabeça de Rebecca se virou de supetão para a meia-irmã, a fúria relampejando nos olhos. “Não ouse falar de luto, Vanessa. Você nunca se importou com o meu pai. Você nunca se importou com ninguém além de você mesma.”
Os olhos de Vanessa se arregalaram, e as lágrimas se acumularam. “Por que você diria uma coisa dessas? Eu sempre amei essa família. Eu sempre me importei com você e com o papai.”
“Chega”, disse Richard com firmeza, o tom carregando o peso do cansaço. “Rebecca, chega. Você está abalada, eu entendo, mas meça suas palavras. Seu pai morreu ontem. Não comece algo que vai dividir ainda mais esta família.”
Rebecca se virou para ele, a voz baixa, mas firme. “Eu sei, tio. É por isso que eu quero honrá-lo de verdade, começando os preparativos do enterro.”
Richard assentiu devagar, fazendo um gesto para que se sentassem. “Sim. Devemos fazer isso.”
Rebecca se deixou cair na cadeira, os olhos fixos na mesa, mas a mente a quilômetros dali, já enterrando mais do que apenas o pai.
Ela estava enterrando a garota que um dia acreditou em amor, família e confiança.
Eles começaram a conversar e a fazer os preparativos. Os dias seguintes passaram num borrão.
A casa estava cheia de enlutados, flores e condolências que não significavam nada.
Rebecca se movia por entre tudo aquilo como um fantasma, fazendo o que esperavam dela, mas sem sentir coisa alguma.
Vanessa, claro, interpretava a filha enlutada com perfeição, chorando diante dos convidados, se agarrando a Rebecca sempre que alguém estava olhando e sussurrando palavras vazias de consolo que faziam a pele de Rebecca se arrepiar de nojo.
Ao fim da terceira semana, tudo tinha sido feito. O enterro estava concluído. As condolências pararam de chegar. A casa, enfim, voltou a ficar em silêncio.
Mas a paz estava longe de aparecer.
Foi numa manhã tranquila de segunda-feira que Richard chamou Rebecca e Vanessa para a sala de estar. O peso no tom dele disse a Rebecca que não era uma conversa casual.
Quando as duas se sentaram, Richard cruzou as mãos sobre o joelho, com uma expressão séria, mas gentil. “Rebecca, como você está se sentindo? Você tem parecido… diferente ultimamente. Eu sei que tudo isso foi difícil para você.”
Era por isso que ela odiava todos eles. Ela também perdeu a mãe e, ainda assim, era Rebecca quem recebia toda a atenção. Vanessa pensou, amargurada.
Rebecca esboçou um sorriso fraco, com a voz mal acima de um sussurro. “Eu estou bem, tio. Só… cansada.”
Richard assentiu. “Compreensível.” Ele hesitou por um instante antes de olhar para as duas irmãs. “Eu chamei vocês duas aqui para dizer uma coisa importante.”
Vanessa se endireitou imediatamente, fingindo curiosidade, enquanto Rebecca tentou ficar imóvel, embora um estranho mal-estar começasse a subir no estômago.
Richard respirou fundo. “É sobre o testamento do seu pai. Ele deixou algo—”
Mas, antes que ele terminasse, a visão de Rebecca embaçou e uma onda de náusea a atingiu com força. O estômago se revirou violentamente, e ela levou uma mão aos lábios.
“Rebecca?” A voz de Richard ecoou ao longe, com preocupação permeando o tom.
Ela mal conseguiu se levantar antes de sair correndo da sala.
Os instantes seguintes viraram um borrão. O som da voz de Vanessa chamando seu nome foi ficando distante enquanto ela cambaleava pelo corredor. Ela chegou ao banheiro mais próximo e caiu de joelhos, o corpo sacudido por ânsias violentas.
Quando a náusea finalmente cedeu, um suor frio cobriu sua pele. Ela tentou se firmar na pia, mas o ambiente girou. A cabeça parecia pesada. Ela tentou se equilibrar, mas a escuridão a engoliu e, antes que percebesse, as pernas falharam e ela desabou.
Quando Rebecca abriu os olhos de novo, tudo era branco. O bip suave de um monitor cardíaco soava ao seu lado.
Ela piscou devagar, desorientada. O cheiro estéril de antisséptico lhe disse que estava num hospital.
Então ela ouviu uma voz familiar.
“Rebecca”, disse Richard, baixo, inclinando-se na cadeira. As linhas profundas do rosto dele pareciam mais marcadas do que o normal. “Graças a Deus você acordou.”
Rebecca engoliu em seco, com a garganta árida. “O que… o que aconteceu?”
Richard hesitou, baixando a voz, embora a raiva fosse visível nele. “Quem é o pai?”
Rebecca piscou, confusa. “Quem é o pai? Do que o senhor está falando?”
Richard soltou um longo suspiro, passando a mão pelo rosto. “O pai do seu maldito bebê, Rebecca. Você está grávida. É do Liam?”
