Capítulo 10 EM SINTONIA
Crack Narrando
Fui passar o Natal com a minha filha, mas, se eu fosse falar a verdade, minha intenção também era ficar perto da amiga dela.
A loira estava mexendo comigo de um jeito que eu não sabia explicar. Eu, que nunca tive dificuldade para chegar em mulher nenhuma, estava me pegando pensando em Larissa mais vezes do que deveria. E o pior era que ela parecia gostar de me deixar curioso, mesmo quando fingia que não estava nem aí para mim.
Quando elogiei aquela mulher na porta, vi o efeito das minhas palavras. Larissa ficou vermelha, e um arrepio percorreu seu corpo. Tentei disfarçar o sorriso, mas, por dentro, estava comemorando.
Essa mulher ainda vai acabar comigo.
Entrei na casa e comecei a reparar nos detalhes. A decoração estava linda, tudo organizado, a mesa arrumada com um capricho que dava gosto de ver. Havia enfeites natalinos espalhados pelo ambiente, luzes delicadas e aquele cheiro maravilhoso de comida que fazia qualquer um esquecer os problemas por alguns minutos.
Larissa tinha bom gosto. Isso eu já estava começando a perceber em tudo que fazia.
— Ficou bonito aqui, hein, loira? — comentei, observando a decoração.
Ela sorriu, ajeitando um dos enfeites sobre a mesa.
— Obrigada! Eu gosto de deixar tudo arrumadinho. Natal tem que ter um carinho especial.
— Percebi. Você é caprichosa.
— E você é observador demais, sabia?
— Quando vale a pena, eu presto atenção.
Ela parou por um instante e me olhou de lado.
Foi rápido, mas suficiente para eu perceber que minha resposta tinha acertado em cheio.
Larissa desviou o olhar, fingindo que precisava ajeitar os pratos. Eu apenas sorri, satisfeito com a pequena vitória.
Quando chegou a hora de comer, a loira pediu que todos se aproximassem. Imaginei que ela fosse fazer algum comentário engraçado, talvez mandar Cauã parar de falar por cinco segundos, mas Larissa juntou as mãos e começou uma oração.
E, porra, eu não esperava aquilo.
A voz dela ficou suave, diferente daquele jeito debochado que eu já conhecia. Agradeceu pela comida, pela presença de cada pessoa naquela casa e pediu proteção para quem amava. Também falou sobre as pessoas que já não estavam entre nós, mas continuavam vivas nas lembranças e no coração.
Naquele momento, senti um arrepio atravessar meu corpo.
Não era só a beleza dela. Era a maneira como falava, como parecia colocar sentimento em cada palavra. Larissa carregava suas próprias dores, eu sabia disso, mas ainda encontrava espaço para agradecer e desejar coisas boas aos outros.
Quando terminou, abri os olhos e encontrei os dela por um breve instante.
— Amém — falei, com sinceridade.
Cauã também respondeu, e Letícia abraçou a amiga de lado antes de começar a falar sobre a comida. A bagunça voltou rapidamente, principalmente quando meu amigo gay favorito daquela casa decidiu que precisava experimentar tudo antes que alguém comesse sua parte.
— Gente, eu só quero deixar registrado que, se essa comida estiver tão maravilhosa quanto o cheiro, vou sair daqui carregado! — anunciou Cauã.
— Você já vai sair carregado de tanto comer, criatura! — Larissa rebateu.
Eu comecei a rir.
Aquela casa tinha uma energia diferente. Não era o tipo de Natal ao qual eu estava acostumado, mas estava gostando mais do que imaginava.
E ainda tinha a melhor parte: passar algumas horas perto da loira.
Os presentes
Depois da ceia, chegou a hora de entregar os presentes. Eu tinha preparado tudo com antecedência, principalmente o da minha filha.
Chamei Letícia e entreguei uma caixa com os documentos.
— Abre aí, filha.
Ela me olhou desconfiada.
— Pai, se for mais um celular, eu juro que vou jogar na sua cabeça.
— Abre logo, garota!
Larissa e Cauã começaram a rir enquanto minha filha levantava a tampa. No instante seguinte, Letícia ficou em silêncio.
Ela tirou os documentos da caixa, leu uma vez, depois outra. Seus olhos foram se arregalando até que ela levantou a cabeça para me encarar.
— Pai… não acredito!
— Acredita, sim. É uma casa e um carro, filha.
— O QUÊ?!
A gritaria que veio depois quase derrubou os enfeites da sala.
Letícia pulou no meu pescoço, me abraçando com tanta força que quase me fez perder o equilíbrio.
— PAI! VOCÊ É MALUCO! UMA CASA? UM CARRO?
— Abaixa a voz, menina! Quer anunciar para o mundo inteiro?
— EU NÃO CONSIGO!
Eu ri, abraçando minha filha.
— A casa é sua. O carro também. Não estou dizendo que você precisa sair de casa amanhã, muito menos que precisa se virar sozinha antes de estar pronta. Quando se sentir segura e quiser ter seu próprio cantinho, ele estará esperando por você.
Os olhos dela se encheram de lágrimas.
— Você pensou em tudo…
— Claro que pensei. Você é minha filha. Quero que tenha suas escolhas, sua independência e um lugar onde se sinta bem. E, enquanto precisar de mim, sabe que pode contar comigo.
Letícia me apertou novamente.
— Eu te amo, pai!
— Também te amo, minha princesa.
Larissa observava a cena com um sorriso emocionado. Quando nossos olhares se encontraram, ela fez um gesto discreto com a cabeça, como se aprovasse minha atitude.
Aquele olhar valeu mais do que eu gostaria de admitir.
Depois chegou a vez de Cauã.
Eu tinha ficado pensando no que dar para aquele homem. Não sabia muito sobre seus gostos, além do fato de que ele falava pelos cotovelos e parecia capaz de transformar qualquer situação em um espetáculo.
Por isso, resolvi facilitar.
Entreguei um envelope.
— Toma, Cauã. Feliz Natal.
Ele abriu, olhou o conteúdo e arregalou os olhos.
— GENTE!
— Lá vem… — Larissa murmurou, cobrindo o rosto com a mão.
— CINCO MIL REAIS?!
— É um presente, homem. Não precisa anunciar o valor para a vizinhança inteira.
Cauã soltou um grito, correu na minha direção e praticamente pulou no meu colo.
— MEU DEUS, CRACK! EU TE AMO! VOCÊ É O HOMEM DA MINHA VIDA!
— Sai de cima de mim, desgraça! — reclamei, tentando me livrar dele enquanto ria.
— NÃO! VOCÊ ACABOU DE ENTRAR PARA A HISTÓRIA DA MINHA FAMÍLIA!
Letícia estava dobrada de tanto rir, enquanto Larissa tentava manter uma expressão séria sem sucesso.
— Cauã, pelo amor de Deus, desce daí! — ela pediu.
— Me deixa, Lari! Hoje eu sou um homem rico e mimado!
— Rico você não ficou, querido. Mas mimado, pelo visto, sempre foi.
A gargalhada que tomou conta da sala foi inevitável.
Eu já estava começando a me arrepender de ter dado dinheiro àquele maluco. Não pelo valor, mas porque agora ele provavelmente nunca mais me deixaria em paz.
Por último, peguei uma pequena caixa que tinha separado para Larissa.
No morro, havia um homem que trabalhava muito bem com joias. Eu tinha encomendado um presente para a loira sem saber exatamente como ela reagiria.
Estendi a caixa para ela.
— Esse é seu.
Larissa franziu a testa, surpresa.
— Para mim?
— Não, para a parede. Claro que é para você, loira.
Ela revirou os olhos, mas sorriu antes de abrir.
Dentro havia uma joia delicada, escolhida pensando nela. Não era exagerada, mas tinha uma beleza que combinava com seu jeito elegante.
Larissa passou os dedos pelo presente, visivelmente tocada.
— Crack… é lindo!
— Gostou?
— Muito! Obrigada.
Ela se aproximou e me deu um abraço. Foi breve, mas senti o perfume dela e, por um instante, esqueci completamente o que pretendia dizer.
Aquele abraço tinha sido curto demais para o meu gosto.
Quando se afastou, Larissa colocou a joia no pescoço. Ficou ainda mais bonita usando o presente, embora eu já estivesse convencido de que aquela mulher conseguiria ficar maravilhosa até usando uma camiseta velha.
Só que eu não esperava o que aconteceu em seguida.
Ela foi até um canto da sala, pegou uma pequena embalagem e voltou na minha direção.
— Agora é a minha vez.
Olhei para ela, surpreso.
— Você comprou presente para mim?
— Abre, curioso.
Peguei a caixa e encontrei outra joia. Era bonita, discreta e tinha um estilo que combinava comigo.
Fiquei olhando para o presente por alguns segundos antes de levantar os olhos para ela.
— Caralho, loira. Você acertou em cheio.
— Ainda bem! Fiquei com medo de escolher alguma coisa que você não gostasse.
— Gostei pra caralho.
Coloquei a joia no pescoço na mesma hora.
Não tirei mais.
Letícia, que tinha olhos até na nuca quando o assunto era a vida alheia, percebeu tudo.
— Ah, não! — ela exclamou, apontando para nós dois. — Isso é muita sintonia!
Larissa arregalou os olhos.
— Letícia!
— Ué, qual é o problema? Meu pai te dá uma joia, você dá outra para ele, e os dois já estão usando os presentes! Isso tem nome!
— Tem, sim — Cauã concordou, balançando a cabeça com uma expressão séria que não combinava em nada com ele. — O nome é Natal, querida. Uma época de milagres, amor e gente que não consegue disfarçar o interesse.
— Vocês dois estão insuportáveis! — Larissa reclamou.
— E você está vermelha! — Letícia devolveu.
Eu estava rindo tanto que comecei a sentir a barriga doer.
Aquela menina não perdia uma oportunidade de me provocar. E o pior era que, dessa vez, eu não tinha nem como me defender.
Porque, no fundo, ela não estava completamente errada.
Eu estava interessado na amiga dela.
Muito mais do que pretendia admitir naquela noite.
A despedida dos nossos convidados
Os presentes de Letícia e Cauã renderam assunto pelo resto da noite. Minha filha não parava de falar da casa, imaginando como iria decorar cada cômodo, enquanto Cauã já planejava o que faria com o dinheiro.
— Aí, querida, eu estou nojenta com os meus presentes! — ele declarou, segurando o envelope contra o peito. — Nunca fui tão mimada na minha vida!
— Você está parecendo criança que ganhou brinquedo novo — Larissa comentou.
— E você está parecendo uma mulher apaixonada que ganhou presente do crush!
— Cauã!
— O quê? Eu só estou observando a natureza!
Letícia quase caiu do sofá de tanto rir.
Eu, por outro lado, já estava bêbado o suficiente para achar qualquer bobagem engraçada. Não era comum eu perder a linha daquele jeito, mas aquela noite estava sendo diferente.
Talvez fosse a bebida. Talvez fosse a companhia.
Ou talvez fosse a loira, que continuava andando pela casa com aquela joia no pescoço e um sorriso que me deixava cada vez mais interessado.
Mais tarde, Letícia e Cauã resolveram ir ao baile.
Larissa avisou que ficaria em casa, porque estava cansada e queria descansar depois de organizar tudo. Eu também não estava com vontade de sair correndo para lugar nenhum. Ajudaria com as louças e depois iria embora.
Pelo menos era o que eu dizia a mim mesmo.
Quando comecei a recolher os pratos, Larissa me olhou surpresa.
— Você vai mesmo me ajudar?
— Ué, por que não? Você cozinhou, organizou a casa e ainda recebeu esse bando de gente. Não vou deixar tudo para você.
Ela sorriu de um jeito que fez meu peito apertar.
— Obrigada.
— Para de agradecer por tudo, loira. Eu estou aqui porque quero.
A frase saiu antes que eu pudesse pensar melhor.
Larissa ficou quieta por um instante, e eu também. Aquele silêncio tinha alguma coisa diferente, uma expectativa que nenhum dos dois parecia disposto a nomear.
Foi Letícia quem apareceu na porta e acabou com o momento.
— Estou indo para o baile! — anunciou, pegando a bolsa. — Aproveitem a casa! Fui!
— LETÍCIA! — Larissa gritou, indignada.
Cauã surgiu logo atrás da minha filha, gargalhando.
— Eu também concordo! Aproveitem bastante essa casa, meus amores!
— Vocês dois vão embora antes que eu mude de ideia sobre os presentes! — ameacei, apontando para a porta.
— Tchau, sogrão! — Cauã gritou, saindo às pressas.
— Cauã, eu vou te pegar! — Letícia avisou, puxando o amigo pelo braço.
A porta se fechou atrás deles, mas ainda consegui ouvir as gargalhadas no corredor.
Fiquei olhando para a entrada por alguns segundos, balançando a cabeça.
— Sua filha é terrível, loira.
Larissa cruzou os braços, fingindo indignação.
— Minha filha? Você não viu o Cauã!
— Os dois juntos são uma ameaça à paz mundial.
Ela riu e voltou para a cozinha.
Eu a acompanhei, recolhendo os últimos pratos. Trabalhamos lado a lado, conversando sobre coisas simples, até que terminamos de organizar quase tudo.
Quando Larissa se virou para mim, estávamos próximos o bastante para eu notar o brilho discreto da joia em seu pescoço.
Ela percebeu meu olhar.
— Gostou mesmo do presente?
Toquei a peça com os dedos.
— Gostei. Vou usar direto.
— Não precisa exagerar só porque fui eu que escolhi.
— Não estou exagerando.
Ela sorriu, baixando os olhos por um instante.
E foi aí que eu decidi provocar.
— Mas sua filha tem razão em uma coisa.
Larissa ergueu o rosto.
— Em quê?
Dei um passo discreto na direção dela, sem invadir seu espaço.
— Acho que a gente está em sintonia.
A loira mordeu o canto do lábio, tentando segurar o sorriso.
— É mesmo, Crack?
— É.
Ela sustentou meu olhar por alguns segundos. Depois, com aquele jeito atrevido que eu estava começando a adorar, inclinou ligeiramente a cabeça e respondeu:
— E como deveríamos aproveitar essa sintonia?
Porra.
Eu tinha imaginado várias respostas para aquela noite, mas nenhuma delas chegou perto da que saiu da boca de Larissa.
Meu sorriso apareceu devagar.
— Acho que a gente pode começar conversando, loira.
Ela soltou uma risada baixinha.
— Só conversando?
— Por enquanto.
Larissa balançou a cabeça, divertida, e me deu as costas para guardar o último copo.
Mas, antes de se afastar, olhou por cima do ombro.
— Então espero que você tenha bons assuntos, Crack.
Fiquei parado, observando aquela mulher que parecia ter prazer em me desafiar.
Eu tinha ido passar o Natal com minha filha.
Só que, pelo visto, meu melhor presente daquela noite tinha sido ficar para trás quando todo mundo foi embora.
E, pela primeira vez em muito tempo, eu não estava com a menor pressa de sair de lugar nenhum.
