Capítulo 7 Lançamento de The Warmth Vampire
BEATRICE
Beatrice não tinha certeza de quanto tempo passou falando sobre o mundo lá fora, respondendo praticamente a qualquer pergunta que Riaghaire fazia sobre quase tudo. Tecnologia era um ponto complicado de vários jeitos; tinha avançado a passos largos ao longo dos anos. Como ela ia explicar um smartphone para alguém que tinha presenciado a invenção da eletricidade — ou era o que ela supunha — e achava que encanamento dentro de casa era um luxo que poucos podiam pagar?
Pelo que ela calculava, o vampiro tinha sido aprisionado em algum momento durante a Segunda Guerra Mundial. Ele sabia da guerra em si, mas não sabia como nem quando ela tinha terminado. Fazendo as contas, isso significava que ele estava ali havia mais de oitenta anos — o equivalente a uma vida inteira para um humano. Beatrice não conseguia nem começar a imaginar como ficar trancado por tanto tempo tinha afetado Riaghaire; se fosse com ela, já teria enlouquecido há muito tempo ou, pior, tirado a própria vida.
E, ainda assim, lá estava ele, aparentemente são e capaz de conversar com ela como se fosse só mais um dia. Ele fazia perguntas pertinentes, tinha sacadas repentinas e achava divertido quando Beatrice tinha dificuldade para explicar os detalhes mais específicos de alguma coisa que nem ela mesma entendia direito.
Depois do que pareceu horas, trouxeram comida lá embaixo. Era o mesmo homem que tinha trazido o rato, mas desta vez ele carregava um sanduíche de presunto e queijo embrulhado em papel-toalha e uma garrafa de água. Não era exatamente alta gastronomia, mas ela não ia reclamar. A única coisa que ela tinha ingerido — se é que dava para chamar assim — tinha sido uma xícara de café que não conseguiu terminar antes de ser agarrada.
Riaghaire deixou que ela comesse em silêncio, mas no instante em que ela terminou ele voltou a fazer mais perguntas. Em algum momento, Beatrice deve ter cochilado, porque se viu despertando de supetão, desorientada até se lembrar dos acontecimentos do dia.
Com um gemido, ela se empurrou até sentar, tendo se encolhido no chão em algum momento, e esticou os braços acima da cabeça. O ar gelado começava a penetrar nos ossos dela, a ponto de ela ficar surpresa por ter conseguido dormir.
— Você sabia que fala enquanto dorme? — a voz áspera de Riaghaire ajudou a espantar o resto do sono dos cantos da mente dela.
— Já me falaram — ela bocejou. — Eu também já dei um soco no meu despertador enquanto dormia. Ele nem estava tocando; eu só dei um soco nele no meio da noite. Foi divertido explicar por que eu tinha me atrasado para o trabalho naquele dia.
Esfregar os braços não adiantou muito para aquecer, então Beatrice desistiu. Ela já tinha se resignado a ficar congelando pelo resto da vida quando ouviu o barulho da porta do porão se abrindo. De novo, vieram passos pesados; depois, o rangido do portão no pé da escada.
Desta vez, era o motorista que parou diante da cela, lançando um olhar duro para Beatrice como se tudo o que havia de errado no mundo fosse, de algum jeito, culpa dela. Ele era um cara até bonito. Cabelo castanho-areia e olhos castanhos-escuros. Um queixo quadrado e um nariz um pouco largo davam a ele um ar meio bruto — não era o tipo que ela costumava curtir, mas tinha gente que gostava daquele visual.
— Bom dia, Tweedledee — ela o cumprimentou, com um sorriso falso o mais aberto que conseguiu. Beatrice tinha cansado de chamá-lo de “o motorista” e decidiu que cada um dos homens responsáveis por seu aprisionamento atual merecia nomes apropriados. Tweedledee e Tweedledum eram o motorista e o passageiro; ela ainda não tinha pensado em nomes para o que mudava de forma ou para o cara que trazia a comida. — A que devo o prazer da sua visita? — Eles logo perceberiam que ela era feita de sarcasmo alegre e comentários maldosos quando ficava encurralada; além de uma tendência a partir para cima — como usar um cinto de segurança para enforcar alguém ou tentar bater o carro deles... ou chutar alguém nas bolas e na cara.
Tweedledee ignorou a pergunta de Beatrice enquanto destrancava a cela dela e fez um gesto para que saísse. Sem ser do tipo que desperdiça uma chance de liberdade, ela tentou se levantar, mas caiu quando as pernas não responderam como deveriam.
Um resmungo debochado veio do homem, que não se mexeu de onde estava, do lado de fora da cela. Ele apenas observou enquanto ela juntava de novo os membros dormentes debaixo do corpo.
Ela ergueu o olhar e lançou um olhar fulminante para o sujeito monstruosamente grande — meio lobo, meio homem, meio sei lá o quê — e disparou:
— Tenta se mexer direito quando você mal sente as pernas, seu babaca.
Cutucar a onça — ou, nesse caso, o lobo — era uma escolha idiota, mas ela simplesmente não conseguia se impedir. Estava irritada, e isso significava que pensar nas consequências das próprias ações não ia acontecer tão cedo.
Uma expressão estranha passou pelo rosto de Tweedledee. Depois de alguns segundos, ele deu um passo para dentro da cela e agarrou o braço dela. O aperto era de ferro; ele ergueu Beatrice até colocá-la de pé e a sustentou enquanto ela recuperava o controle das pernas.
A mão que a apoiava estava quente contra a pele dela. A ideia de se transformar num coala e se agarrar ao corpo dele — para roubar aquele calor lindo, lindo que ele irradiava — passou pela cabeça de Beatrice. Ela podia ser a primeira vampira de calor do mundo, sugando o calor vivo de tudo e de todos.
Alguma coisa dizia a ela que Tweedledee não ia achar isso nem um pouco engraçado, porque ele a encarava de cima com um olhar gelado. Riaghaire, por outro lado, talvez apreciasse a piada. Ela teria que contar depois.
Quando a sensibilidade voltou o suficiente às pernas, Tweedledee soltou o braço dela, e Beatrice começou a lamentar a perda da sua única fonte de calor.
— Anda — ele ordenou, apontando para a escada.
— Pra onde? — Beatrice perguntou, tanto por curiosidade quanto porque dava pra perceber que ele preferia que ela não falasse, quanto mais ficasse fazendo perguntas.
— Cala a boca e anda — ele rosnou. É, ele era mais fácil de entender do que um audiolivro.
— Tá, tá — ela resmungou. Olhou de relance para a cela de Riaghaire, mas ele vinha ignorando-a de propósito desde que os passos de Tweedledee começaram a descer a escada.
Riaghaire tinha recuado para o fundo da cela, como nas outras vezes em que alguém descia até o calabouço, agindo como se ela não existisse até ficarem só os dois de novo. Só então ele se aproximava, retomando a conversa que estavam tendo.
A intuição de Beatrice dizia que era melhor o lobão não saber que ela tinha ficado amiguinha do vampiro residente, e ela estava bem com isso.
Como Riaghaire devia ser solitário, preso ali embaixo sem companhia, dia após dia. Talvez ele estivesse tão desesperado por sangue humano que quisesse ficar o mais perto possível dela, mesmo estando fora de alcance.
Qualquer que fosse a teoria certa, Beatrice continuou pouco se importando. Riaghaire era um vampiro e até admitira que sangue humano era o melhor. Era natural que ele se sentisse atraído pela única coisa que mais desejava e que lhe tinha sido negada por mais de oitenta anos.
— Vira à direita — Tweedledee rosnou quando chegaram ao topo da escada. A porta do porão bateu atrás deles com força, fazendo Beatrice se perguntar que tipo de coisas, além de um vampiro, eles trancavam lá embaixo a ponto de precisarem de uma porta tão reforçada.
Empurrando esse pensamento para o lado para remoer depois, Beatrice fez o que mandaram: girou no próprio eixo e marchou à frente num jeito quase mecânico. Se tivesse que seguir as ordens desse imbecil, ela ia pelo menos se divertir com isso; também ajudava a disfarçar o medo que começara a correr nas veias dela, enquanto o coração martelava no peito.
Depois de mais algumas curvas, eles pararam diante de uma porta, e mandaram que ela parasse. Não havia nada de especial nela; parecia igual a todas as outras por que tinham passado, mas, em vez de abri-la, Tweedledee bateu duas vezes e esperou.
— Entre — ordenou uma voz do outro lado.
