Capítulo 1 UMA MUDANÇA INESPERADA
Sofia narrando
Minha vida era exatamente como eu gostava: tranquila, organizada e longe de qualquer confusão desnecessária. Eu tinha uma fazenda para administrar, animais para cuidar e uma liberdade que poucas pessoas compreendiam. Não precisava de muito para ser feliz. Bastava acordar cedo, sentir o cheiro da terra molhada e ouvir os cavalos relinchando no estábulo.
Para mim, não existia lugar melhor no mundo do que a fazenda que meus pais haviam deixado de herança.
Desde pequena, aprendi que a vida no campo exigia responsabilidade, coragem e disposição. Meu pai dizia que um bom cavaleiro precisava conhecer o animal que estava montando, respeitar seus limites e nunca confundir força com brutalidade. Minha mãe, por outro lado, sempre me ensinou que a verdadeira liberdade estava em saber tomar as próprias decisões e assumir as consequências delas.
Acho que herdei um pouco dos dois.
Eu gostava de cavalgar, cuidar dos animais e acompanhar o trabalho dos funcionários. Não tinha medo de sujar as mãos, muito menos de enfrentar um cavalo arisco. Se alguma coisa precisava ser feita, eu arregaçava as mangas e resolvia.
Talvez fosse justamente por isso que algumas pessoas me considerassem teimosa.
Eu preferia dizer que sabia muito bem o que queria.
Depois que meus pais faleceram, precisei amadurecer mais rápido do que imaginava. A saudade continuava presente, principalmente nos dias em que alguma lembrança surgia sem aviso, mas aprendi a seguir em frente. A fazenda passou a ser minha responsabilidade, e eu fiz questão de honrar tudo o que eles haviam construído.
Como filha única, tornei-me a única herdeira das terras. Felizmente, nunca estive completamente sozinha nessa tarefa. Sebastião, nosso capataz, conhecia aquela propriedade como a palma da própria mão. Ele trabalhava com meus pais havia muitos anos e foi uma das pessoas que mais me ajudaram durante o período difícil que enfrentei.
Foi ele quem me ensinou a reconhecer os sinais de um animal doente, a observar o céu antes de uma tempestade e a não tomar decisões precipitadas quando alguma coisa saía do planejado.
Sebastião era praticamente parte da família.
Enquanto eu ainda era menor de idade, ele ajudou a manter tudo funcionando. Quando finalmente pude assumir a administração da fazenda, fiz questão de continuar contando com sua experiência. Confiava nele de olhos fechados, embora ele sempre dissesse que confiar era importante, mas acompanhar o trabalho também fazia parte de uma boa administração.
Eu costumava rir quando ele começava com seus conselhos.
Naquela manhã, porém, não havia motivo algum para rir.
O telefone tocou enquanto eu conferia algumas anotações no escritório. Inicialmente, pensei que fosse mais um fornecedor querendo confirmar uma entrega ou algum funcionário precisando de orientação. Peguei o aparelho sem prestar muita atenção ao número desconhecido.
— Alô?
— Sofia?
Reconheci a voz imediatamente.
— Tia?
Meu sorriso surgiu antes mesmo que eu pudesse responder direito.
— Meu amor! — ela exclamou, demonstrando uma alegria que atravessou a distância entre nós. — Como você está, minha menina?
— Estou bem! E você? Faz alguns dias que não conversamos. Aconteceu alguma coisa?
O silêncio que veio do outro lado da ligação foi suficiente para apagar meu sorriso.
Minha tia sempre fora uma mulher comunicativa. Mesmo quando estava ocupada, encontrava um jeito de me contar alguma novidade, perguntar sobre os animais ou reclamar que eu trabalhava demais. Aquele silêncio não combinava com ela.
— Sofia, preciso conversar com você sobre uma coisa importante.
Senti um aperto no peito.
— Pode falar, tia. Você está me assustando.
Ela respirou fundo antes de responder.
— Eu fui ao médico porque estava sentindo alguns desconfortos. Depois de alguns exames, descobri que estou com câncer.
Por alguns segundos, não consegui dizer absolutamente nada.
A palavra parecia grande demais para caber naquela conversa. Eu sabia o que aquela doença significava. Meus avós haviam enfrentado o mesmo problema, e as lembranças daquele período ainda me machucavam. Recordava as visitas, a preocupação dos meus pais e a sensação de impotência diante de algo que ninguém conseguia controlar completamente.
Apertei o telefone contra a orelha.
— Tia, meu Deus… Como assim? Você está bem? Está fazendo tratamento? Por que não me contou antes?
As perguntas saíram atropeladas, uma atrás da outra.
— Calma, minha menina. Eu estou sendo acompanhada por uma equipe médica. Eles descobriram a doença no início e estão confiantes de que o tratamento tem boas chances de funcionar. Ainda teremos uma caminhada pela frente, mas não estou desamparada.
Fechei os olhos e tentei respirar com calma.
Eu queria acreditar que tudo ficaria bem. Queria agarrar aquelas palavras e transformá-las em uma certeza absoluta, mas sabia que minha tia precisaria de apoio durante os próximos meses.
E ela não tinha muitos parentes a quem recorrer.
— O que você precisa de mim? — perguntei, já sabendo que faria qualquer coisa ao meu alcance para ajudá-la.
— Eu gostaria que você viesse ficar comigo durante o tratamento. Não quero tirar você da sua vida, sei o quanto ama a fazenda. Mas, se puder passar um tempo aqui, acho que me sentirei mais segura.
Olhei pela janela do escritório.
Lá fora, alguns funcionários trabalhavam perto do celeiro, enquanto um dos cavalos caminhava tranquilamente pelo cercado. Tudo parecia tão familiar que era difícil imaginar que, dentro de poucos dias, eu estaria em outra cidade, longe daquela rotina.
Minha tia era a única pessoa da minha família que ainda estava viva. Apesar da distância, nunca deixamos de manter contato. Conversávamos sobre nossas vidas, comemorávamos as pequenas conquistas uma da outra e tentávamos compensar os quilômetros com telefonemas frequentes.
Eu não poderia simplesmente ignorar o pedido dela.
— Eu vou, tia.
— Sofia, não precisa responder agora…
— Não estou respondendo por impulso. Vou organizar tudo aqui e pegar o primeiro voo que conseguir. Você não vai passar por isso sozinha.
Ouvi um soluço discreto do outro lado.
— Obrigada, meu amor.
— Não precisa agradecer. Você é minha família.
Depois que encerramos a ligação, permaneci sentada por alguns minutos, olhando para a tela apagada do celular.
Eu tinha acabado de tomar uma decisão que mudaria minha rotina inteira.
O Rio de Janeiro nunca estivera nos meus planos para uma estadia prolongada. Já havia visitado a cidade quando era mais nova, acompanhada dos meus pais, mas minhas lembranças eram limitadas a passeios rápidos, fotografias e lugares turísticos. Eu não conhecia a realidade cotidiana da cidade, muito menos o lugar onde minha tia havia escolhido construir a própria vida.
Ela morava em uma comunidade carioca havia muitos anos.
Meu avô nunca aceitara o relacionamento dela com um homem que conhecera no Rio. Os dois tiveram uma discussão séria, e minha tia, determinada a viver o próprio amor, decidiu sair de casa. Naquela época, a decisão provocou uma ruptura dolorosa na família.
Com o passar dos anos, porém, ela e minha mãe conseguiram reconstruir a relação. Eu cresci ouvindo histórias sobre minha tia e, mesmo depois de sua mudança, continuei próxima dela.
O homem com quem ela se casara era envolvido com atividades criminosas, segundo o que ela própria havia me contado. Apesar disso, era respeitado por algumas pessoas da região. Ele morreu em um confronto cerca de um ano antes, deixando minha tia viúva.
Eu nunca conheci meu tio pessoalmente.
Sabia apenas o que minha família contava e o que minha tia compartilhava comigo. Por isso, não pretendia chegar ao Rio acreditando que conhecia toda a história. Existiam coisas que eu ainda não compreendia, e talvez fosse melhor escutar antes de formar qualquer opinião.
Levantei-me e fui procurar Sebastião.
Encontrei-o perto do estábulo, verificando alguns equipamentos enquanto conversava com um dos funcionários. Esperei que terminasse a orientação e me aproximei.
— Preciso conversar com você.
Ele percebeu minha expressão séria.
— Aconteceu alguma coisa, Sofia?
— Recebi uma ligação da minha tia. Ela está doente e precisa de mim durante o tratamento.
Sebastião deixou o equipamento sobre uma bancada.
— É grave?
Expliquei o diagnóstico e a recomendação médica. Também contei que pretendia viajar para o Rio de Janeiro o quanto antes.
Ele ouviu tudo com atenção, sem me interromper.
— Você está certa em ir — respondeu depois. — Sua tia precisa de companhia, e você não vai conseguir ficar tranquila aqui sabendo que ela está passando por isso.
— Foi o que pensei. Mas não posso deixar a fazenda sem alguém de confiança.
— Pode deixar essa parte comigo. Vou acompanhar os funcionários, conferir as contas e manter você informada. Se aparecer algum problema que precise da sua decisão, entro em contato.
Senti um alívio imediato.
— Tem certeza de que consegue cuidar de tudo?
Sebastião ergueu uma sobrancelha.
— Minha menina, eu trabalho nesta fazenda desde antes de você aprender a montar sozinha. Acho que consigo sobreviver a algumas semanas sem você tentando resolver tudo pessoalmente.
Não consegui segurar a risada.
— Eu não tento resolver tudo!
— Claro que não. Você só aparece em três lugares diferentes ao mesmo tempo e ainda pergunta por que os outros estão demorando.
Cruzei os braços, fingindo indignação.
— Isso se chama eficiência.
— Se você diz…
Acabei rindo novamente. Era exatamente daquele jeito que Sebastião conseguia aliviar minhas preocupações sem diminuir a importância dos meus problemas.
Antes de voltar para casa, passei pelo cercado e acariciei o pescoço de um dos meus cavalos. Eu não sabia quanto tempo ficaria longe, e aquela ideia me deixava inquieta. Ainda assim, precisava confiar nas pessoas que permaneceriam ali.
Nos dias seguintes, organizei documentos, deixei orientações para os funcionários e resolvi as pendências que não poderiam esperar. Sebastião insistiu para que eu não tentasse antecipar todos os problemas possíveis, pois algumas coisas simplesmente precisavam ser resolvidas quando acontecessem.
Talvez ele tivesse razão.
Comprei a passagem, arrumei as malas e me preparei para deixar Goiânia.
Eu estava acostumada a conduzir minha própria vida. Não gostava de depender dos outros, não aceitava facilmente ordens sem sentido e tinha dificuldade para permanecer quieta quando acreditava que alguma coisa estava errada.
No entanto, cuidar da minha tia era diferente.
Não se tratava de obrigação, muito menos de abandonar tudo o que eu havia conquistado. Era uma escolha feita por amor.
Na noite da viagem, abracei Sebastião antes de entrar no carro que me levaria ao aeroporto.
— Cuide da nossa casa — pedi.
Ele sorriu.
— Vá cuidar da sua tia. E lembre-se de que a fazenda continuará aqui quando você voltar.
Aquelas palavras me acompanharam durante todo o caminho.
O voo transcorreu sem grandes acontecimentos, mas minha cabeça permaneceu ocupada. Eu pensava na minha tia, no tratamento e em como seria nossa convivência depois de tantos anos vivendo em cidades diferentes.
Também pensava no Rio.
Eu chegaria à noite, e minha tia havia insistido em me buscar pessoalmente, apesar de eu ter sugerido que ela descansasse e mandasse alguém de confiança.
Quando desembarquei, procurei por ela entre as pessoas que aguardavam os passageiros.
Demorei apenas alguns segundos para reconhecê-la.
Ela estava um pouco mais magra do que nas fotografias recentes, e havia um cansaço discreto em seu rosto. Mesmo assim, quando me viu, abriu um sorriso tão grande que meus olhos se encheram de lágrimas.
— Minha menina!
Larguei a mala perto de mim e corri para abraçá-la.
O abraço demorou mais do que os habituais. Minha tia passou os braços ao meu redor, e eu escondi o rosto em seu ombro enquanto tentava controlar o choro.
— Eu estava com tanta saudade — confessei.
— Eu também, meu amor. Você não imagina o quanto.
Afastei-me apenas o suficiente para olhar para ela.
— Você deveria estar descansando, não vindo me buscar no aeroporto.
— E perder a oportunidade de receber minha sobrinha? Nem pensar!
Balancei a cabeça, sorrindo entre as lágrimas.
— Você continua teimosa.
— Olha quem está falando!
Rimos juntas, e aquela pequena troca me fez sentir que, apesar de todas as mudanças, algumas coisas permaneciam exatamente iguais.
Pegamos a mala e seguimos para o estacionamento. Durante o caminho até o carro, minha tia perguntou sobre a fazenda, os animais e Sebastião. Contei algumas novidades, e ela ouviu tudo com o interesse de quem também fazia parte daquela vida, mesmo estando longe.
Quando finalmente entramos no carro, percebi que o cansaço da viagem começava a pesar. Ainda assim, eu não queria dormir nem perder a oportunidade de conversar com ela.
— Então, é aqui que você está morando agora — comentei, observando as luzes da cidade pela janela.
— É. Já me acostumei com a rotina, embora algumas coisas ainda me façam sentir falta de quando morava perto da sua mãe.
— Você nunca pensou em voltar para Goiânia?
Minha tia manteve os olhos na estrada por alguns instantes antes de responder.
— Pensei muitas vezes. Mas minha vida foi construída aqui. Seu tio tinha raízes nesta cidade, e eu também acabei criando as minhas. Depois que ele morreu, cheguei a considerar uma mudança, só que não consegui tomar essa decisão.
Segurei a mão dela por um momento.
— Você não precisa decidir nada agora. Primeiro, vamos cuidar da sua saúde.
Ela apertou meus dedos e assentiu.
— É por isso que estou tão feliz por você estar aqui.
Continuamos conversando, e ela me explicou um pouco mais sobre o tratamento, as consultas e as recomendações dos médicos. Eu queria acompanhá-la em tudo, mas também sabia que precisava respeitar o ritmo dela. Não adiantaria transformar cada conversa em um interrogatório preocupado.
Aos poucos, comecei a relaxar.
Até que percebi que estávamos entrando em uma região muito diferente dos lugares que eu conhecia.
As ruas pareciam mais movimentadas, mesmo àquela hora, e havia pessoas conversando nas calçadas, pequenos estabelecimentos ainda abertos e motocicletas passando de um lado para o outro. As casas se distribuíam pelas encostas, formando um cenário que eu observava com curiosidade.
Minha tia percebeu meu silêncio.
— Está tudo bem?
— Está. Só estou tentando conhecer o caminho.
— Você vai se acostumar. Aqui tem muita gente trabalhadora, famílias, crianças, comércio e vizinhos que se conhecem há anos. Como em qualquer lugar, existem problemas também, mas não quero que você chegue com medo de tudo.
Assenti, embora ainda estivesse tentando compreender aquele ambiente.
Eu havia crescido em uma propriedade onde os limites eram marcados por cercas, pastos e estradas de terra. Ali, as casas estavam próximas umas das outras, e a vida parecia acontecer diante das portas e janelas.
Era um mundo diferente do meu.
Quando nos aproximamos da entrada da comunidade, algumas pessoas se aproximaram do carro. Uma delas reconheceu minha tia e veio cumprimentá-la. Outra perguntou quem eu era.
Minha tia respondeu tranquilamente:
— É minha sobrinha. Veio passar um tempo comigo.
As perguntas continuaram por mais alguns instantes. Queriam saber de onde eu vinha, quanto tempo pretendia ficar e se aquela era minha primeira visita.
Olhei para minha tia, um pouco desconfortável com tanta curiosidade.
Ela, porém, parecia acostumada.
Depois de algumas explicações, seguimos viagem.
— Eles sempre fazem tantas perguntas? — perguntei, assim que nos afastamos.
Minha tia soltou uma risadinha.
— Às vezes. As pessoas me conhecem há muitos anos e ficaram curiosas com a sua chegada. Você vai acabar se acostumando.
— Espero que sim.
Encostei a cabeça no banco e soltei o ar lentamente.
Eu não tinha ido ao Rio para procurar confusão. Estava ali para cuidar da minha tia, acompanhá-la durante o tratamento e voltar para a fazenda assim que ela estivesse melhor.
Esse era o meu plano.
E, como toda boa cowgirl, eu gostava de ter um plano.
Só que, enquanto observava as luzes passando pela janela, tive uma sensação estranha de que aquela viagem não seria tão simples quanto eu imaginava.
Eu ainda não conhecia as pessoas que cruzariam meu caminho, não sabia quais desafios encontraria e muito menos entendia como funcionavam todas as relações daquele lugar.
Também não fazia ideia de que, naquela cidade, conheceria alguém capaz de despertar minha curiosidade, testar minha paciência e colocar à prova toda a tranquilidade que eu tanto prezava.
Por enquanto, eu só queria chegar à casa da minha tia, tomar um banho e dormir algumas horas.
Na manhã seguinte, começaria minha nova rotina.
E eu estava determinada a enfrentá-la de cabeça erguida.
Afinal, eu podia até ter deixado a fazenda para trás por algum tempo, mas continuava sendo Sofia.
Uma mulher criada entre cavalos, que não fugia de desafios e que jamais permitiria que alguém decidisse o rumo da sua vida por ela.
Ou, pelo menos, era nisso que eu acreditava naquela noite.
