Capítulo 4 A verdade raramente é gentil
BEATRICE
“Um acordo?” Beatrice repetiu, piscando ao ser puxada de volta pra realidade. “Que tipo de acordo?” E será que ela podia confiar nele? Vai que ele pedisse a alma imortal dela ou alguma coisa desse tipo.
“Uma troca de informações”, explicou Riaghaire. “Você tem perguntas pra mim, assim como eu tenho pra você. Que tal a gente parar com essa dança de palavras e combinar de dar as respostas que nós dois estamos famintos pra ouvir?”
“Como é que você pode confiar que eu vou ser honesta? E se você não for honesto comigo? Como é que eu vou saber?”
Riaghaire soltou uma risada baixa. “Eu não tenho nada a ganhar te dando informação falsa. A mentira até pode oferecer algum... entretenimento, mas não duraria tempo suficiente pra valer o esforço. É do meu próprio interesse falar a verdade, na esperança de que você faça o mesmo. Informação nova não é algo que eu consiga obter no meu... estado atual.”
Pelo visto, os dois iam precisar dar um salto de fé. Beatrice não era boa em confiar nos outros, ainda mais em alguém que ela tinha acabado de conhecer — alguém que gostava de matar lobisomens. Isso fazia dele um serial killer?
“Eu começo”, ele se ofereceu, como se percebesse que ela estava prestes a cair em mais um buraco mental. “Você acredita que eles... ‘ficam peludos’ uma vez por mês, sim?”
“Essa é a crença popular na ficção”, ela deu de ombros. “Eles se transformam na lua cheia.” Beatrice não contou que tinha visto um deles se transformar naquela tarde, porque não achou que fosse relevante. A lua cheia ainda estava a três dias de distância, então fazia sentido que ele tivesse conseguido virar lobo nos dias anteriores. Talvez.
Riaghaire já balançava a cabeça. “Eles conseguem se transformar independentemente da fase da lua.”
“Ah.” Ela sabia que a reação dela a essa informação nova foi meio sem graça, mas como era pra ela responder? “Então por que tudo sobre eles é ligado à lua?”
“Eles seguem os ensinamentos da Deusa da Lua”, ele explicou. “Por isso, eles veneram a lua.”
“E nós, humanos idiotas, confundimos isso com eles entrando no modo peludo na lua cheia”, Beatrice murmurou, franzindo a testa. Era uma droga, mas fazia sentido.
“Entrando no... modo peludo?”
“Não se preocupa com isso”, ela disse, fazendo um gesto com a mão. “Então eles podem se transformar quando quiserem?”
“Correto. Porém, períodos de emoção intensa podem forçá-los a se transformar contra a própria vontade.”
Isso, sim, era bom saber. Ela estava planejando cutucar a onça — ou o lobisomem — pra deixá-los desequilibrados... ou algo assim. Tá, ela só queria ser irritante e fazer eles se arrependerem de ter agarrado ela, mas esse plano já não parecia tão bom quanto antes. Se ela provocasse a pessoa errada do jeito errado, ela viraria um lobisomem e mataria Beatrice assim, do nada?
Sem querer se aprofundar mais nessa linha de pensamento, Beatrice decidiu mudar de assunto. “O que mais você quer saber?”
“Por que eles trouxeram você pra cá?”
Encostando a parte de trás da cabeça na parede, Beatrice soltou um suspiro pesado. “Eu não faço a menor ideia. Eu ouvi algumas coisas que eles disseram, coisas que me deixam encucada, mas não sei se isso tudo significa alguma coisa.”
“Me diga o que você ouviu, e eu talvez saiba se é relevante.” Havia ansiedade na voz rouca dele. Enquanto falava, Riaghaire ergueu a mão e tocou as grades da cela. Um sibilo escapou dele quando puxou a mão de volta e ficou encarando-a por um segundo, antes de deixá-la cair outra vez no colo.
Aquilo foi uma reação estranha, e ela queria perguntar sobre isso, mas não era a vez dela. Em vez disso, Beatrice escolheu recontar os acontecimentos do dia, até o momento em que tinha sido trancada na cela.
“Você só ouviu duas frases que são relevantes”, Riaghaire informou, quando ela terminou de falar. “A primeira foi que você deveria permanecer ilesa, e a segunda é que você é a companheira de alguém. Que interessante...”
“Interessante? Em que sentido, exatamente?”
O vizinho de cela ficou quieto por quase um minuto, e Beatrice começou a ficar impaciente. Ele ia responder? O que significava ela ser a companheira de alguém? E por que eles não queriam machucar ela?
“Talvez você não goste do que eu vou te dizer”, ele disse por fim.
“A verdade raramente é gentil”, Beatrice deu de ombros. “Manda.”
“...mandar... em você...?”
“É uma... deixa pra lá. Só fala.”
— Você é o par de alguém — ele começou, mas ela ergueu a mão para fazê-lo parar.
— O que isso quer dizer, ser o par de alguém? Eu sou tipo… uma marinheira? Uma amiga? Eu deveria conhecer quem está por trás disso?
Uma expressão quase de pena atravessou o rosto de Riaghaire, mas sumiu quase tão rápido quanto apareceu. — Você é o encaixe perfeito de alguém; um parceiro pra vida, se preferir. E quem quer que seja essa pessoa mandou os outros não te machucarem — o que significa que o seu par muito provavelmente é alguém com status.
Beatrice não conseguiu evitar uma risada, com um desconforto revirando o estômago. Ela não queria nada com ser o “encaixe perfeito” de alguém, principalmente sem ter voz nenhuma nisso. O status desse “par” era irrelevante. — Eu não entendo. Eu só… sei lá. Eu sou só uma… pessoa comum; uma mulher humana, ainda por cima. Por que um lobisomem acharia que eu sou o encaixe perfeito dele? Isso é… legal? Ela quis perguntar se aquilo contava como zoofilia, mas decidiu não. Será que ele sequer saberia o que era isso?
— Pelo que eu entendo da espécie deles — começou Riaghaire, com um ar pensativo —, todo lobo recebe um par perfeito. Quando eles se encontram pela primeira vez, um reconhece o outro e o vínculo desperta, aproximando os dois. A maioria dos lobos só entra numa união com o par destinado, e isso os torna incrivelmente fiéis e protetores.
— Ei, ei, ei — Beatrice interrompeu, levantando as duas mãos como se pudesse impedir fisicamente que ele continuasse falando. — Você está me dizendo que lobisomens têm algum jeito de… sei lá, reconhecer a alma gêmea?
— Não… exatamente. — Hesitando, Riaghaire pareceu reconsiderar a explicação. — Existe uma ligação entre o vínculo e a Deusa da Lua. Dizem que os pares são um presente d’Ela, e ignorar ou romper o vínculo é um tabu. Ir contra o vínculo é virar as costas para a própria Deusa da Lua.
— Tá, beleza, mas eu sou humana, lembra? A Deusa da Lua deles, seja lá quem Ela for, não tem nada a ver comigo, então como é que eu fui parar nisso?
Ele ergueu um pouco as mãos, como quem diz “vai saber”. — Talvez o seu deus tenha feito um acordo com a Deusa da Lua, para te dar um lobo como par perfeito.
— Eu entendo o que você está dizendo, mas… eu não acredito em deuses nem nessas coisas — disse Beatrice, com o estômago embrulhando ainda mais. Ela nunca comprou a ideia de religião ou espiritualidade, nem quando era criança. Sempre tinha colocado tudo isso na conta da fantasia. E, ainda assim, ali estava ela, no meio daquele circo, porque alguém que podia virar um lobo foi condicionado a achar que ela era o encaixe perfeito.
— Independentemente do que você acredita, isso não impede que eles existam.
Ela encarou Riaghaire por um longo momento. — Você está me dizendo que deuses são reais?
— Sim.
Beatrice não estava disposta a entrar nesse debate com alguém que ela nem conhecia, então achou melhor largar o assunto. — Tá, tudo bem, mas eu não… reconheci vínculo nenhum que supostamente deveria estar aí.
— Isso me faz supor que é o lobo, não a pessoa, quem reconhece o vínculo e, como você não tem lobo, você não consegue fazer isso.
— Eu tô muito confusa. Você fala como se tivesse duas pessoas envolvidas, sem contar comigo.
— O que eu sei é por observação — alertou Riaghaire. — Mas parece que os lobos são feitos de duas partes: humano e lobo. Eles moram no mesmo recipiente — corpo, se preferir — e dividem o controle, até certo ponto. São indivíduos, mas também um só ser. Eu sempre pensei neles como duas metades que se juntam para ficar completas.
— Tá, ótimo, mas isso não explica como o lobo da outra pessoa me reconheceu como par quando eu não tenho lobo nenhum pra ele reconhecer.
— Isso… eu não sei dizer. Está além do que eu sei sobre o assunto.
— Isso é loucura — ela resmungou, passando as mãos pelo cabelo. — Então, de algum jeito, eu sou o… par de algum lobo — Beatrice fez uma careta ao dizer a palavra —, mesmo sem sentir esse vínculo mágico que supostamente existe. Sem falar que esse vínculo é praticamente sagrado. Tô imaginando que eu dizer “não” não vai ser permitido.
— Correto.
— Legal, legal, legal… legal. Eles vão ter uma bela surpresa quando eu fizer isso mesmo assim.
