Capítulo 5

Ponto de vista da Natasha

Uma mulher mais velha, toda de preto severo — claramente a chefe dos empregados — circulava em volta da minha irmã como mercador inspecionando gado.

“A água tá quente demais”, cortou alguém, ríspida. “Põe fria. Não podemos escaldar a pele dela antes da apresentação.”

Eu me obriguei a me mexer, a avançar com as pernas dormentes, a despejar os baldes na banheira como tinham mandado. Mantive os olhos baixos, mas já estava perto o bastante para ver os tremores que sacudiam o corpo da Davelina, o jeito como ela cerrava as mãos ao lado do corpo.

“Você. Isso, garoto pescador.” A voz da mulher mais velha cortou meus pensamentos. “Vem aqui.”

Fui me aproximando devagar, mantendo o boné bem enfiado na cabeça, rezando pra ela não olhar de perto demais.

Ela agarrou meu queixo com uma força surpreendente e levantou meu rosto num tranco, os olhos claros cravados nos meus. Eram olhos afiados, calculistas, que não perdiam nada. O olhar dela percorreu meus traços.

“Pra filho de pescador, suas mãos são notavelmente sem calos”, comentou, em voz baixa. “E o seu rosto é... muito limpo. Muito bonito. Bonito demais pra um menino que supostamente puxou rede a vida inteira.”

Meu coração martelava contra as costelas. Por trás dela, vi os olhos da Davelina se arregalarem de terror.

“E-eu só conserto rede, senhora”, consegui dizer, forçando a voz a sair mais grave, mais áspera. “Quase não vou pro mar. Fico mais na praia.”

A mulher — Madame Victoria, tinha ouvido outro criado chamá-la assim — me estudou por mais um instante. Depois, inexplicavelmente, me soltou e virou de costas.

“Uma pena você ter sido destinado aos alojamentos masculinos”, murmurou, quase pra si mesma. “Um rosto desses podia ser útil como bichinho de estimação. Mas suponho que a fortaleza esteja precisando mais de costas fortes do que de rostos bonitos agora.” Fez um gesto displicente com a mão. “Joga o resto dessa água na tina e cai fora. Você tá entulhando o meu espaço de trabalho.”

Despejei o balde que faltava com as mãos trêmulas, roubando um último olhar para a Davelina. Ela tinha ficado imóvel, os olhos grudados nos meus.

Três Lycans entraram no aposento em seguida — dava pra saber que eram guardas pelas armas e pelo jeito cheio de pose. Começaram a examinar a Davelina com mãos que demoravam demais, comentários que reviraram meu estômago. Um deles agarrou o seio dela, pesando-o como se fosse fruta.

“Essa serve”, resmungou. “Firme o bastante. Quadril bom pra reprodução, se ela sobreviver à primeira noite.”

A voz da Victoria cortou o ar, afiada: “Chega de apalpar. Vão estragar a mercadoria.” Ela apontou pra mim com um dedo magro e duro. “Você — garoto. Lá fora. Vai esfregar o chão do corredor. O do lado leste tá imundo.”

Um guarda agarrou meu ombro e me arrastou até a porta. No instante antes de ela se fechar, ouvi o primeiro soluço da Davelina — pequeno, abafado depressa, mas inconfundível.

A porta se fechou. A fechadura girou.

E eu fiquei sozinha num corredor iluminado por tochas, segurando um balde vazio, com o choro abafado da minha irmã ecoando nos meus ouvidos.


O guarda que tinha me tirado dali já tinha desaparecido, provavelmente de volta pro posto que abandonara. Ninguém estava me vigiando.

Corredor leste, a Victoria tinha dito. Mas havia passagens por toda parte naquela fortaleza maldita, se ramificando como veias.

Escolhi a mais escura.

Os corredores de serviço eram um labirinto de passagens estreitas e cantos apertados, feitos para eficiência, não conforto. Perfeitos para uma pessoa pequena escorregar despercebida. Eu me movia rápido, mas com cuidado, ainda com o balde na mão como disfarce, os ouvidos atentos a qualquer voz.

Foi então que ouvi — duas vozes masculinas, falando baixo atrás de uma porta entreaberta.

“...quanto tempo você acha que a novata aguenta, Fergus? O Rei anda pior ultimamente. Mais instável.”

“Não importa.” A segunda voz era mais fria. “Ela vai aguentar a noite ou não vai. Quando morrer, a gente joga o corpo dela no mar e arruma outra.”

Eu me achatei contra a parede, quase sem respirar, e espiei pela fresta.

Dois Lycans enormes estavam em algo que parecia uma sala de guerra, mapas espalhados sobre uma mesa entre eles. Um tinha pelagem cinza-prateada e olhos de cores diferentes—um vermelho-sangue, o outro âmbar. O outro era de um marrom-avermelhado, mais magro, mas não menos perigoso.

—A loira não vai sobreviver —disse o ruivo, num tom neutro. —Nenhuma delas sobrevive mais. O Rei já foi longe demais. —Ele fez uma pausa. —E os garotos que a gente trouxe? Aquele pequeno, de rosto bonito...

—O que tem ele?

—Se a garota morrer rápido e o Rei ainda estiver precisando... —O ruivo deu de ombros. —Ele é jovem, tem jeito de macio. Pode servir numa emergência. Qualquer buraco quente serve quando a besta está desesperada. Melhor do que arriscar outra fuga.

Minha mão voou para a boca, abafando o sobressalto.

Minha bota raspou na pedra.

A cabeça de Fergus se virou na direção da porta num estalo, aqueles olhos desencontrados se fixando na escuridão onde eu me escondia.

—Saia daí, ratinho. Consigo ouvir seu coração daqui. Parece que vai explodir.

Eu corri.

Atrás de mim, ouvi a porta escancarar e passos pesados vindo em perseguição. O corredor de serviço se retorcia em curvas, mas não tinha sido feito para fuga—só para eficiência. Um beco sem saída surgiu à frente, e eu freei, girando—

Fergus surgiu das sombras como algo tirado de um pesadelo. Uma mão enorme se fechou em volta da minha garganta, me ergueu do chão com facilidade e me esmurrou contra a parede de pedra com força suficiente para fazer meus dentes baterem.

O rosto dele se aproximou, o nariz tremendo enquanto me cheirava. Aqueles olhos desencontrados se estreitaram, confusos.

—Estranho —murmurou. —Você cheira a sal e ar do mar, mas por baixo...

Ele inspirou mais fundo, e eu vi exatamente o momento em que sua expressão mudou de curiosidade para desconfiança.

—Algo mais doce. Algo...

Ele me soltou de repente, e eu desabei no chão, arfando.

—Você estava ouvindo —disse Fergus, num tom seco. Não era pergunta.

Eu não conseguia formar palavras. Só conseguia olhar para ele, rezando para que fosse rápido.

Mas Fergus não me matou. Em vez disso, chamou guardas com um assobio agudo. Quando eles chegaram, ele fez um gesto de nojo na minha direção.

—Tranque ele de volta na cela. Se o Rei não estiver satisfeito hoje à noite, vamos mandar esse aqui tomar um banho e subir. —Seu lábio se encurvou. —Melhor um pedaço de carne de reserva do que outro massacre.

Os guardas me puxaram para ficar de pé e me arrastaram de volta pelos corredores, escada abaixo, até aquela cela minúscula com a palha podre. Me jogaram lá dentro com tanta força que eu deslizei pelo chão.

A porta bateu. A tranca girou.


Não sei quanto tempo fiquei encolhido naquela palha.

Então uma sensação nova começou a tomar conta de mim. Primeiro achei que fosse só o frio da cela, mas não—era diferente. Calor. Começando bem fundo no meu ventre e se espalhando para fora como febre.

Eu me sentei, confuso. Minha pele parecia apertada demais. Minha respiração acelerou sem motivo. A faixa de tecido em volta do meu peito de repente pareceu insuportavelmente apertada, e eu arranhei o tecido, tentando afrouxar.

O que estava acontecendo comigo?

O calor aumentou, se concentrando na parte baixa do meu abdômen, e com ele veio uma consciência estranha e terrível do meu próprio corpo. Cada nervo parecia cru e supersensível. A palha áspera sob mim se tornou de repente insuportável, o ar úmido perto demais.

Eu me pressionei contra a parede de pedra gelada, mas isso não trouxe alívio. Na verdade, o contraste piorou tudo—o frio contra a minha pele em brasa criando sensações que não deveriam ser boas, mas de algum jeito eram.

Não, pensei, desesperado. Agora não. Aqui não.

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