Capítulo 4 A DONA DO SALÃO
Crack narrando
Minha caminhada nesse mundo começou cedo demais.
Eu tinha apenas treze anos quando meu pai começou a me levar para conhecer os bastidores da vida que ele comandava. Naquela época, achava que ser respeitado significava não demonstrar medo, que poder era ter todo mundo obedecendo às suas ordens e que homem de verdade precisava estar sempre preparado para enfrentar qualquer situação.
Demorei para entender que o mundo não era tão simples quanto eu imaginava.
Mas, quando a gente cresce cercado por conflitos, acaba aprendendo a esconder os sentimentos antes mesmo de aprender a lidar com eles.
Meu pai era o homem que comandava tudo por aqui. Cresci observando suas decisões, conhecendo pessoas que preferia nunca ter conhecido e aprendendo, da maneira mais dura, que cada escolha tinha um preço.
Fui pai muito novo, para completar.
Conheci Laura quando tinha dezesseis anos. Ela era bonita, chamava atenção por onde passava e sabia muito bem o efeito que causava nas pessoas. O problema era que, por trás daquele rosto bonito, havia uma mulher que parecia pensar apenas nas próprias vontades.
Nós nunca chegamos a namorar de verdade. Tivemos um envolvimento, algumas saídas e momentos que, naquela época, pareciam suficientes.
Eu já percebia que ela gostava de receber minha atenção, mas também reparava nos olhares que lançava para alguns dos meus parceiros.
Não era ciúme. Nunca fui de cobrar compromisso de quem não tinha assumido compromisso comigo.
Cada um era livre para fazer suas escolhas.
Até que Laura apareceu dizendo que estava grávida e que o filho era meu.
Não pensei duas vezes antes de pedir um exame de DNA. Quando o resultado confirmou a paternidade, assumi minha responsabilidade.
Minha filha nunca teve culpa das circunstâncias em que foi concebida.
Tatiana se tornou minha maior riqueza, a pessoa capaz de desmontar minha pose de homem durão com uma única ligação. Desde pequena, sempre teve uma personalidade diferente da mãe. Era carinhosa, inteligente, determinada e, principalmente, sabia o que queria.
Quando estava comigo, eu fazia questão de dar atenção, mesmo com todas as responsabilidades que carregava.
Nunca fui o pai perfeito. Minha vida estava longe disso, e eu sabia que minha ausência em alguns momentos não podia ser compensada apenas com presentes ou dinheiro. Ainda assim, tentei garantir que minha filha soubesse de uma coisa: independentemente das circunstâncias, ela sempre poderia contar comigo.
Tatiana tinha acabado de completar dezoito anos e já estava procurando emprego.
Aquilo me enchia de orgulho.
Ela poderia ter escolhido simplesmente aproveitar o conforto que eu tinha condições de proporcionar, mas preferia conquistar as próprias coisas. Como já era amiga da dona de um estúdio de beleza aqui da região, conseguiu uma oportunidade para trabalhar por lá.
E, falando na dona do salão...
Puta que pariu!
Que mulher maravilhosa.
Eu já tinha ouvido falar dela, visto de longe algumas vezes e percebido que chamava atenção. Mas, até então, nunca tinha tido um motivo para me aproximar.
Também nunca assumi uma mulher como minha companheira. Não porque acreditasse que relacionamento fosse perda de tempo, mas porque nenhuma das mulheres com quem me envolvi conseguiu despertar em mim a vontade de mudar minha rotina.
Eu estava acostumado a viver do meu jeito, sem precisar explicar cada passo ou dividir decisões pessoais com alguém.
Só que, naquela manhã, minha filha resolveu mudar a programação do meu dia.
Meu celular tocou enquanto eu resolvia alguns assuntos.
Quando vi o nome de Tatiana na tela, atendi imediatamente.
— Fala, minha princesa.
— Oi, pai.
Bastou ouvir sua voz para perceber que alguma coisa estava errada.
— Que foi? Aconteceu alguma coisa?
Ela ficou em silêncio por alguns segundos.
— Pai, eu queria ficar uns dias com você.
Franzi a testa.
— Como assim? Você está onde?
— Estou na casa da Larissa. Dormi aqui ontem.
Larissa. A dona do salão.
— E por que você não foi para casa?
Minha filha soltou um suspiro cansado.
— Porque eu não aguento mais, pai. Minha mãe está impossível.
Meu maxilar travou.
Eu já conhecia Laura o suficiente para saber que ela podia transformar qualquer situação em uma confusão, mas precisava ouvir a história antes de tirar conclusões.
— Calma. Me conta o que aconteceu.
— Ela está ficando com um cara lá em casa. O homem é esquisito, pai. Fica me olhando de um jeito que me deixa desconfortável. Eu não gosto dele, e minha mãe não quer nem saber do que eu penso.
Meu corpo ficou tenso.
— E seu irmão?
— É justamente isso que mais me preocupa. Tenho dó dele. Ela anda tão envolvida com esse homem que parece não prestar atenção direito no menino.
Respirei fundo, tentando controlar a raiva.
Laura podia fazer as escolhas que quisesse na vida pessoal dela. Não éramos um casal, não tínhamos qualquer compromisso amoroso e eu não pretendia controlar seus relacionamentos.
Mas a segurança dos meus filhos era outra história.
— Sua mãe está querendo arrumar problema para a cabeça dela — murmurei.
— Pai, não quero que você brigue com ela por minha causa.
— Eu não vou fazer nada sem entender o que está acontecendo. Mas vou verificar quem é esse sujeito e descobrir se existe algum motivo real para você se sentir insegura.
— Obrigada.
— Você está bem aí?
— Estou. A Larissa me recebeu super bem. Ela disse que posso ficar aqui por enquanto.
Olhei para o relógio e peguei a chave da moto.
— Então fica tranquila. Estou indo buscar você.
— Pai, não precisa vir correndo!
— Tatiana, eu sou seu pai. Se você me liga dizendo que está mal, eu vou querer olhar nos seus olhos e conversar com você. Não tem discussão.
Ela riu baixinho.
— Tá bom. Te espero.
Encerrei a ligação e saí para resolver aquela situação.
Durante o caminho, fiquei pensando no que minha filha tinha contado. Eu não gostava da ideia de um homem estranho frequentando a casa onde meus filhos viviam, principalmente se o comportamento dele estava deixando Tatiana desconfortável.
Não pretendia condenar ninguém sem saber dos fatos, mas também não ignoraria um possível problema.
Quando cheguei à rua da casa de Larissa, estacionei a moto e tirei o capacete.
A residência chamou minha atenção logo de cara. Era bonita, organizada e tinha um acabamento que deixava claro o cuidado da dona com cada detalhe.
Toquei a campainha.
Esperei alguns segundos, até ouvir passos se aproximando.
A porta se abriu.
E foi aí que minha manhã ficou interessante.
Caralho.
De perto, Larissa era ainda mais bonita.
Ela apareceu usando uma roupa confortável, com os cabelos arrumados e uma expressão tranquila. Não parecia preocupada em impressionar ninguém, e talvez fosse justamente isso que a tornasse tão interessante.
Seus olhos encontraram os meus.
— Oi, bom dia! — cumprimentou, com um sorriso educado. — A Tatiana está tomando café. Pode entrar.
— Bom dia.
Entrei e observei discretamente o ambiente.
A casa era toda arrumada, os móveis pareciam escolhidos com cuidado e tudo estava impecável. Não era apenas uma residência luxuosa; dava para perceber que Larissa tinha construído um espaço que combinava com ela.
— Fica à vontade — disse ela, indicando a sala.
— Valeu.
Antes que eu pudesse perguntar qualquer coisa, ouvi a voz da minha filha vindo da cozinha.
— Aí, pai! Já veio saber da fofoca, né?
Virei o rosto e encontrei Tatiana sentada à mesa, tomando café como se não tivesse me deixado preocupado meia hora antes.
— Me respeita, garota! — respondi, apontando para ela. — Você me liga daquele jeito, me deixa preocupado e ainda vem tirar onda com a minha cara?
Ela começou a rir.
— Ai, pai, não começa!
Aproximei-me e beijei sua testa.
— Agora me conta direito. Qual foi a confusão dessa vez com sua mãe?
Tatiana colocou a xícara sobre a mesa e sua expressão ficou séria.
— Pai, eu já falei. Ela está completamente diferente desde que começou a sair com esse homem. Parece que tudo gira em torno dele. E meu irmão fica lá, sem receber a atenção que precisa.
Sentei-me à sua frente.
— Você chegou a conversar com ela?
— Tentei. Ela disse que eu estava exagerando e que não tinha nada a ver com a vida dela.
Passei a mão pelo rosto.
Laura tinha todo o direito de reconstruir sua vida. O que não podia acontecer era uma mudança de relacionamento transformar o ambiente dos meus filhos em um lugar onde eles não se sentissem seguros ou acolhidos.
— Vou procurar saber quem é esse sujeito. Se houver alguma coisa errada, vou tomar as providências necessárias para proteger vocês.
— Só não quero mais confusão, pai.
— Nem eu. Mas você não precisa permanecer em uma situação que está fazendo mal a você. Se quiser ficar comigo, pode ficar.
Ela sorriu, aliviada.
— Obrigada, pai.
— Você quer ir para casa comigo agora ou prefere ficar aqui mais um pouco?
Tatiana olhou para Larissa antes de responder.
— Por enquanto, vou ficar aqui. Ela disse que posso ficar o tempo que precisar.
Olhei para a dona da casa.
— Você não se importa mesmo?
Larissa cruzou os braços e ergueu uma sobrancelha, como se a pergunta fosse desnecessária.
— Claro que não. A Tatiana é minha amiga. Se ela precisa de um lugar tranquilo para organizar as ideias, pode ficar aqui. Não vou deixar minha amiga desamparada.
A resposta me surpreendeu de uma maneira boa.
Muita gente gostava de falar sobre amizade, mas nem todo mundo estava disposto a abrir a própria casa quando alguém precisava.
Larissa não fez discurso, não tentou parecer uma pessoa especial e nem esperou que eu agradecesse dez vezes. Apenas ofereceu ajuda porque considerava aquilo o certo a fazer.
Gostei disso.
— Agradeço de verdade — falei.
— Não precisa agradecer. Só quero que ela fique bem.
Tatiana abriu um sorriso vitorioso.
— Viu, pai? Eu falei que ela era maravilhosa!
— Estou começando a perceber.
Larissa me lançou um olhar desconfiado, e precisei segurar a vontade de rir.
Minha filha voltou a comer, e aproveitei para tirar um maço de dinheiro do bolso. Coloquei sobre a mesa, diante dela.
— Toma. Se precisar de alguma coisa, me liga. E não fica pensando que precisa resolver tudo sozinha.
Tatiana olhou para o dinheiro e depois para mim.
— Pai, eu tenho dinheiro.
— E eu sou seu pai. Aceita e para de discutir comigo.
— Você é muito mandão!
— E você fala demais!
Ela riu e guardou o dinheiro.
— Te amo, pai.
Meu semblante suavizou.
— Também te amo, minha princesa. Mais do que você imagina.
Beijei sua testa novamente e me levantei. Antes de sair, combinei que conversaria com ela mais tarde, com calma, e pedi que me avisasse se alguma coisa a deixasse desconfortável.
Eu podia ter muitos defeitos, mas não brincava com a segurança dos meus filhos.
Quando me virei para ir embora, encontrei Larissa perto da porta.
— Obrigada por vir conversar com ela — disse.
— Não precisa agradecer. Ela é minha filha.
— Eu sei. Só acho bonito você estar presente.
Aquelas palavras me fizeram observá-la por um instante.
Não havia ironia em sua voz. Ela parecia realmente acreditar naquilo que estava dizendo.
— Tento fazer o melhor que posso — respondi.
— E isso já significa bastante.
Fiquei sem saber o que dizer por um segundo, coisa rara na minha vida.
Normalmente, eu sempre encontrava uma resposta. Gostava de provocar, brincar e manter o controle das conversas. Mas Larissa tinha um jeito de falar que parecia desarmar as pessoas sem precisar fazer esforço.
— Bom, vou deixar vocês tomarem o café de vocês — falei, caminhando até a saída.
— Boa sorte com a sua filha!
— Vou precisar!
Ela riu.
E aquele sorriso ficou na minha cabeça quando coloquei o capacete.
Antes de subir na moto, olhei para trás mais uma vez.
Larissa continuava na porta, observando enquanto eu me preparava para partir.
Puta que pariu.
Que mulherão!
Eu não sabia quase nada sobre ela, além do fato de ser dona de um salão, amiga da minha filha e ter uma casa bonita. Ainda assim, havia alguma coisa em sua presença que despertava minha curiosidade.
Talvez fosse o jeito seguro com que falava.
Talvez fosse a tranquilidade que transmitia.
Ou talvez eu simplesmente estivesse impressionado com sua beleza.
De qualquer forma, não pretendia me precipitar.
Eu tinha problemas para resolver, uma filha precisando de apoio e um homem cuja história ainda precisava investigar.
Larissa não fazia parte daquela lista de preocupações.
Pelo menos, era o que eu dizia a mim mesmo enquanto ligava a moto.
Porque, mesmo sem saber nada sobre o passado daquela mulher, uma coisa já tinha ficado clara.
Ela havia conseguido chamar minha atenção.
E fazia muito tempo que isso não acontecia.
