Capítulo 2 A RUIVA QUE DESPERTOU CURIOSIDADE

Sadan narrando

Eu estava no bar, aproveitando uma parte tranquila da noite, quando um dos rapazes se aproximou com o rádio na mão.

— Sadan, só para avisar: a mulher do falecido Tião acabou de chegar com a sobrinha. Parece que a menina veio ficar com ela durante o tratamento.

Assenti, levando o copo à boca.

— Certo. Se ela precisar de alguma coisa, me avisem.

Tião havia sido muito mais do que um conhecido para minha família. Ele e meu pai eram grandes amigos, daqueles que construíam uma relação baseada em lealdade e confiança. Os dois comandavam o morro juntos e acabaram morrendo no mesmo confronto, deixando para trás pessoas que ainda sentiam profundamente a ausência deles.

Desde então, eu procurava dar assistência à viúva de Tião sempre que necessário. Não fazia aquilo por obrigação, mas pelo respeito que tinha pela história dos dois homens e por tudo o que meu pai havia me ensinado sobre honrar os próprios compromissos.

Eu conhecia parte da história daquele casal. A mulher de Tião tinha uma vida confortável antes de se mudar para o Rio, mas se apaixonou por um homem que não era aceito pela família dela. Decidiu deixar para trás o que conhecia e construir uma vida ao lado dele.

Muita gente não entenderia aquela escolha.

Eu entendia.

Cada pessoa tinha o direito de decidir o que fazer com a própria vida, desde que estivesse disposta a assumir as consequências das próprias decisões.

Não demorou muito para os rapazes que trabalhavam na entrada da comunidade encerrarem o turno e aparecerem no bar. Vieram conversando animadamente, e logo percebi que o assunto era a recém-chegada.

— Patrão, você precisava ter visto a sobrinha do Tião! — um deles comentou, puxando uma cadeira. — A mulher é bonita demais!

Outro soltou uma risada.

— E o cabelo? Parece fogo! Nunca tinha visto uma ruiva daquele jeito tão de perto.

Balancei a cabeça, divertido com o entusiasmo dos dois.

— Vocês não têm mais nada para fazer além de reparar na aparência dos outros?

— Estamos apenas comentando, chefe!

— Então comentem sobre o futebol. Pelo menos isso pode render alguma conversa útil.

Eles riram, mas continuaram falando da novidade por mais alguns minutos.

Confesso que fiquei curioso. Não era todo dia que alguém de fora chegava para passar uma temporada na comunidade, principalmente alguém que, segundo os rapazes, chamava tanta atenção.

Ainda assim, não dei muita importância ao assunto.

A sobrinha de Tião estava ali para acompanhar a tia durante um tratamento médico. Não havia motivo para transformar a chegada dela em um acontecimento maior do que realmente era.

Depois de algum tempo, deixei o bar e segui para casa.

O caminho passava pela rua onde a viúva de Tião morava. Quando me aproximei, notei uma mulher na varanda do segundo andar, observando o movimento lá embaixo.

Não precisei perguntar quem era.

Os cabelos ruivos chamavam a atenção mesmo à distância. Ela estava apoiada perto do parapeito, acompanhando a movimentação da rua com uma expressão séria, como se tentasse compreender tudo o que acontecia ao redor.

Era bonita, isso eu não podia negar.

Mas havia alguma coisa no jeito como observava o lugar que me fez pensar que talvez não estivesse muito satisfeita com a mudança.

Ou talvez eu estivesse apenas tirando conclusões precipitadas.

Não gostava de gente que tratava os outros com superioridade, muito menos de quem chegava a um lugar acreditando que sabia mais do que todo mundo. Tinha pouca paciência para esse tipo de comportamento.

Porém, a mulher nem sequer havia conversado comigo.

Eu não tinha motivos para julgá-la.

Continuei andando, sem interromper o momento dela, e entrei em casa pouco depois.

Aquela noite terminou sem qualquer novidade.

Pelo menos, era o que eu imaginava.

Já passava do meio-dia quando acordei no domingo.

A claridade atravessava as frestas da cortina, e o barulho distante de uma bola batendo contra o chão chegava até meu quarto. Virei para o outro lado da cama, tentando aproveitar mais alguns minutos de descanso, mas logo desisti.

Era meu dia de folga.

Eu trabalhava muito e carregava responsabilidades que não podiam ser ignoradas. Por isso, quando conseguia algumas horas livres, fazia questão de aproveitar. Não precisava de grandes luxos: um churrasco com os amigos, uma partida de futebol e boas conversas eram suficientes para me fazer esquecer os problemas por um tempo.

Levantei, tomei um banho e me arrumei sem pressa.

Quando saí de casa, o movimento da comunidade já estava intenso. Algumas famílias preparavam o almoço, crianças brincavam nas calçadas e a música de uma casa próxima se misturava às conversas dos vizinhos.

Era um domingo comum, do jeito que eu gostava.

Segui em direção à quadra, cumprimentando algumas pessoas pelo caminho.

Foi então que passei novamente diante da casa de Tião.

A ruiva estava na varanda, no mesmo lugar da noite anterior. Dessa vez, usava um short e uma blusa leve, próprios para o calor. O cabelo estava solto, e ela parecia mais à vontade enquanto observava a movimentação.

Quando percebeu minha presença, nossos olhares se encontraram por um breve instante.

Esperei algum sinal de reconhecimento, talvez um cumprimento discreto, mas ela apenas desviou os olhos e voltou a prestar atenção à rua.

Franzi ligeiramente a testa.

Não que ela tivesse obrigação de falar comigo. Eu era praticamente um desconhecido para ela, e seria perfeitamente compreensível que não quisesse conversar.

Mesmo assim, aquele gesto despertou minha curiosidade.

Será que estava desconfortável por estar em um lugar novo? Sentia falta da fazenda? Ou simplesmente não tinha interesse em conhecer ninguém?

Eu não fazia ideia.

— Está olhando o quê, patrão? — ouvi um dos rapazes perguntar atrás de mim.

Virei o rosto e encontrei meu amigo segurando uma bola debaixo do braço.

— Nada que seja da sua conta.

Ele acompanhou meu olhar por um instante e abriu um sorriso provocador.

— Ah, entendi.

— Não entendeu coisa nenhuma. Anda logo, que eu vim jogar futebol, não ficar ouvindo suas bobagens.

Ele soltou uma gargalhada e seguiu em frente.

Continuei caminhando, decidido a não alimentar aquela conversa.

Afinal, eu tinha coisas melhores para fazer do que tentar adivinhar o que se passava na cabeça de uma mulher que sequer conhecia meu nome.

Na quadra, os rapazes já estavam dividindo os times. Cumprimentei os conhecidos, tirei o relógio e o deixei com meus pertences antes de entrar no jogo.

Por alguns minutos, consegui esquecer a rotina, as cobranças e todas as responsabilidades que vinham junto com a posição que ocupava.

Era apenas uma partida entre amigos, acompanhada de brincadeiras, provocações e promessas exageradas de que determinado time venceria de goleada.

E eu pretendia aproveitar cada minuto.

Ainda assim, em algum momento durante o jogo, lembrei-me dos cabelos ruivos na varanda.

Não sabia o nome completo da moça, não conhecia sua personalidade e tampouco tinha motivos para imaginar que nossos caminhos se cruzariam novamente de maneira significativa.

Ela era apenas a sobrinha de um homem que eu respeitava, uma visitante que chegara à comunidade por causa de uma situação delicada na família.

Era assim que deveria permanecer.

Pelo menos, enquanto a vida não resolvesse provar o contrário.

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