Capítulo 9
POV da Davelina
O corredor que levava à toca do Rei Lycan se estendia à minha frente como a garganta de uma besta ancestral — estreito, sufocante, descendo rumo a uma escuridão absoluta.
Meus pés descalços estalavam contra a pedra gelada. O véu fino que tinham jogado sobre o meu corpo nu não servia para afastar o frio, muito menos para esconder alguma coisa. Eu sentia cada movimento do tecido contra a minha pele, cada sopro de ar. O óleo que esfregaram em cada centímetro de mim fazia o véu grudar nas minhas curvas, transparente e obsceno.
Dois guardas Lycan enormes me escoltavam, uma de cada lado, suas mãos com garras apertando meus braços com força suficiente para deixar roxos. Não que isso fizesse diferença. Logo, hematomas seriam o menor dos meus problemas.
Natasha.
O pensamento na minha irmã era a única coisa me impedindo de desmoronar.
Eu precisava sobreviver a isso. Por ela.
O corredor se abriu em um espaço mais amplo, e de repente os guardas pararam. Através da névoa do meu terror, eu percebi três figuras enormes bloqueando o caminho à frente — silhuetas recortadas contra a luz das tochas, que projetavam sombras dançantes nas paredes úmidas.
Minha respiração travou na garganta. Mesmo na iluminação fraca, dava para ver que eles eram diferentes dos guardas. Maiores. Mais refinados no porte. O jeito como se mantinham de pé — a autoridade casual em suas posturas — deixava claro que eram algo além de soldados comuns.
Lords, pensei, sentindo o estômago virar. Devem ser os Lordes Lobos de que os outros escravos sussurram.
Um tinha pelagem cinza-prateada e olhos assimétricos que brilhavam à luz das tochas — um vermelho, outro âmbar. Outro tinha pelagem cor de ferrugem e um olhar calculista que passou por mim como se eu fosse mercadoria sendo avaliada. O terceiro parecia mais jovem, com pelagem negra e olhos roxo-escuros que carregavam a fome de um predador.
Eles estavam diante da porta de ferro maciça no fim do corredor. A porta da toca do Rei Lobo.
— Parem. — A voz do mais jovem cortou o silêncio, afiada e autoritária. Ele ergueu uma mão, e meus guardas pararam na mesma hora. — Todos vocês. Deixem-nos a sós.
Os guardas hesitaram, as garras apertando meus braços por um breve instante. Senti um deles lançar um olhar na direção do lorde de pelos prateados, que fez um leve aceno de cabeça. Então eles me soltaram e desapareceram de volta nas sombras, seus passos ecoando pelo corredor.
Fiquei ali, tremendo, sozinha com três das criaturas mais poderosas daquela ilha amaldiçoada — exceto pelo monstro atrás daquela porta.
Minhas pernas queriam ceder.
Mas então outra coisa rompeu o terror. Uma chance. Uma chance desesperada, impossível.
Eu me joguei de joelhos, a pedra machucando minha pele. Minhas mãos avançaram para agarrar a bota do lorde mais jovem, e encostei a testa no couro.
— Por favor — eu arfei, a voz se quebrando. — Por favor, meu lorde, não me mande lá pra dentro. Eu faço qualquer coisa — qualquer coisa. Eu sirvo você, eu obedeço, eu… — As palavras tropeçavam, incoerentes, humilhantes. — Por favor.
O lorde jovem olhou para mim e, por um momento — só um batimento — achei ver algo cintilar em seus olhos escuros. Curiosidade, talvez. Ou diversão.
Então ele se abaixou, a mão com garras avançando para agarrar meu queixo. Forçou minha cabeça para cima, o polegar e os dedos cravando na minha mandíbula enquanto virava meu rosto para a esquerda, depois para a direita, me examinando como se eu fosse gado.
"Olha isso", ele disse, não pra mim, mas pros outros dois lordes. A voz dele carregava uma nota de escárnio amargo. "Escutem ela implorar. Que coisinha tão bonita, não é? Pele perfeita, ossos delicados, esse rosto..." Ele apertou mais forte, e eu gemi, apesar de mim mesma. "E a gente vai jogar ela naquele fosso? Jogar ela pra uma besta sem mente que vai partir ela ao meio em menos de uma hora?"
Ele me soltou com um empurrão de nojo, e eu caí de costas no chão de pedra fria. O véu escorregou, expondo mais do meu corpo coberto de óleo aos olhares deles.
O lorde jovem se levantou, esfregando as mãos como se eu o tivesse contaminado. "Você sabe como é difícil conseguir mercadoria assim agora?" A voz dele subiu, tomada de frustração genuína. "Os humanos estão ficando mais espertos. Minhas equipes de caça voltaram de mãos abanando semana passada. De mãos abanando!" Ele gesticulou na minha direção, o rosto contorcido de raiva. "Meus covis particulares estão ficando sem estoque fresco. E você quer que eu simplesmente... desperdice isso?"
"É necessário, Sebastian." A voz do lorde de cabelos prateados era plana, sem emoção. Ele não tinha se movido do lugar, perto da porta, os olhos de cores diferentes fixos em algum ponto além de mim. "Você sabe o que acontece quando a gente não alimenta ele."
Sebastian. Então era esse o nome do mais jovem.
"Necessário?" Sebastian se virou num estalo pro lorde de cabelos prateados. "O que é necessário é a gente parar de jogar bons recursos num buraco sem fundo!" Ele apontou pra porta de ferro, a mão tremendo de raiva. "Aquilo lá dentro não é mais o Mordred. Não é o Mordred há quinhentos anos. É um parasita, drenando nossa força, consumindo nossos suprimentos. E pra quê? Pra manter viva uma lembrança?"
Eu continuei no chão, imóvel, sem ousar me mexer. Eles falavam de mim como se eu não estivesse ali. Como se eu já estivesse morta.
"Eu cansei disso", Sebastian continuou, a voz abaixando pra algo mais frio, mais perigoso. "A gente mal tá se virando. As minas estão se esgotando, o imposto de sangue dos Lycans inferiores fica mais difícil de coletar a cada ano, e é pra continuar jogando escravas do prazer pra uma besta que nem reconhece o que tá recebendo?" Ele cuspiu no chão. "Chega de garotas. Chega de comida. Deixa ele morrer de fome. Deixa ele definhar até não sobrar nada além de ossos e pelo. Aí, sim, a gente pode finalmente seguir em frente."
"E quantos dos nossos vão morrer quando ele escapar de novo?" A voz do lorde de pelagem cor de ferrugem era controlada, clínica. Ele deu um passo à frente, os olhos cor de âmbar refletindo a luz das tochas. "Você não estava aqui dois meses atrás, Sebastian. Você não viu o que aconteceu quando atrasamos a alimentação dele por três dias."
"Eu sei os números", Sebastian retrucou na hora.
"Então você sabe que perdemos muitos Lycans em vinte e quatro horas." O tom do lorde de cor ferrugem não mudou, mas havia aço por baixo. "Dez deles eram fêmeas. Fêmeas de cria. Você entende o que isso significa pra nossa população, que já tá em declínio?"
Minha mente girava.
"Ele atravessou três camadas de barreiras reforçadas", o lorde continuou. "Massacrou tudo no caminho — guardas, servos, prisioneiros. A gente teve que selar uma ala inteira da fortaleza. O sangue levou semanas pra ser limpo."
Senti a bile subir na garganta.
E eles iam me jogar pra aquela coisa de qualquer jeito.
