Capítulo 4

Ponto de vista da Natasha

O tranco violento do navio me acordou. Minha cabeça latejava onde tinha batido na parede de madeira durante a noite e, por um momento, eu não consegui lembrar onde estava. Aí o fedor me atingiu — vômito, corpos sem banho.

Minhas mãos voaram para o peito. A faixa de tecido ainda estava lá, apertada o bastante para deixar a respiração incômoda. Graças a Deus.

— Lina — eu arranhei, sacudindo o corpo quente ao meu lado. — Acorda. O navio parou.

Davelina se mexeu, o rosto pálido na luz fraca que entrava pelas frestas do casco. À nossa volta, outros prisioneiros começavam a se movimentar, gemendo e gritando. Em algum lugar, uma criança chorava pela mãe.

A escotilha acima de nós se escancarou. Uma luz cinza e ofuscante invadiu o porão, e uma voz áspera como pedra rangendo berrou:

— Em pé! Quem ainda estiver no chão em dez segundos leva chicotada!

Corpos se puseram de pé às pressas. Ajudei Davelina a se levantar, as pernas dela tremendo. Subimos a escada com os outros, empurrados por mãos desesperadas por trás, puxados para frente pelo terror.

O convés era puro caos. Criaturas — Lycans, imaginei — circulavam entre nós com chicotes de couro, separando os prisioneiros como se fossem gado. Um deles agarrou uma moça pelos cabelos e a arrastou para a esquerda. Outro empurrou um homem idoso para a direita. Crianças gritavam. Alguém rezava em francês acelerado.

Mas foi a vista além do navio que fez meu sangue gelar.

Tínhamos chegado ao inferno.

Rochas negras e imensas brotavam da água revolta como dentes apodrecidos. O céu tinha a cor do chumbo, escurecido por algo que parecia cinza vulcânica. Um cais de pedra grosseiro se estendia diante de nós e, por todo lado que eu olhava, via prisioneiros homens — dezenas deles — carregando engradados sob a supervisão de feitores Lycan. As costas deles exibiam marcas de chicote. Seus rostos não mostravam expressão alguma.

Aquele era o Porto Lua de Sangue. Tinha que ser.

— Lembra do que eu te falei — sussurrou Davelina, urgente, apertando meu braço.

Assenti, mantendo o boné bem enfiado na testa.

Um Lycan vesgo, de pelagem marrom manchada, entrou pela prancha, examinando a gente com frieza calculada.

— Ouçam bem, rebanho. Machos pra esquerda — vão pra mineração. Fêmeas pra direita, pra inspeção. As bonitas vão pra fortaleza. As feias, pra cozinha.

Não. Não, não, não—

Mãos ásperas agarraram meu ombro, me arrancando de perto da Davelina. Eu lutei, mas o aperto era de ferro.

— Para! Deixa eu ficar com ela!

— Cala a boca, moleque. — Uma mão com garras me deu um tapa na orelha, fazendo minha visão embaçar. — Agora você é meu.

Fui arrastada em direção a uma fileira de prisioneiros homens, os rostos todos igualmente sem esperança. Atrás de mim, ouvi Davelina gritar, mas quando tentei me virar, outro golpe me jogou de joelhos.

Então — o som de cascos.

Um lobo gigantesco, facilmente do tamanho de um cavalo, disparou pela doca. O Lycan montado nele usava couro negro e uma expressão de irritação mal contida. Desmontou com uma graça fluida e avançou em direção ao capataz vesgo.

— Alto aí — ordenou o cavaleiro. A voz dele tinha uma autoridade que fez até o capataz se enrijecer. — O Senhor do Norte, Fergus, mandou recado. A fortaleza está com falta de mão de obra. A maioria das escravas morreu semana passada, e não sobrou ninguém pra carregar os cadáveres ou esfregar o chão. Vou levar alguns dos seus machos.

Semana passada. As palavras se assentaram no meu estômago como gelo.

O capataz fez uma careta.

— Escolhe quem você quiser, então. Eu preciso do resto nas minas.

O olhar do cavaleiro de preto passou por nós. Parou em mim — pequena, com aparência jovem dentro das roupas grandes demais — e depois em dois outros garotos, mais ou menos da minha idade.

— Vocês três. Parecem fortes o bastante pra carregar peso e limpar. Vão junto com as fêmeas.

Conduziram a gente pelo porto acorrentados. Davelina ia na frente de mim, a coluna rígida numa compostura forçada. Eu mantinha os olhos baixos, mas a visão de relance me mostrava o suficiente: escravos homens carregando engradados de pedra negra, os músculos retesados pelo esforço. Guardas lycan recostados perto de braseiros, passando um odre de vinho e rindo de alguma piada só deles. E, ao fundo, empoleirada num penhasco de rocha vulcânica, uma fortaleza que parecia esculpida do próprio pesadelo.

Cidadela Uivante. Inferno de Menina.

Os sussurros ao meu redor confirmaram. Um prisioneiro mais velho, o rosto cheio de cicatrizes, murmurou para o companheiro:

— Tá vendo aquela torre? É lá que eles guardam a escrava sexual. Nenhuma dura mais que uma noite ou duas.

— Cala a boca — o companheiro sibilou. — Quer levar chibatada?

Entramos por um portão de serviço nos fundos da fortaleza. Nada de grande entrada pra mercadoria. Só um corredor estreito que fedia a enxofre e a algo mais doce — podridão, talvez, ou sangue velho. As paredes estavam úmidas, e argolas de ferro salpicavam a pedra em intervalos regulares. De algumas pendiam algemas, ainda manchadas de escuro.

Davelina olhou pra trás, pra mim, uma única vez.

Então as servas a puxaram para longe, por um corredor acarpetado de vermelho. Eu a observei se afastar, memorizando cada detalhe daquele lugar, guardando tudo pra depois.

O cavaleiro que tinha nos reclamado — claramente um guarda lycan de patente mais baixa — empurrou a mim e aos outros garotos em direção a uma passagem diferente.

— Pra baixo. Tem cela pra gente como vocês no subsolo.

A escadaria descia para uma escuridão iluminada só por tochas fumegantes. O ar ficava mais frio a cada degrau, e o cheiro mudava de enxofre para pura podridão úmida. No final, um corredor se estendia na penumbra, ladeado por portas reforçadas com tiras de ferro.

O guarda parou diante de uma delas e a escancarou com um chute.

— Seu canil, garoto. Tem palha num canto. Não espere cobertor.

Ele me empurrou pra dentro com tanta força que eu caí estatelado na palha mofada. A porta bateu antes que eu conseguisse me levantar.

— Dez minutos! — o guarda gritou pela grade. — Depois você vai carregar água pros banhos de cima. Noite grande hoje — carne fresca pro Rei Lycan.

Os passos dele se afastaram.

Fiquei deitado no escuro, respirando pela boca pra evitar o pior do fedor. A cela não tinha mais que dois metros de largura. Nenhuma janela, só uma abertura de ventilação do tamanho da palma da mão, bem no alto de uma parede. Água pingava em algum lugar ali perto, num ritmo enlouquecedor.

Davelina, pensei desesperado. Pra onde levaram você?

Mas eu sabia. O carpete vermelho, o cuidado com que a tratavam — estavam preparando ela pra alguma coisa específica. Algo que as palavras do guarda tinham deixado horrivelmente claro.

Carne fresca pro Rei Lycan.

Encolhi o corpo na palha, abraçando os joelhos contra o peito, e tentei não gritar.

Fiel ao que dissera, o guarda voltou no que pareceu ser questão de minutos. Ele me arrancou da cela e enfiou dois baldes de madeira nas minhas mãos.

— Andar de cima. Câmara de preparação. Enche a banheira, anda.

Os baldes estavam pesados com água fumegante. Meus braços tremiam enquanto eu subia as escadas, seguindo uma serva de cara fechada que não dizia nada. Passamos por corredores que, aos poucos, iam ficando menos rústicos — a pedra dava lugar à madeira polida, as tochas a lâmpadas de verdade.

Então senti o cheiro: jasmim e óleo de rosas, tão fortes que quase sufocavam.

A serva empurrou uma porta ornamentada, e eu tropecei para dentro de uma câmara de luxo cruel. Uma banheira enorme de cobre dominava o centro, já meio cheia de água leitosa. O vapor subia em espirais preguiçosas. Pelo cômodo, outras servas se agitavam com óleos e perfumes, dispondo tecidos tão finos que, com boa vontade, podiam ser chamados de roupa.

E ali, parada no meio de tudo, nua e tremendo —

Davelina.

Minhas mãos quase deixaram os baldes cair.

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