Capítulo 3 O NATAL QUE LEVOU MEU AMOR

Larissa narrando

O Natal é uma data linda para muita gente. É tempo de reunir a família, preparar a ceia, trocar presentes, abraçar quem amamos e agradecer por mais um ano de vida.

As ruas ficam iluminadas, as casas ganham enfeites, as crianças esperam ansiosas pelos presentes e as famílias se reúnem para celebrar.

Mas, para mim, o Natal nunca mais foi o mesmo.

Existe uma dor que não desaparece com o passar dos anos. Ela pode até ficar escondida em algum canto do coração, permitindo que a gente sorria, trabalhe e continue vivendo, mas basta uma lembrança para tudo voltar.

E o Natal é a minha lembrança mais dolorosa.

Foi nessa data que perdi o homem que amei durante seis anos. O homem com quem planejei meu futuro, dividi meus segredos e imaginei construir uma família.

Desde aquela noite, as luzes natalinas nunca mais tiveram o mesmo brilho.

Enquanto tantas pessoas comemoram, eu tento encontrar forças para atravessar mais um dezembro sem ele.

Flashback — Seis anos antes

A comunidade estava em plena preparação para o baile de Natal.

Desde cedo, havia gente organizando tudo, os comerciantes estavam movimentados e a expectativa para a festa crescia a cada hora. As pessoas queriam aproveitar a noite, encontrar os amigos e comemorar o fim de mais um ano.

Meu amor, entretanto, estava cheio de trabalho.

Ele era um dos homens da linha de frente, alguém que carregava muitas responsabilidades e cuja rotina raramente permitia que as coisas acontecessem conforme o planejado.

Eu já estava acostumada com aquilo. Sabia que nem sempre ele poderia estar ao meu lado quando eu queria, mas também conhecia o homem com quem tinha escolhido compartilhar minha vida.

Naquela época, eu ainda acreditava que teríamos muitos outros Natais juntos.

E como acreditava!

Já passava da meia-noite. O baile havia começado, e eu ainda estava terminando de me arrumar.

Estava diante do espelho, ajeitando o cabelo e conferindo a maquiagem, quando ouvi os primeiros fogos.

Sorri automaticamente.

— Finalmente! — murmurei, imaginando que a festa estivesse ficando ainda mais animada.

Peguei o celular e olhei as mensagens, esperando encontrar alguma coisa dele. Queria saber se estava tudo bem, se conseguiria aparecer ou se eu teria que encontrá-lo mais tarde.

Não havia resposta.

Tentei não me preocupar.

Ele estava trabalhando. Era só isso.

Continuei me arrumando, sem imaginar que aquela seria uma das últimas noites da minha vida em que ainda existiria esperança de encontrá-lo novamente.

O tempo passou de maneira estranha. Primeiro, ouvi barulhos distantes. Depois, percebi que alguma coisa estava errada.

Os sons já não pareciam fazer parte da comemoração.

O clima mudou.

As pessoas começaram a se movimentar de maneira diferente, e a tensão tomou conta do lugar. Eu não sabia exatamente o que estava acontecendo, mas meu coração começou a bater depressa.

Tentei ligar para ele.

Nada.

Liguei novamente.

Nada.

— Atende, meu amor. Por favor, atende — sussurrei, apertando o telefone contra a orelha.

Eu precisava ouvir sua voz. Bastava que ele dissesse que estava bem para que eu conseguisse respirar novamente.

Mas a ligação não foi atendida.

Quase duas horas depois, quando eu já não conseguia permanecer sentada, ouvi batidas na porta.

Meu corpo inteiro ficou tenso.

Caminhei depressa até a entrada e abri, encontrando uma pessoa com uma expressão que jamais conseguiria esquecer.

— Larissa...

A maneira como pronunciou meu nome fez meu estômago afundar.

— O que aconteceu? Cadê ele?

A pessoa hesitou.

E aquele silêncio foi pior do que qualquer resposta.

— Ele está na quadra.

Por alguns segundos, não consegui compreender.

— Como assim, na quadra?

Eu conhecia aquela realidade. Sabia o significado daquela frase, sabia o que acontecia quando alguém era levado para lá depois de um confronto.

A quadra era o lugar onde as famílias recebiam as notícias que ninguém queria ouvir.

Meu coração pareceu parar.

— Não... — murmurei, balançando a cabeça. — Não, ele está bem. Vocês estão enganados.

Ninguém respondeu.

E eu entendi que precisava ir até lá.

Saí de casa sem pensar em mais nada. Não me importei com a chuva que caía, com a roupa que tinha escolhido para a festa ou com o caminho que precisava percorrer.

Eu só queria encontrá-lo.

Queria que alguém estivesse enganado. Queria chegar àquela quadra e descobrir que tudo não passava de um terrível mal-entendido.

Corri o mais depressa que pude.

O chão estava molhado, havia marcas do confronto pelo caminho e pessoas que observavam tudo em silêncio. Eu mal conseguia enxergar direito, porque meus olhos estavam cheios de lágrimas.

— Por favor, meu Deus, deixa ele estar bem! — repetia entre um passo e outro.

Não me lembro de ter sentido frio naquela noite. Também não me lembro de ter pensado em mim.

Só me lembro do medo.

Um medo tão grande que parecia ocupar cada parte do meu corpo.

Quando cheguei à entrada da quadra, minhas pernas perderam as forças.

Eu o vi.

E o mundo acabou.

Meu amor estava deitado, imóvel, cercado por pessoas que tentavam manter a dignidade diante da dor. O rosto que tantas vezes tinha se aproximado do meu para me beijar agora permanecia sem movimento.

Aproximei-me sem conseguir acreditar.

— Não... meu amor, não faz isso comigo.

Ajoelhei-me ao lado dele, ignorando as mãos que tentavam me amparar.

Toquei seu rosto e comecei a chorar.

— Acorda, por favor! Olha para mim! Sou eu, amor. Eu estou aqui!

Minha voz saiu desesperada, quebrada por soluços.

Esperei que ele abrisse os olhos. Que reclamasse da minha gritaria, que segurasse minha mão ou que fizesse alguma brincadeira para me acalmar.

Esperei por qualquer sinal de que aquele pesadelo não era real.

Mas ele não respondeu.

Havia um ferimento na nuca, e o sangue em suas roupas tornava impossível ignorar a verdade que eu tentava desesperadamente rejeitar.

Ele tinha partido.

O homem que, horas antes, ainda fazia parte dos meus planos estava ali, diante de mim, e eu não podia fazer absolutamente nada para trazê-lo de volta.

— Você prometeu ficar comigo! — chorei, segurando sua mão. — A gente ainda tinha tanta coisa para viver!

As pessoas ao redor tentavam me consolar, mas nenhuma palavra conseguia alcançar meu coração.

Como alguém poderia me pedir calma quando tudo o que eu amava tinha acabado de desaparecer?

Eu não queria ser forte.

Não queria ouvir que precisava aceitar.

Não queria saber que o tempo ajudaria.

Eu queria meu homem de volta.

Queria os nossos planos, as nossas conversas, as nossas implicâncias e até as discussões bobas que, naquele momento, pareciam lembranças preciosas demais.

Queria voltar algumas horas no tempo e dizer mais uma vez que o amava.

Mas não havia como voltar.

Naquela noite de Natal, enquanto tantas pessoas comemoravam a chegada de uma nova data, eu me despedia do meu futuro.

Fim do flashback.

Quase dois anos se passaram desde aquela noite, mas algumas lembranças continuam tão vivas que, às vezes, parece que tudo aconteceu ontem.

Durante os primeiros três meses depois da morte dele, praticamente não saí de casa.

Eu não tinha vontade de conversar, de encontrar pessoas ou de fazer qualquer coisa que exigisse um esforço além do necessário para continuar respirando.

As cortinas permaneciam fechadas por horas. Meu celular tocava, as mensagens se acumulavam e as pessoas tentavam me convencer a sair, mas eu simplesmente não conseguia.

Precisava viver meu luto.

Precisava entender como continuar existindo em um mundo onde ele já não estava.

Houve dias em que eu acordava e, por alguns segundos, esquecia o que tinha acontecido. Então olhava para o lado vazio da cama e a realidade voltava com toda a força.

Era como perder aquele homem novamente todas as manhãs.

Eu olhava nossas fotografias e passava os dedos pela tela, lembrando dos momentos que tínhamos vivido.

Ficamos seis anos juntos.

Seis anos!

Ele me tirou de casa quando eu ainda era muito nova, e meus pais nunca aceitaram aquela escolha. Com o tempo, cortaram o contato comigo, e nossa relação se perdeu de uma maneira que nunca consegui reparar.

Quando ele morreu, percebi que minha família já não estava ali havia muito tempo.

Não tinha pai para me abraçar, mãe para me acolher ou irmãos com quem dividir aquela dor.

Tinha meus amigos, que fizeram o possível para permanecer ao meu lado, e sou grata por cada um deles.

Mas havia uma parte daquele sofrimento que ninguém podia sentir por mim.

Eu tinha perdido meu companheiro e, com ele, a pessoa que imaginava que estaria comigo em todas as etapas da vida.

Sonhávamos em ter uma casa cheia de filhos.

Eu imaginava crianças correndo pelos cômodos, brinquedos espalhados pela sala e nós dois tentando descobrir como dar conta de tanta bagunça.

Ele dizia que queria uma família grande, e eu brincava que seria responsável por ensinar nossos filhos a não herdarem toda a teimosia dele.

Também queríamos viajar pelo mundo. Conhecer lugares novos, experimentar comidas diferentes, tirar fotografias e voltar para casa cheios de histórias.

Ele não media esforços para me fazer feliz, e eu tentava retribuir da mesma maneira.

Nosso relacionamento tinha dificuldades, como qualquer outro, mas havia companheirismo. Eu conhecia suas qualidades e seus defeitos, assim como ele conhecia os meus.

Nunca precisei disputar a atenção dele com outras mulheres. Ele mantinha nossa relação com respeito, e isso me dava segurança.

Eu sabia que era amada.

E, quando alguém já experimentou um amor assim, entende por que certas perdas deixam marcas tão profundas.

Depois de três meses, comecei a reagir.

Não foi de uma hora para outra. Não acordei certa manhã com o coração curado, pronta para esquecer tudo e seguir em frente.

Foi devagar.

Primeiro, abri as janelas.

Depois, voltei a responder algumas mensagens.

Mais tarde, comecei a sair para resolver pequenas coisas. Quando percebi, estava organizando meus compromissos e tentando recuperar a rotina que havia abandonado.

Eu precisava trabalhar.

Precisava cuidar de mim, manter meu negócio e encontrar uma razão para levantar da cama mesmo quando a saudade parecia insuportável.

Então comecei a reconstruir minha vida, um dia de cada vez.

Houve recaídas, noites difíceis e momentos em que precisei me trancar no banheiro para chorar sem que ninguém percebesse.

Mas também houve risadas verdadeiras, conquistas e dias em que consegui chegar ao fim da noite sem pensar na tragédia que tinha mudado minha vida.

E aprendi que isso não significava que o amava menos.

Significava apenas que eu continuava viva.

Até hoje, não namorei ninguém.

Conheci pessoas, conversei, saí e aproveitei minha liberdade, mas nunca senti vontade de entregar meu coração novamente. Talvez ainda não estivesse preparada. Talvez uma parte de mim tivesse medo de amar alguém e descobrir, mais uma vez, que a vida podia tirar tudo sem pedir licença.

Não sei.

O que sei é que não quero me obrigar a sentir alguma coisa só porque os outros acreditam que já passou tempo suficiente.

O luto não tem calendário.

A saudade não obedece a ordens.

E o amor que vivi não desaparece só porque a pessoa amada já não está aqui.

Talvez um dia eu conheça alguém que me faça sorrir de um jeito diferente. Alguém que desperte em mim a vontade de compartilhar planos, construir lembranças e experimentar novamente a felicidade de ter uma pessoa ao meu lado.

Se isso acontecer, não significa que estarei traindo minha história.

Mas existe uma coisa que sempre levarei comigo.

Ele foi o meu primeiro grande amor, meu companheiro durante seis anos e o homem com quem sonhei construir uma família.

Uma parte da minha vida sempre pertencerá àquela história.

E, por mais que o futuro ainda possa me surpreender, ninguém poderá apagar o que vivemos.

Talvez eu volte a amar.

Talvez encontre alguém que me faça acreditar novamente em promessas, planos e domingos preguiçosos a dois.

Mas ele sempre será uma parte de mim.

Porque algumas pessoas não ficam para sempre ao nosso lado.

Ainda assim, deixam marcas que o tempo não consegue apagar.

E, para mim, ele sempre será o amor que a vida levou cedo demais.

O amor que eu teria escolhido em todos os Natais da minha vida.

Mesmo que, agora, eu precise aprender a atravessar cada um deles sem sua presença.

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