Capítulo 2

Ponto de vista da Natasha

— As mulheres que eles levam pra lá — continuou Thomas, com a voz pesada —, eles usam como brinquedos. Como escravas sexuais. As criaturas… não são só lobisomens. São maiores, mais fortes, e o apetite deles… — Ele balançou a cabeça. — A maioria das mulheres não sobrevive a mais de uma noite. Duas, se tiverem azar.

Ao meu lado, Davelina ficou completamente imóvel. Os dedos dela cravaram no meu braço.

— Isso é bárbaro — murmurou alguém.

— Isso é a realidade — disse Thomas, num tom seco. — Meu pai dizia que dava pra ouvir os gritos dos navios que chegavam perto demais. Mulheres gritando a noite inteira. De manhã, silêncio.

Eu quis rir e tratar aquilo como exagero, mas as palavras ficaram presas na garganta. Porque Thomas não parecia estar contando uma história de fogueira. Ele parecia estar fazendo um alerta.

O velho William concordou devagar com a cabeça.

— Meu avô dizia que essas criaturas nem sempre foram monstros. Séculos atrás — quatro, talvez quinhentos anos —, elas viviam em paz. Tem gente que diz que até ajudavam navios em perigo.

— O que mudou? — alguém perguntou.

Thomas ficou olhando para o fogo.

— Caçadores. A Igreja. Talvez os dois. Alguém decidiu que aquelas criaturas eram abominações que precisavam ser exterminadas. Então tentaram. — O maxilar dele se contraiu. — Meu pai dizia que os caçadores foram até a ilha durante algum tipo de eclipse — quando as criaturas estavam mais fracas. Eles massacrar am mulheres, crianças, qualquer um que encontrassem.

— E os sobreviventes? — William retomou a história. — Dizem que o líder das criaturas enlouqueceu naquela noite. Vendo o povo dele morrer, tentando protegê-los, ele colocou tudo o que tinha na defesa deles. Mas o preço foi alto demais. Perdeu completamente a razão. Virou nada além de uma besta assassina.

— Esse líder louco — disse Thomas em voz baixa — ainda é o rei deles. Trancado na fortaleza como um cão raivoso, movido só por sede de sangue e… — Ele lançou um olhar para as mulheres. — Outros apetites. Dizem que ele precisa de mulheres jovens pra satisfazer os desejos dele — precisa do sangue delas, dos corpos delas. Sem um fornecimento constante, ele se solta e mata até os da própria espécie.

O silêncio ficou sufocante.

O jovem John tentou quebrar a tensão, desta vez sem zombaria na voz:

— Mesmo que uma ilha dessas exista — o que não estou dizendo que acredito —, ela não pode ser aqui perto, pode? O Atlântico é imenso.

— É exatamente por isso que estou avisando vocês — cortou Thomas, em tom afiado. — Se um dia virem um navio negro na neblina, deem meia-volta na mesma hora. Não vão investigar. Não tentem ajudar. Nem fiquem olhando demais. Só corram.

— Mas como a gente ia reconhecer esse navio?

— Você vai saber — disse William, com expressão sombria. — Vai sentir nos ossos. Aquele navio é errado. Tem um jeito errado de parecer, de se mover. E a neblina que vem com ele… não é névoa normal. É grossa como lã, fria como a morte, e se mexe como se fosse viva.

Eu não consegui me segurar:

— Então por que ninguém denunciou isso às autoridades? Por que o governo não manda a Marinha?

Todos os marinheiros velhos se viraram pra me encarar. A expressão de Thomas chegava a ser quase de pena.

— Denunciar pra quem, rapaz? — perguntou William, com gentileza. — Você acha mesmo que funcionário em Londres liga pra história de pescador? Iam dizer que é superstição. Botar a culpa em tempestade e pirata.

— E mesmo que acreditassem — emendou Thomas —, como iam encontrar o lugar? Aquela ilha não aparece em mapa nenhum. Você nunca ia achar se ela não quisesse ser achada.

— Mas com certeza alguém já conseguiu fugir…

— Ninguém volta de lá, garoto — cortou Thomas, com voz definitiva. — Por isso chamam de Ilha dos Desaparecidos. Você vai, e acabou. Some. Pra sempre.

Quando eu e Davelina finalmente fomos embora, vi Thomas parado perto da porta. Ele não estava olhando para o porto familiar. Ele encarava o oeste, onde a escuridão parecia de algum jeito mais profunda do que deveria.

Ele parecia estar vendo algo que o resto de nós não via. Algo negro e terrível, à espreita numa névoa distante.


"Você ficou calada na caminhada de volta pra casa", disse Davelina na manhã seguinte, enquanto a gente preparava o café. Mamãe tinha saído pra visitar uma vizinha doente, e Papai estava no cais.

Dei de ombros, concentrada em cortar o pão. "Aquelas histórias mexeram comigo mais do que eu esperava."

"Mas são só histórias, né?"

"São", respondi, mas nenhuma de nós duas parecia muito convencida.

Então olhei pela janela e vi o sol da manhã rompendo as nuvens da tempestade da noite anterior. O mar estava naquele azul-esverdeado brilhante que só aparece depois de tempo pesado.

"A tempestade foi embora!" falei, sentindo a inquietação sumir. "Davelina, a gente tem que ir pra Baía do Recife! Vai ter concha incrível demais — as poças de maré depois de uma tempestade são sensacionais!"

"De jeito nenhum." Ela não tirou os olhos dos ovos que fritava. "A Baía do Recife é isolada demais."

"Você não acredita mesmo nessas histórias, acredita? É só velho querendo se sentir importante."

Ela largou a colher e me lançou aquele olhar. "Essas histórias são passadas de geração em geração. O medo existe por um motivo. Ele mantém as pessoas vivas."

"E viver de verdade também!" Agarrei a mão dela. "Vamos. O dia tá lindo. O sol tá brilhando. Que monstros caçam em plena luz do dia?" Sorri. "Além do mais, faz quanto tempo que a gente não faz alguma coisa divertida, só nós duas?"

A resistência dela desmoronou. "Tá bom. Mas a gente não fica depois de meio da tarde. E se qualquer coisa parecer errada, a gente vai embora na mesma hora. Me promete."

"Prometo!" Eu já estava pegando nosso cesto de vime. "Vai ser perfeito!"

Enfiei o boné até embaixo, por cima dos meus cachos curtos, prendendo as mechas soltas. A faixa de tecido que eu tinha enrolado no peito de manhã já estava no lugar — como na maioria dos dias em que eu trabalhava. Sem ela, meus seios iam esfregar na camisa áspera o dia inteiro, e o atrito deixaria tudo dolorido até o fim da tarde.

O fato de isso também me fazer parecer ainda mais com um garoto era só um efeito colateral. Útil, talvez, já que significava que eu podia ir a lugares onde moças não podiam. Mas não era por isso que eu fazia.

Eu me vestia assim porque era confortável. Porque era prático. Porque era quem eu era.

A pequena lontra‑do‑mar que se sentia mais em casa num barco do que numa sala de visitas.


A Baía do Recife era tudo o que eu tinha esperado. A maré estava bem baixa, revelando poças cheias de vida — minúsculos caranguejos, anêmonas balançando como flores debaixo d’água, peixinhos disparando pela água cristalina.

Eu passava de pedra em pedra com facilidade, minhas botas gastas encontrando apoio nas superfícies escorregadias. Já tinha achado três búzios perfeitos, dois cacos de vidro do mar — um azul, um verde — e uma estrela‑do‑mar viva, que eu devolvi com cuidado a uma poça funda.

"Olha essa aqui!" gritei para Davelina, erguendo um pedaço grande de vidro do mar, gasto liso pelas ondas. "Tá quase perfeitamente redondo!"

"Lindo", ela concordou, mas a atenção dela continuava se perdendo lá no horizonte. O mar parecia normal — ondas rolando, aves marinhas mergulhando, sol forte lá em cima. Mas alguma coisa na postura dela me deixou inquieta.

"Você tá bem?"

"Já tá ficando tarde", ela disse, embora o sol ainda estivesse alto. "Talvez a gente devesse…"

"Só mais uns minutinhos!" Eu tinha visto algo enfiado entre as pedras — uma concha de búzio perfeita. "Eu achei…"

As palavras morreram.

Névoa.

Subindo da água como uma parede viva, densa e cinza‑branca, avançando em direção à costa numa velocidade impossível. Eu tinha visto brumas do mar a vida inteira, mas nada assim. A temperatura caiu tão de repente que eu conseguia ver minha própria respiração.

"Natasha!" A voz de Davelina se quebrou de terror. "Corre! AGORA!"

Eu corri.

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