Capítulo 1 EU NÃO ME CURVO PARA NINGUÉM

Larissa narrando

— Gostoso, gostoso… gostoso é você! — cantei, dançando diante do espelho do salão e arrancando gargalhadas das meninas. — Rebola e joga, rebola e joga!

— Meu Deus, Larissa! Você não tem vergonha nessa cara, não? — minha melhor amiga perguntou, quase derrubando o café de tanto rir.

— Vergonha de quê, mulher? De ser feliz? Sai fora! Se eu tivesse vergonha, já tinha nascido muda.

O salão inteiro caiu na gargalhada.

Era assim que a gente começava mais um dia de trabalho: música alta, fofoca, café e uma dose generosa de deboche. Se dependesse de mim, ninguém ali teria tempo para ficar triste. A vida já dava motivos suficientes para chorar, então eu preferia oferecer motivos para rir.

Além disso, eu tinha uma reputação a zelar.

Meu nome era conhecido naquela comunidade, e não tinha sido de um dia para o outro que conquistei meu espaço. Trabalhei muito, estudei, fiz cursos e corri atrás de tudo o que queria. Hoje, eu era especialista em sobrancelhas, principalmente na técnica fio a fio, e tinha orgulho de olhar para o meu estúdio e saber que cada detalhe representava uma parte da minha história.

Não cheguei até aqui esperando que alguém tivesse pena de mim.

Muito menos precisava depender de homem algum.

— Larissa, pelo amor de Deus, abaixa esse som! — minha amiga gritou da recepção. — Tem cliente chegando!

— Cliente que é cliente já chega sabendo que aqui tem música boa e atendimento de milhões!

— Atendimento de milhões, mas juízo de centavos!

Mostrei a língua para ela pelo espelho.

— Invejosa!

Essa era a minha rotina. Entre uma cliente e outra, eu fazia as meninas rirem, escutava os problemas de quem sentava na minha cadeira e tentava resolver os meus fingindo que eles não existiam.

Porque, por mais que eu gostasse de bancar a mulher que não sentia nada, algumas lembranças ainda conseguiam me desmontar.

E a principal delas tinha nome, rosto e um sorriso que eu daria tudo para ver mais uma vez.

Eu já tinha amado de verdade.

Não aquele amor bonitinho que as pessoas contam nas redes sociais, cheio de fotografias combinando e declarações ensaiadas. O meu tinha sido intenso, complicado e, muitas vezes, assustador. Eu e ele éramos duas pessoas que gostavam de viver sem pedir licença, mas que, quando estávamos juntos, encontrávamos uma espécie de paz que eu nunca tinha conhecido antes.

Ele era envolvido com o mundo do crime. Eu sabia disso desde o começo e nunca fui mulher de fingir que não enxergava aquilo que estava bem diante dos meus olhos.

Mesmo assim, quando me apaixonei, me apaixonei por inteiro.

Ele me deu casa, carro, pagou meus estudos e me ajudou a realizar o sonho de abrir meu próprio estúdio. Também me acompanhou em mudanças que eu desejava fazer na minha aparência, inclusive quando decidi colocar silicone. Nunca escondi que gostava de me cuidar, de me arrumar e de me sentir bonita.

Mas seria mentira dizer que foram os presentes que me fizeram amá-lo.

O que me conquistou foram as pequenas coisas.

O jeito como ele percebia quando eu estava triste, mesmo que eu jurasse estar bem. As mensagens no meio do dia. As brincadeiras sem sentido. As discussões que terminavam em risadas. A maneira como ele me olhava quando achava que eu não estava prestando atenção.

Com ele, eu podia ser atrevida, implicante, carinhosa e até insuportável.

Ele conhecia todos os meus lados e, ainda assim, escolhia ficar.

Por muito tempo, acreditei que continuaríamos assim. Eu e ele, enfrentando o mundo do nosso jeito, sem pressa para construir uma vida que ninguém mais precisaria entender.

Até o dia em que tudo acabou.

Houve um confronto. Uma confusão que saiu do controle, e ele não voltou para casa.

Desde então, quase dois anos tinham se passado.

Dois anos desde a última vez que ouvi sua voz. Desde a última discussão boba. Desde que descobri que uma pessoa podia deixar tanta coisa para trás e, ainda assim, levar consigo a parte mais importante da nossa vida.

Ele tinha me deixado financeiramente confortável. Não posso negar. Tudo aquilo pelo que trabalhamos continuava ali: minha casa, meu carro e meu estúdio. Eu tinha condições de viver sem depender de ninguém.

Mas nenhuma dessas coisas me abraçava quando a saudade apertava.

Nenhuma delas me perguntava como tinha sido meu dia.

E nenhuma delas era capaz de substituir o homem que eu amava.

Às vezes, eu me perguntava se trocaria tudo o que conquistei para tê-lo de volta por mais um dia.

A resposta vinha depressa demais.

Trocaria.

Sem pensar duas vezes.

Só que a vida não aceitava esse tipo de negociação. E eu precisava continuar vivendo, mesmo que uma parte de mim tivesse ficado presa naquele dia.

Depois que ele se foi, não me envolvi seriamente com mais ninguém. Não porque tivesse feito uma promessa ou decidido passar o resto da vida sozinha, mas porque ainda não tinha encontrado alguém que me despertasse vontade de tentar novamente.

Eu saía, dançava, ria, conhecia pessoas e aproveitava a minha liberdade. Não me escondia dentro de casa nem permitia que a tristeza decidisse tudo por mim.

Se eu queria uma roupa nova, comprava quando podia. Se queria sair com as meninas, organizava meu horário e ia. Se alguém tentava me diminuir, recebia uma resposta à altura.

Eu me bancava, tomava minhas próprias decisões e não aceitava que ninguém se sentisse dono de mim.

Aprendi da maneira mais dolorosa que a vida podia mudar de repente. Por isso, enquanto tivesse oportunidade, viveria do meu jeito.

— Larissa?

A voz da minha amiga me trouxe de volta ao presente.

Pisquei algumas vezes e percebi que estava parada, segurando a pinça sobre a bancada, enquanto ela me observava com uma expressão desconfiada.

— Que foi, mulher?

— Você viajou de novo.

— Estava pensando na próxima coleção de roupas que vou comprar.

Ela estreitou os olhos.

— Sei. E eu sou herdeira de uma fortuna escondida.

— Se fosse, já tinha me emprestado dinheiro!

Ela riu, mas não insistiu. Minha melhor amiga me conhecia havia cinco anos e sabia reconhecer quando eu queria conversar e quando preferia guardar as coisas para mim.

Ela era minha irmã de vida, minha parceira de confusões e a pessoa que podia me chamar de insuportável sem correr o risco de perder os dentes.

Bom, dependendo do dia.

— Cadê a Lelé? — perguntei, olhando para a porta.

— Está chegando. Mandou mensagem dizendo que precisou resolver uma coisa em casa.

Lelé era a caçula do nosso trio, embora tivesse personalidade suficiente para discutir com nós duas e ainda sair convencida de que estava certa.

Ela era filha do dono do morro, mas nunca deixou que isso definisse toda a sua identidade. Trabalhava conosco, atendia as próprias clientes e gostava de ter um espaço onde pudesse ser apenas ela mesma, sem precisar carregar o peso do sobrenome da família.

Eu gostava daquela menina como se fosse minha irmã mais nova.

Talvez porque ela despertasse em mim um instinto de proteção que eu nem sabia que ainda tinha. Talvez porque, depois de tantas perdas, eu tivesse aprendido a valorizar quem permanecia ao meu lado.

Só havia um pequeno problema: a mãe dela não parecia compartilhar da minha opinião.

Na cabeça daquela mulher, eu só me aproximava de Lelé porque queria encontrar uma maneira de chegar ao pai dela.

Sinceramente?

Aquilo me tirava do sério.

Eu podia ter muitos defeitos. Era debochada, respondona, impaciente e tinha uma facilidade enorme para arrumar discussão quando alguém ultrapassava meus limites. Mas interesseira não era um deles.

Eu trabalhava para conquistar minhas coisas. Não precisava me aproximar de homem nenhum para pagar minhas contas.

Muito menos precisava usar a amizade de uma menina para conseguir atenção de alguém.

Se a mãe de Lelé não conseguia enxergar isso, o problema era dela.

— Lá vem você com essa cara — minha amiga comentou.

— Que cara?

— A cara de quem está prestes a comprar uma briga.

— Eu? Imagina! Sou uma mulher tranquila, equilibrada e dona de uma paz interior invejável.

Ela começou a rir antes mesmo de eu terminar.

— Você não presta!

— E você me ama assim mesmo.

— Infelizmente.

Voltei a organizar meus materiais, tentando não rir também.

Naquele momento, a porta do salão se abriu, e Lelé entrou apressada, com a bolsa pendurada no ombro e os cabelos balançando enquanto caminhava.

— Bom dia, minhas mulheres favoritas!

— Bom dia, princesa! — respondi, abrindo os braços.

Ela veio até mim e me abraçou apertado.

— Estava com saudade!

— A gente se viu ontem, menina!

— E daí? Tenho direito de sentir saudade das minhas amigas!

Beijei sua testa e apertei suas bochechas.

— Minha bebê está carente hoje?

— Larissa, para! — reclamou, tentando escapar. — Você vai estragar minha maquiagem!

— Então a maquiagem está em segundo lugar. O amor vem primeiro!

— Você é muito besta!

— E você me ama.

— Infelizmente — ela respondeu, repetindo as palavras da minha amiga.

Olhei para as duas, indignada.

— Vocês combinaram isso? Estão formando uma associação contra mim?

As gargalhadas tomaram conta do salão mais uma vez.

Por alguns minutos, esqueci a saudade, os pensamentos que me perseguiam e as lembranças que insistiam em aparecer quando eu menos esperava.

Ali, cercada pelas minhas meninas, eu conseguia respirar com mais leveza.

Era por isso que eu continuava trabalhando, sorrindo e fazendo planos. Porque, apesar de tudo o que havia perdido, ainda existiam pessoas que tornavam meus dias melhores.

E eu não pretendia abrir mão delas.

Mal sabia eu que aquela tranquilidade estava prestes a ser colocada à prova.

Havia coisas que eu acreditava ter deixado para trás. Sentimentos que julgava adormecidos. E situações que poderiam mudar completamente a maneira como eu enxergava meu próprio futuro.

Mas, se a vida tinha aprendido alguma coisa comigo, era que Larissa não costumava abaixar a cabeça.

Eu podia chorar escondida, sentir saudade até perder o sono e carregar feridas que ninguém conhecia.

Ainda assim, quando chegava a hora de enfrentar o mundo, eu erguia o queixo, ajeitava o cabelo e seguia em frente.

Porque eu era assim.

Uma mulher cheia de defeitos, histórias e cicatrizes.

Uma mulher que já tinha amado, perdido e aprendido a sobreviver.

E que, mesmo sem perceber, ainda tinha muita coisa para viver.

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