Capítulo 1
POV da Natasha
Westbay, sudoeste da Inglaterra.
— Natasha Hastings, desça desse mastro agora mesmo!
A voz da minha mãe ecoou pelo porto com clareza, aguda com aquela mistura de exasperação e resignação que eu ouvia a vida inteira. Fingi não escutar e subi os últimos metros para checar o cordame. A vista lá de cima valia qualquer bronca: Westbay inteiro se espalhava abaixo de mim, o sol de outono transformando o mar em cobre derretido.
— Deixa a menina, Mary — chamou meu pai do convés. — Ela enxerga cabo frouxo melhor do que metade da minha tripulação.
— Ela não é uma menina, é um perigo! — Mamãe estava no cais, braços cruzados, o rosto vermelho. — Olha pra ela: vestida como um moleque esfarrapado, se pendurando por aí feito um macaco. Ela tem dezessete anos, John! Dezessete! Era pra estar aprendendo a cuidar de uma casa, não… seja lá o que isso for!
Desci escorregando com a facilidade do costume e pousei leve no convés. Minha calça de marinheiro, já bem usada, estava manchada de piche; a camisa larga, dois números maior do que eu — herdada dos meus irmãos mais velhos antes de irem para os navios mercantes —, e meus cachos curtos castanho-escuros escapavam do boné em ângulos esquisitos. Eu parecia muito mais um garoto magricela de doze anos do que uma moça em idade de casar.
Perfeito.
— Eu estava conferindo o estai de proa, mãe — falei animada. — Mais uma semana e o pai podia perder a vela inteira numa tempestade.
— Sua irmã não sobe em mastro — o tom dela estava começando a amolecer. — Sua irmã sabe se comportar como uma jovem de verdade.
— A Davelina é perfeita — concordei, porque era verdade. Com vinte anos, minha irmã mais velha era tudo o que eu não era: graciosa, bonita, com o cabelo castanho-dourado que ela usava em tranças elaboradas. Metade dos rapazes de Westbay era apaixonada por ela. — Mas a Davelina passa mal só de olhar pra barco, então alguém tem que ajudar o pai.
— Eu não passo mal — veio a voz da minha irmã do cais. Ela tinha surgido ao lado da mãe, um cesto de costura apoiado no quadril, tentando não rir. — Eu só prefiro chão firme.
— Como uma pessoa sensata — disse minha mãe, cheia de intenção.
Meu pai riu, o rosto curtido de sol se enchendo de rugas.
— Se eu tivesse tido outro filho depois que os meninos foram embora, Mary, era exatamente assim que eu ia querer que ele fosse. Como Deus mandou só filhas, eu faço o melhor com o que tenho. — Ele bagunçou meu cabelo. — Minha pequena lontra-do-mar. Sobe em qualquer coisa, conserta qualquer coisa, não tem medo de trabalho pesado.
— “Pequena lontra-do-mar” — resmungou minha mãe. — É assim que o povo todo da vila chama ela agora. Não é “Natasha”, não é “senhorita Hastings”, é “pequena lontra-do-mar”, como se fosse mascote de porto!
— Podia ser pior — comentei. — O velho Thomas chama o Jimmy de “peixe que anda”.
— Isso não tem graça! — Mas o canto da boca dela estava tremendo. Ela nunca conseguia ficar brava por muito tempo. — O filho do padeiro perguntou de você semana passada. Tive que explicar que minha filha estava no mar, puxando cesto de siri. Ele olhou pra mim como se eu fosse louca.
— O filho do padeiro é um chato. Só fala de tipo de farinha.
— Ele é respeitável. Tem futuro.
— Tem cara de bolinho cru.
— Natasha!
A Davelina caiu na risada de vez, levando um olhar de reprovação.
— Não incentiva — ralhou mamãe. — Você é que devia dar bom exemplo.
— Alguém tem que garantir que ela não caia de nenhum mastro — disse a Davelina, diplomática. — Você terminou ou ainda tem mais cabo pra inspecionar?
Olhei pro céu. O sol já descia em direção ao horizonte, tingindo tudo de âmbar e dourado.
— Terminei. Por quê?
— Porque o pai disse que hoje à noite a gente tá livre — os olhos da Davelina brilhavam de travessura. — Tô pensando em dar uma passada no Canto do Golfinho hoje.
— Você quer ir a uma taberna? — encarei minha irmã perfeita, certinha. — A mãe mata nós duas.
— A mamãe não precisa saber — disse Davelina, serena. — Vou dizer que a gente vai visitar a esposa do vigário pra pegar um livro de moldes. Você pode dizer que vai remendar redes.
Eu abri um sorriso. Era por isso que Davelina era minha pessoa favorita no mundo.
— Então vai ser A Canção do Golfinho — falei. — Mas eu não vou trocar de roupa.
— Eu jamais sonharia em pedir isso pra você — disse Davelina. — Você provavelmente escandalizaria todo mundo aparecendo parecendo uma garota pela primeira vez na vida.
A Canção do Golfinho já estava cheia quando chegamos, tomada de fumaça de cachimbo e cheiro de cerveja. Mantive o boné bem baixo e os ombros curvados, me enfiando pela multidão com a facilidade de quem já está acostumada. Com aquelas roupas, meu cabelo curto e o peito bem apertado, eu era só mais um filho de pescador tomando um gole depois do trabalho.
Davelina chamava bem mais atenção. Vários homens se viraram quando ela entrou, os olhos demorando no cabelo dourado e no rosto bonito. Mas ela lidou com aquilo com a graça de sempre, acenando educadamente, porém fria, enquanto vinha até a mesa no canto que eu já tinha garantido.
— Você devia deixar seu cabelo crescer — murmurou ela, ajeitando as saias. — É de uma cor tão bonita...
— Ia parecer que eu tô tentando ser algo que eu não sou — cortei, mantendo a voz baixa e rouca. — Assim é mais fácil. Assim sou eu.
Ela suspirou, mas não discutiu. Já tínhamos tido essa conversa umas cem vezes. Davelina entendia, mesmo que não aprovasse totalmente, que eu simplesmente ficava mais à vontade daquele jeito.
— Pelo menos tenta sentar como uma moça — sussurrou.
Olhei pra baixo e percebi que eu estava esparramada, com as pernas abertas e um tornozelo apoiado no joelho. Nada feminina. Me ajeitei um pouco, ganhando um aceno de aprovação.
Velho Thomas já estava fazendo serventia de contador de histórias perto da lareira, o rosto enrugado iluminado pelo fogo. Aos setenta e três anos, tinha sobrevivido a mais tempestades do que a maioria dos homens tinha visto nascer do sol.
— Cinquenta anos atrás — começou Thomas, o único olho bom brilhando —, meu pai viu uma coisa que assombrou ele até o dia em que morreu.
Eu me inclinei pra frente, atraída pelo tom dele. Thomas era um mestre em contar histórias.
— Um navio negro — continuou —, sem velas, sem remos, avançando contra o vento como se fosse puxado por mãos invisíveis. O casco parecia madeira queimada, preto como pecado.
Joãozinho — o João de verdade, não eu — bufou dentro do caneco.
— Ah, qual é, Thomas. Você já bebeu demais. Que navio é que anda sem vela?
— Meu pai — interrompeu Thomas, seco — viu três barcos de pesca seguirem aquela embarcação amaldiçoada em direção ao fundo do oeste. Nenhum nunca voltou.
A taberna ficou em silêncio.
— Com o passar dos anos, mais barcos sumiram. Os oficiais diziam que eram tempestades. Diziam que era pirataria. Mas meu pai sabia que não era isso. — A voz dele baixou. — Aqueles homens foram levados pra Ilha dos Desaparecidos.
Eu já tinha ouvido versões dessa história antes, mas tinha alguma coisa no jeito que Thomas contava que deixava tudo diferente naquela noite.
Me aproximei de Davelina.
— Esses velhos adoram uma história de terror barata.
— Psiu — ela chiou, mas a mão encontrou meu braço, os dedos se apertando. — Só escuta.
Velho William falou do canto dele:
— Eu também ouvi histórias do meu avô. Dizia que aquela ilha é habitada por monstros. — A voz carregava uma certeza absoluta. — Eles vêm nas noites mais escuras, quando a neblina desce grossa. Caçam moças e homens fortes.
— Por que moças? — gritou alguém.
O rosto de William escureceu.
— Por causa do que eles fazem com elas.
O silêncio foi total.
Thomas se inclinou pra frente, a luz do fogo deixando o rosto dele antigo e terrível.
— Tem uma fortaleza naquela ilha. O castelo do Rei Monstro. — Ele lançou um olhar em volta, parando nas mulheres presentes — o olhar demorou em Davelina, e passou direto por mim. — Chamam de Inferno das Moças.
Meu estômago se contraiu com o nome.
