Capítulo 2 SÓ QUERO A MINHA PAZ
Larissa narrando
Hoje eu trabalhei igual a uma condenada! Meu Deus do céu, desde as seis da manhã dentro daquele salão, e agora já eram três da tarde. Eu tinha atendido tanta gente que, se alguém me perguntasse meu próprio nome, existia uma grande possibilidade de eu responder o nome de alguma cliente.
E o pior de tudo?
Eu ainda nem tinha conseguido almoçar!
— Senhor, eu sei que sou bonita, maravilhosa e uma profissional de milhões, mas será que dá para mandar um prato de comida cair do céu? — reclamei, guardando os materiais que tinha acabado de usar.
Letícia, que estava organizando a recepção, soltou uma gargalhada.
— Você não existe, Larissa!
— Existe, sim, meu amor. E está morrendo de fome!
A verdade era que eu não podia reclamar. O salão estava indo muito bem, as clientes não paravam de chegar e meu trabalho finalmente me proporcionava a tranquilidade financeira que eu tanto desejava. Depois de tudo o que tinha enfrentado, conseguir manter meu próprio negócio era uma vitória que eu fazia questão de comemorar.
Só que até mulher independente precisava comer, né?
E eu já estava começando a enxergar as paredes do salão como se fossem um cardápio.
— Vamos fechar agora e voltamos às cinco — avisei, conferindo os horários das próximas clientes. — Vou aproveitar essas duas horinhas para fazer meu bronze. Final de ano é uma loucura! Se eu deixar para depois, não consigo nem marcar horário.
— Você pensa em bronze até quando está trabalhando! — Letícia provocou.
— Claro! A mulher precisa cuidar do patrimônio.
— Patrimônio? Você é muito convencida!
— Não é convencimento, amiga. É autoestima bem trabalhada!
Peguei minha bolsa, conferi se estava tudo certo e me preparei para sair. Letícia veio comigo, mas havia alguma coisa diferente nela naquele dia. Desde cedo, eu tinha percebido que estava mais quieta, sem aquele entusiasmo que costumava demonstrar quando chegava ao salão.
Minha amiga podia até tentar disfarçar, mas eu a conhecia bem demais.
— Falando sério agora, amiga. O que está acontecendo com você?
Ela soltou um suspiro demorado.
— Ai, amiga, eu estou tão desanimada.
Parei de mexer na bolsa e olhei para ela.
— Eu percebi. Você passou a manhã inteira com essa carinha de quem perdeu o último pedaço de pizza. Quer conversar?
Letícia hesitou por alguns segundos, como se estivesse decidindo se deveria colocar tudo para fora.
— É a minha mãe. Ela fica arrumando briga por qualquer coisa, implica com todo mundo, principalmente com meu pai. Eles não estão juntos há anos, você sabe disso, né? Só que ela continua trazendo os problemas deles para dentro de casa, e eu acabo ficando no meio. Parece que nada do que eu faço é suficiente. Isso tudo me suga, Larissa. Tem dias em que eu só quero ficar longe de todo mundo.
Meu sorriso diminuiu.
Eu sabia que a relação entre os pais dela era complicada. Mesmo separados, eles pareciam presos a uma disputa que nunca chegava ao fim. E, infelizmente, quem acabava sofrendo com aquilo era a filha.
Abracei Letícia pelos ombros enquanto caminhávamos.
— Amiga, escuta uma coisa. Você não tem obrigação de resolver os problemas dos seus pais.
— Mas eu fico mal quando vejo tudo isso acontecendo.
— Eu sei. Você ama os dois, e é justamente por isso que acaba se sentindo responsável por uma situação que não foi você quem criou. Só que uma coisa não tem nada a ver com a outra. Eles são adultos, fizeram as próprias escolhas e precisam aprender a lidar com as consequências delas.
Ela abaixou os olhos.
— Às vezes, parece que minha mãe quer que eu escolha um lado.
— E você não precisa escolher lado nenhum. Você pode amar sua mãe e amar seu pai sem precisar concordar com tudo o que eles fazem. Uma coisa é ser filha; outra é virar juíza de relacionamento alheio.
Letícia soltou uma risadinha discreta.
— Você fala como se fosse fácil.
— Fácil não é, minha filha. Se fosse, eu cobrava por consulta e já estava rica! Mas você precisa colocar limites. Quando começarem as discussões, tente não entrar no meio. Se perceber que a conversa está ficando pesada, saia de perto. Você pode dizer que ama sua mãe, mas que não quer participar de brigas que não são suas.
— E se ela ficar chateada comigo?
— Ela pode ficar chateada. Isso não significa que você esteja errada. Você também tem sentimentos, também se cansa e também merece ter paz dentro da própria casa.
Ela ficou em silêncio, absorvendo minhas palavras.
Continuei caminhando ao lado dela, sem pressioná-la a responder. Às vezes, a gente queria tanto encontrar uma solução para os problemas de quem amava que esquecia que, em determinados momentos, tudo o que a pessoa precisava era de alguém disposto a escutar.
Eu não tinha uma família perfeita nem uma vida livre de complicações. Sabia muito bem como era carregar coisas que não conseguia resolver sozinha.
— Obrigada, amiga — ela murmurou depois de algum tempo. — Eu precisava conversar com alguém.
— Sempre que precisar, pode falar comigo. Só não venha me pedir dinheiro emprestado antes do almoço, porque hoje eu estou emocionalmente abalada pela fome.
Letícia caiu na gargalhada.
— Você consegue estragar qualquer momento sentimental!
— É um dom, amor. Nasci para isso.
Seguimos conversando até chegarmos ao local onde eu faria meu bronze. A moça que me atendia já conhecia minhas preferências, sabia o modelo que eu gostava e não precisava nem perguntar muito.
— Larissa, até que enfim! — ela brincou quando me viu. — Pensei que você fosse cancelar.
— Mulher, eu estava trabalhando desde as seis! Quase precisei mandar um pedido de socorro pelo grupo das clientes.
— Mas veio, né?
— Vim, porque a beleza não se mantém sozinha!
Letícia revirou os olhos.
— Lá vem ela de novo!
Enquanto eu me preparava para a sessão, continuamos conversando. Ela me contou algumas situações que tinham acontecido em casa, e eu tentei ajudá-la a pensar em maneiras de se proteger emocionalmente sem precisar romper os laços com a família.
Quando chegou minha vez, aproveitei aquele momento para relaxar. Depois de uma manhã inteira trabalhando, eu merecia pelo menos alguns minutos sem ouvir o telefone tocar.
Ao terminar, conferi o resultado e sorri satisfeita.
Marquinha em dia, autoestima renovada e fome voltando com força total.
— Agora, sim! — anunciei.
— Você é impossível — Letícia respondeu, balançando a cabeça.
— Sou maravilhosa. Existe uma diferença.
Deixei minha amiga em casa e segui para a minha. Tomei um banho demorado, coloquei uma roupa confortável e finalmente fui comer. Não queria nem saber de dieta naquele momento. Meu estômago estava fazendo mais barulho que o som do salão.
Depois de comer, descansei um pouco e me arrumei para voltar ao trabalho.
Ainda tínhamos uma tarde inteira pela frente, e eu precisava aproveitar cada oportunidade para fazer meu negócio crescer.
Quando saí novamente, o movimento nas ruas já estava aumentando. Era aquela agitação de sempre, com pessoas conversando nas calçadas, motos passando e os estabelecimentos começando a ficar cheios.
Foi quando passei em frente ao bar.
O lugar estava movimentado, com vários homens reunidos, conversando e rindo. Diminui um pouco o passo ao reconhecer alguns rostos conhecidos.
E então meus olhos encontraram o pai de Lelé.
Ah, meu Deus!
Eu podia ter todos os defeitos do mundo, mas era capaz de reconhecer um homem bonito quando via um.
O homem era um espetáculo.
Alto, presença marcante, postura confiante e aquele tipo de olhar que parecia perceber muito mais do que demonstrava. Não precisava fazer esforço para chamar atenção. Bastava estar ali.
E eu não era cega.
— Misericórdia, Senhor! — murmurei baixinho, continuando a caminhar. — O senhor caprichou nessa criatura, hein?
Balancei a cabeça, tentando afastar o pensamento.
Era o pai da minha amiga.
E, por mais bonito que fosse, eu não estava procurando complicações para a minha vida.
Já tinha vivido um amor intenso, conhecia o preço de me entregar a alguém e sabia que ainda carregava lembranças que não desapareceriam de uma hora para outra. Não precisava transformar cada homem bonito que cruzasse meu caminho em uma possibilidade.
Além disso, eu gostava da minha liberdade.
Gostava de chegar em casa quando queria, trabalhar pelos meus objetivos e não precisar dar satisfação da minha vida para ninguém.
Se algum dia eu voltasse a me apaixonar, queria que fosse porque tinha encontrado alguém que valesse a pena, não porque estava procurando preencher um vazio.
Continuei andando, mas, antes de chegar ao salão, percebi que havia um grupo de mulheres reunidas na calçada, bem em frente ao estabelecimento.
As famosas fofoqueiras de plantão.
Meu Deus, protegei-me!
Aquelas mulheres pareciam ter um radar para a vida alheia. Bastava alguém mudar o cabelo, comprar um carro ou aparecer com uma roupa diferente para que surgisse uma reunião extraordinária, com direito a análises, teorias e conclusões que nem a própria pessoa conhecia.
E eu sabia que meu nome também já tinha passado por aquelas conversas.
Na verdade, provavelmente tinha sido assunto de mais de uma reunião.
Afinal, eu era independente, cuidava da minha aparência, tinha meu próprio negócio e não vivia correndo atrás de homem. Para algumas pessoas, isso já era motivo suficiente para inventarem histórias.
Mas eu não tinha energia para ficar tentando agradar a todo mundo.
Quem quisesse falar, que falasse.
Enquanto umas perdiam tempo cuidando da minha vida, eu estava ocupada construindo a minha.
Passei pelas mulheres com um sorriso educado.
— Boa tarde, meninas!
Algumas responderam. Outras me olharam daquele jeito que eu conhecia muito bem, como se estivessem tentando descobrir alguma novidade na minha expressão.
Continuei andando sem dar importância.
Eu tinha contas para pagar, clientes para atender, sonhos para realizar e uma vida inteira pela frente.
Meu objetivo nunca foi ser a mulher mais comentada da região. Eu queria conquistar minhas coisas, ver meu estúdio crescer, ter saúde, tranquilidade e pessoas verdadeiras ao meu lado.
Queria poder deitar a cabeça no travesseiro sem precisar me preocupar com a opinião de quem não conhecia nem metade da minha história.
E, principalmente, queria continuar sendo dona de mim.
Quando entrei no salão, deixei a bolsa na recepção e respirei fundo.
— Pronto! Vamos trabalhar, porque ficar rica não é brincadeira!
Letícia ainda não tinha voltado, então organizei a bancada, conferi os horários e me preparei para receber as próximas clientes.
Eu não fazia ideia de que aquele encontro rápido, em frente ao bar, poderia acabar se tornando uma lembrança importante.
Naquele momento, o pai de Lelé era apenas um homem bonito que eu tinha visto de passagem.
Nada mais.
Eu não sabia o que ele pensava de mim, se sequer tinha reparado na minha presença ou se algum dia nossos caminhos se cruzariam de uma maneira diferente.
E, sinceramente, não estava preocupada em descobrir.
Minha prioridade era continuar vivendo, trabalhando e cuidando das pessoas que amava.
Se o destino tivesse outros planos, teria que me convencer com muito mais do que um rosto bonito.
Porque uma coisa eu tinha aprendido ao longo dos anos: chamar minha atenção era fácil.
Conquistar minha confiança era outra história.
