Existe vida lá fora

Giulia De Angelis

Olho para o espelho como se fosse um inimigo, evidenciando todos os medos expressos no azul evidente, com um vestido florido caindo pelo corpo, cobrindo as últimas marcas da semana passada. Respiro fundo, admirando a pele clara exposta sem marcas nos braços e no peito, algo realmente raro.

Pego a escova de madeira na penteadeira, sentindo como uma carícia ao passar as cerdas pelos fios, criando coragem para resistir ao dia, mais um dia. É mais interessante do que a morte, servir como fui ensinada é o propósito. Termino de escovar os fios dourados pela terceira vez, colocando a escova na penteadeira branca, fixando meu olhar na caixa retangular aveludada, o cheiro das rosas ao lado da cabeceira chamando minha atenção para o reflexo no espelho para admirar o vaso com as flores amarelas trazendo o mínimo de vida a esta prisão.

Prendi a respiração tentando guardar na memória as boas sensações causadas pelo presente, encarei meu rosto pálido no espelho, limpando a lágrima que escorria pela minha bochecha esquerda. Retoco o pó translúcido no rosto, colocando as mãos no móvel, ciente do que deve ser feito, é necessário.

Levantei-me do banco, grata pela ausência de dor, segurei a caixa colocando-a dentro da bolsa retangular dourada da Gucci, caminhando com passos firmes até o closet, analisando os saltos intactos, os vestidos organizados, como posso ser tão ingrata quando tantas pessoas desejam apenas ter o que comer enquanto eu tenho tudo... é só um pequeno preço a pagar.

Uma jovem não deve chorar por nada, Giulia.

A voz da minha mãe reverbera na minha mente lembrando um de seus ensinamentos, mas

Será mesmo que meu choro é por nada?

Balanço a cabeça, afastando os pensamentos conspiratórios, pegando um peep toe dourado deixando as panturrilhas firmes à mostra contrastando com o vestido florido, criando um aspecto contraditório de felicidade e riqueza por fora, por dentro apenas dor, tristeza e miséria.

Caminho com passos firmes para fora do closet, colocando os pensamentos injustos de volta ao fundo da minha mente, puxando pela última vez o cheiro das rosas, abrindo a porta do quarto segurando a maçaneta para ganhar força.

Fecho os olhos rezando para que isso seja fácil, Deus sabe que eu tenho precisado de algo fácil nesses últimos anos.

As empregadas, como de costume, ignoram minha presença, terminando a limpeza pelos cantos da mansão sem retribuir os cumprimentos. Chego ao corrimão da escada procurando algum apoio, foco em inspirar e expirar a cada passo, levantando a cabeça quando chego ao último, encarando Dominus com a expressão vazia de sempre, afastando-se para abrir a grande porta indicando que desistir não é uma opção.

Ele faz questão de analisar, acenando com a cabeça em uma afirmação silenciosa de que posso sair vestida assim.

Saindo da mansão, segurando as lágrimas ao sentir o sol quente contra a pele, o gramado ainda está verde como sempre, apesar de nenhuma das flores plantadas pela mamãe estarem mais lá.

Sinto o toque suave no meu quadril indicando para continuar, desço os degraus em direção ao grande carro blindado estacionado, o soldado abre a porta lançando um olhar cobiçoso para minhas pernas enquanto me posiciono no assento, encolho-me automaticamente com a noção de que é apenas mais um pecado para minha lista interminável.

Fico presa nesse pensamento, mesmo sabendo que o olhar permanece fixo no retrovisor, suspiro com um toque de felicidade quando a estrada começa a se transformar de grandes árvores em uma rodovia movimentada com pequenos carros, os campos ficando para trás enquanto os edifícios gigantes na linha do horizonte entram em vista.

É tão difícil sair da mansão ou de qualquer espaço na grande fazenda onde vivi desde que nasci, que sinto um enorme fascínio pelo lado de pedra da cidade.

Sempre amei a natureza com todo o meu coração, mas descobri da pior maneira que o purgatório é na terra, parei de sonhar com príncipes e crianças correndo pela casa cheia de cachorros, aceitando os castigos pelos pecados que cometi.

Observo as pessoas dentro de seus pequenos mundos fechados em cada carro, algumas sozinhas outras acompanhadas, perco-me por algum tempo ao ver mulheres respondendo aos motoristas, talvez sejam amantes...

Mulheres nascem para servir, querida.

A voz da minha mãe ecoa, reverberando por todo o meu corpo como uma ordem, é assim que crescemos, é assim que vivemos.

Servir a família, servir os pais, irmãos e depois maridos e filhos, ensinando as filhas a servir a próxima geração para se manterem decentes, criando mulheres educadas dentro de nossos costumes.

Seja uma boa menina, sem tatuagens, sem chorar, sem fazer alarde.

As marcas na minha alma são minha culpa, por ter nascido assim, mulher, pecadora.

Se ela ainda estivesse aqui, me culparia por esses pensamentos, não adianta culpar sem resolver o problema, mas o que posso fazer quando eu sou o problema?

O céu outrora claro começa a ser substituído por um ambiente cinza devido à poluição massiva da cidade, as buzinas entram em uma competição à medida que a rodovia se reduz a uma ampla avenida, os campos deram lugar a prédios e as calçadas lotadas de pessoas apressadas.

Por mais que eu saiba o que é necessário, não tenho pressa de voltar, não tenho pressa de chegar ao meu destino agora, o assento de couro atrás das janelas escuras parece o lugar perfeito para estar.

Esta viagem em direção ao centro de Nova York é um momento único de liberdade em meses, meus sentimentos se contorcem turbulentos dentro do meu peito, razão se misturando com emoção, meus olhos ardem.

Foram tantos anos e as dúvidas ainda fazem questão de serpentear pela minha cabeça como a víbora seduziu Eva, somos a culpa do pecado.

Prendo a respiração impedindo as lágrimas de caírem, quando sou a culpada, eu deveria ter sido uma filha melhor, uma irmã melhor. sobre meus ombros completando a zombaria.

Tentei tanto encobrir tudo, mas não adianta esconder o mal em meio a orações, não importa quantas vezes eu entre na igreja pedindo perdão, há apenas uma maneira de purgar meus pecados.

Desperto dos meus pensamentos com a porta do carro se abrindo em frente a um enorme prédio espelhado com impressionantes portas de vidro, a calçada lotada de pessoas em seus caminhos com alguns parando para observar o homem alto e loiro de terno abrir a porta do carro.

Quando percebem que não é uma celebridade, desviam o olhar e voltam aos seus caminhos, saio do carro entrando no prédio tentando formular algo coerente para falar, sentindo a companhia do soldado seguindo meus passos.

Ele nem me deixa falar com a simpática moça que sorri ao me ver, ele simplesmente se coloca na minha frente indo falar sobre o que viemos fazer aqui.

Nem sei por que isso me incomoda tanto, não é culpa dele se a pobre garota pode se infectar comigo.

As portas do elevador se abrem, entro obedecendo ao soldado que acena, respiro fundo, aproveitando os poucos minutos de diferença dentro da rotina rígida. Os números continuam aumentando, suspirei percebendo que ninguém poderá usar este elevador porque estou nele, sem contato fora da bolha de proteção.

O elevador para abrindo as portas de metal, mostrando um amplo espaço, fico maravilhada com o tamanho do lugar, nem mesmo a empresa da minha família tem todo esse espaço, poucas pessoas circulam pelo local, as paredes de vidro mostram a vista completa do topo de vários prédios da cidade em uma exibição completa de poder. Dois homens pararam em frente ao segurança dizendo algo em voz baixa que o faz olhar para mim com fúria, encolho-me internamente com medo de receber algum castigo sem saber o que fiz.

Ele acena para que continuem entrando no escritório e fica ao lado dos dois homens indicando a grande porta do outro lado da sala, algumas secretárias abrem um sorriso acenando, fazendo minhas bochechas corarem, pelo desejo de ter algum amigo.

Todos parecem absortos em seu próprio trabalho, a porta dupla parece um inimigo batido sem resposta, deveria haver uma mesa aqui, olho ao redor para o computador ligado e os documentos desorganizados na mesa. Bato mais forte na porta.

Pode entrar. - A voz alta parece abafada.

Abro a porta, entrando com algum medo, paro assim que fecho a porta, arrependendo-me de ter vindo aqui.

Sinto minhas bochechas queimarem ao ver uma ruiva de joelhos na frente do homem, chupando seu pau com todo o esforço, eu diria até orgulhosamente, eles não param o ato e me sinto muito envergonhada para dizer qualquer coisa.

Solto um pequeno grito, atraindo a atenção deles, arrependendo-me ao mesmo tempo, viro as costas tentando limpar a sensação do olhar sombrio da minha mente.

Por favor, Giacomo, termine o que está fazendo. - Digo asperamente, querendo acabar com isso o mais rápido possível.

Como esse homem pode estar enviando rosas todos os dias, enchendo minha casa com minhas flores favoritas e estar aqui transando com uma mulher que nem é da família. razão, nenhum homem honrado desejaria se casar comigo.

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