Capítulo 3 A curiosidade faz um amigo

BEATRICE

“É mesmo, é?” Riaghaire quase ronronou. Beatrice soube, pelo tom de voz, que ele devia estar com um sorrisinho no rosto.

Por mais engraçada que ela se achasse, era raro outra pessoa pensar o mesmo. “É sim”, ela confirmou com um aceno.

“Agora eu estou... curioso”, ele continuou, com o mesmo tom divertido de antes, “como você conseguiu entrar no território deles e sobreviver?”

Beatrice soltou uma risada. “Entrar sem querer? Eu não tropeço em lugar nenhum, muito obrigada. Eles é que me trouxeram pra cá contra a minha vontade.”

“Ah, é?” O jeito como ele articulou aquela palavra fez Beatrice franzir a testa. Ele falou como se esse tipo de coisa quase nunca acontecesse. Ótimo. Isso significava que o problema era a própria Beatrice, e não algum azar aleatório.

Porra. Ótimo.

“E por que eles fariam isso?” Enquanto falava, ele foi se aproximando da frente da cela, e Beatrice quase conseguia distinguir o rosto dele agora. Olhos brilhantes a observavam das sombras, fazendo o coração dela falhar uma batida antes de ela conseguir desviar o olhar.

“Por que você está tão interessado?” ela retrucou, sem querer que ele fosse o único fazendo perguntas. Se ele queria respostas, ia precisar dar algumas em troca. “Como alguém que mata lobisomens acaba capturado por eles? E por que eles não te mataram, afinal?” Isso devia equilibrar a quantidade de perguntas.

Riaghaire recuou de novo para as sombras, como se as perguntas dela tivessem feito ele perder o interesse na conversa. Pois bem. Ela também não queria ser interessante pra um estranho. “Isso importa?” ele disse depois de um tempo. “Eu estou aqui agora.”

Pela voz dele, Beatrice percebeu que ele já tinha se resignado ao próprio destino fazia muito tempo. Há quanto tempo ele era prisioneiro, pra já ter desistido? Ela devia perguntar, ou era pessoal demais, já que tinham acabado de se conhecer? “Há quanto tempo você está aqui?” É, ela não conseguiu se segurar — e não sentiu arrependimento nenhum. Ela sabia pouco demais sobre o que estava acontecendo. Aquele homem era o único em quem ela podia perguntar, e alguma coisa no instinto dela dizia pra aproveitar a disposição dele em conversar.

“Eu... não sei”, ele murmurou.

Era justo. Beatrice já tinha notado a falta de janelas, o que significava que não havia como acompanhar a passagem do tempo, a não ser pela chegada das refeições — se é que traziam comida. O estado de Riaghaire fazia ela achar que não, mas ele conseguia arrancar a cabeça de lobisomens, então talvez o metabolismo dele fosse diferente do de uma pessoa normal. “Então... tipo... alguns meses? Um ano?”, ela sugeriu, torcendo pra ele pelo menos tomar a iniciativa e chutar alguma coisa.

Uma risada áspera escapou dele. “Alguns meses”, ele repetiu, ainda rindo. Embora a intenção por trás das palavras dela não fosse ser engraçada, não incomodou Beatrice que ele as achasse assim. “Você é divertida... pra uma humana.”

Ah. Maravilha. Ele não era humano. Beatrice não sabia o que sentir com essa informação nova. Na superfície, não mudava nada. Não era como se ele pudesse esticar o braço e arrancar a cabeça dela; e ela não era uma lobisomem, então ele ia se dar ao trabalho? Mas isso levantava a questão do que ele era. E se isso sequer importava.

“Já me disseram isso”, Beatrice assentiu. Não era exatamente mentira. Ela se achava hilária, afinal; o problema era todo mundo ter implicância com o senso de humor dela.

“Eu não sei há quanto tempo sou prisioneiro, só sei que faz... muito tempo.”

Ótimo. Ele deixava pra ela estimar. Não era justo, mas tanto faz. Sem saber o que ele era, ela não tinha como adivinhar. E se ele fosse imortal? Esse tipo de coisa existia? E alguma das espécies supostamente longevas, tipo as fadas? Elas existiam?

“Por que eles te trouxeram pro território deles?”, ele perguntou, interrompendo a linha de raciocínio de Beatrice quando ela já estava descarrilando pra um buraco sem fim.

De volta à realidade, ela soltou um suspiro pesado. “Boa pergunta”, ela concedeu, levando a mão ao ombro pra massagear. Um roxo tinha se formado onde o cara que estava no banco do passageiro tinha apertado; somado à sensibilidade no lugar da injeção, Beatrice estava se sentindo bem surrada.

A verdade era complicada. Ela não tinha certeza de por que aquilo estava acontecendo, mas isso não seria interessante para quem conversava com ela. Ficar presa ali embaixo sem nada para fazer — e sem ninguém disposto a falar com ela — era um pensamento desolador.

Bom, também tinha o fato de que Riaghaire e os lobisomens não eram exatamente amigos. Será que ele ofereceria ajuda se ela abrisse o jogo? A essa altura, qualquer informação sobre o que estava acontecendo já seria bem-vinda. “O inimigo do meu inimigo é meu amigo” veio à mente, e Beatrice decidiu dar um voto de confiança.

— Você não confia num estranho que foi aprisionado por muitos e muitos anos? Talvez muitas décadas? — Riaghaire devia ter ficado impaciente esperando a resposta dela, mas o tom dele soou mais divertido do que irritado.

— E você confiaria? — ela rebateu, com a sensação de que ele queria brincar de gato e rato com as palavras.

Ela o ouviu soltar um humm baixinho, quase... satisfeito com a resposta.

— Humanos não são conhecidos pela... inteligência.

Ele tinha acabado de chamar ela de burra? Beatrice tinha quase certeza de que sim, e ainda assim não se sentiu ofendida. Aquilo vinha de um homem esquálido, vestindo nada além de trapos, que não via a luz do dia havia décadas — pelo menos era o que ele deixava subentendido.

— Você consegue arrancar a cabeça de um lobisomem e espera que eu confie em você sem questionar suas intenções? Que gracinha. Se essas grades não estivessem nos separando, dá pra dizer com sinceridade que você não teria feito o mesmo comigo?

— Eu não tenho problema com humanos — ele garantiu, inclinando levemente a cabeça. — A menos que você me dê um motivo, eu não tenho razão para separar sua cabeça do seu corpo.

— Fica tranquilo; tenho certeza de que eu vou te dar vários — ela resmungou, bem baixinho, enquanto mudava de posição, as pernas dormentes.

— Isso te assusta, não é? Saber que eu poderia acabar com a sua vida com facilidade?

Beatrice parou um instante para pensar na pergunta dele.

— Não assustaria você? Eu nem sabia que lobisomens existiam até hoje à tarde, quanto mais alguém que consegue arrancar a cabeça deles.

Ao olhar para o lado, ela se surpreendeu ao ver que Riaghaire tinha se movido. Agora ele estava quase encostado nas grades, como se quisesse ver melhor a vizinha. Isso permitiu que Beatrice o enxergasse com mais clareza.

O cabelo dele era comprido e tão escuro que se misturava às sombras. Olhos fundos espiavam entre as mechas, cintilando de um jeito que a deixava desconfortável. Encara-los por mais de alguns segundos fazia seu estômago revirar. A pele pálida de Riaghaire estava esticada sobre os ossos, deixando as bochechas encovadas e um pescoço tão fino que uma brisa mais forte poderia parti-lo ao meio. Doentio era a melhor palavra para descrever a aparência dele. À beira da morte. Ainda assim, havia uma sensação de energia vindo dele, principalmente daqueles malditos olhos — os mesmos que encaravam Beatrice como se fossem devorá-la inteira no instante em que surgisse uma oportunidade.

— Você não sabia da existência deles?

Balançando a cabeça, ela manteve o olhar fixo na testa dele. Seria falta de educação não olhar para ele enquanto conversavam, mas ela não conseguia encarar aqueles olhos.

— Vocês... vocês deviam ser histórias. Lendas. Não reais.

— Entendi — ele sussurrou, mais para si mesmo do que para Beatrice. Riaghaire se acomodou de um jeito mais confortável, sem tirar os olhos dela. — Você realmente não sabe nada sobre nós — sobre nenhum de nós.

Em resposta, ela tocou a ponta do nariz com um dedo.

O silêncio caiu entre os dois enquanto ele continuava encarando, um de seus dedos ossudos batucando de leve no queixo, distraído, enquanto pensava em alguma coisa. E havia Beatrice, observando-o e se perguntando que tipo de criatura sobrenatural ele poderia ser.

Ela não era nenhuma estudiosa, nem de longe. Gostava de histórias fantásticas tanto quanto qualquer pessoa, mas os interesses dela nessa área ficavam mais no campo de magos e dragões, não de lobisomens.

Espera. Se lobisomens existiam, isso significava que magos e dragões também poderiam ser reais? E se ela pudesse conhecer um dragão de verdade? Ou uma fênix?

Enquanto a mente dela descia por esse novo buraco de coelho, Riaghaire se inclinou para a frente e disse:

— Eu gostaria de propor um acordo.

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