Capítulo 6 EU PRECISO ME TROCAR

Larissa narrando

Maratona 2/3

Se tinha uma coisa capaz de acabar com a minha paz, essa coisa se chamava Laura.

Minha nossa, que mulher de energia pesada! Era só aparecer que parecia que o ambiente inteiro perdia a alegria. Eu não sabia como alguém conseguia transformar qualquer situação em motivo para uma discussão, mas ela parecia ter recebido um diploma na arte de arrumar confusão.

Depois do espetáculo que resolveu dar no salão, eu ainda estava tentando esquecer o ocorrido.

Não gostava de guardar rancor, mas também não era obrigada a gostar de todo mundo. E, sinceramente, Laura estava fazendo um esforço enorme para entrar na minha lista de pessoas que eu preferia manter bem longe.

— Amiga, pelo amor de Deus, para de fazer essa cara! — Cauã reclamou, interrompendo meus pensamentos. — Parece que acabou o mundo e esqueceram de avisar a gente.

— Se você tivesse que aguentar aquela mulher por cinco minutos, estaria fazendo a mesma cara.

— Ah, não! Vamos animar, queridas! Quero ninguém tristinha aqui, não! — Ele bateu palmas, chamando nossa atenção. — E você, Lelé, vai fazer festa para comemorar os dezoito anos ou não, bicha? Agora você já pode ser presa! Tem que comemorar essa maioridade!

Eu quase engasguei com a água que estava bebendo.

— Ai, Cauã, eu não te aguento! — respondi, rindo. — Mas temos que comemorar mesmo a maioridade da minha pequena.

Letícia abriu um sorriso, e aquilo já foi suficiente para melhorar meu humor.

Eu gostava de vê-la feliz. Depois de tantas situações complicadas com a mãe, ela merecia alguns dias de tranquilidade, cercada por pessoas que realmente se importavam com ela.

— Só vocês para me animarem! — Lelé declarou. — Vou falar com meu pai para liberar a piscina e a gente fazer um churrasco lá em casa. Que tal?

Cauã levou a mão ao peito, fingindo emoção.

— Está perfeito! Já quero dançar para os mavabos!

— Ridículo você! — respondi, caindo na gargalhada.

— Ridículo, não. Um acontecimento!

Letícia começou a rir também, e logo estávamos os três fazendo planos para a comemoração. Falamos sobre comida, música, convidados e até sobre quem ficaria responsável por organizar tudo.

Naturalmente, Cauã queria escolher a playlist inteira, enquanto eu já estava preocupada com a possibilidade de ele colocar músicas que fariam os convidados pedirem socorro.

— Só não me inventa de tocar aquelas músicas que ninguém conhece — avisei.

— Você não entende de arte!

— E você não entende de silêncio!

Lelé quase caiu da cadeira de tanto rir.

Era disso que eu gostava na nossa amizade. Podíamos ter problemas, dias cansativos e preocupações que pareciam não acabar nunca, mas sempre encontrávamos um jeito de tornar tudo um pouco mais leve.

E eu precisava daqueles momentos.

Depois de tudo o que vivi, aprendi a valorizar as pessoas que conseguiam me fazer rir de verdade.

A tarde avançou, e o salão continuou movimentado. Eu me concentrei nos atendimentos, tentando terminar tudo dentro do horário. Minha última cliente chegou perto das dez da noite, e eu já estava contando os minutos para fechar a porta, tirar os sapatos e me jogar no sofá.

Não era fácil administrar um negócio, atender clientes e ainda tentar manter a vida pessoal em ordem.

Mas eu gostava do que fazia.

Cada cliente satisfeita, cada elogio e cada conquista me lembravam que todo o esforço estava valendo a pena.

Eu estava terminando o procedimento quando ouvi alguém chamar da entrada.

— Boa noite! Tem alguém aí?

Levantei os olhos, esperando encontrar algum cliente atrasado.

Em vez disso, vi um dos seguranças de Crack entrando com três caixas enormes de pizza.

Pisquei algumas vezes.

— Ué, aconteceu alguma coisa?

O homem sorriu e colocou as caixas sobre a bancada.

— O patrão mandou para vocês.

Olhei para Letícia, que apareceu imediatamente ao meu lado.

— Pizza?

— Três caixas! — respondi, como se tivesse acabado de receber uma herança.

Cauã surgiu da recepção com uma expressão emocionada.

— Eu sabia que o universo não tinha se esquecido de mim!

— Você está dramático hoje — Lelé comentou.

— Estou com fome, minha filha. Respeita meu sofrimento.

Agradecemos ao segurança, que logo se despediu, e ninguém fez cerimônia. Assim que terminei o atendimento, abrimos as caixas e nos servimos.

A cliente, que ainda estava conosco, olhou para a pizza com tanta vontade que eu ri.

— Pode pegar um pedaço, mulher! Não precisa ficar só olhando.

— Tem certeza?

— Claro! Aqui a gente trabalha, fofoca e divide pizza. Faz parte do pacote.

Ela aceitou imediatamente.

E lá estávamos nós, perto das onze da noite, comendo pizza e conversando como se não tivéssemos passado o dia inteiro trabalhando.

— Esse homem ganhou pontos comigo — Cauã declarou, mastigando. — Quem manda pizza para trabalhador cansado merece respeito.

— Você respeita qualquer pessoa que te dê comida — respondi.

— E estou errado?

— Não. Mas pelo menos admite!

Letícia ria tanto que mal conseguia comer.

Eu também estava me divertindo. A preocupação com Laura tinha ficado para trás, e agora só queria terminar aquela noite em paz.

Quando finalmente fechamos o salão, já passava das onze.

Organizamos tudo, conferimos as portas e seguimos para minha casa. Lelé dormiria comigo, como já tinha acontecido outras vezes, e eu gostava de tê-la por perto. A casa parecia menos silenciosa quando havia alguém conversando pela sala.

Só não imaginava encontrar uma visita esperando na entrada.

Quando chegamos, vi Crack.

Ele estava parado perto da porta, com aquela postura confiante de quem parecia nunca ficar desconfortável em lugar nenhum.

Meu Deus, de novo aquele homem!

Não bastava ser bonito de longe. De perto, o cidadão parecia ter sido desenhado com uma paciência que faltava ao resto da humanidade.

Respirei discretamente e fui abrir a porta.

— Boa noite! — cumprimentei.

— Boa noite.

Dei espaço para ele entrar, e logo percebi que sua atenção estava voltada para Letícia.

— Pai! — ela chamou, aproximando-se dele. — Veio me buscar?

— Vim conversar com você, princesa. Mas, pelo jeito, cheguei na hora da fofoca.

— Você está muito engraçadinho hoje!

Os dois começaram a brincar, e eu aproveitei para deixar as coisas que carregava sobre o aparador.

Crack se acomodou no sofá com a filha, enquanto ela começou a contar animadamente sobre os planos para a festa de aniversário.

— Pai, pensei em fazer um churrasco na piscina! A gente chama o pessoal, coloca música e passa o dia lá.

— Calma, garota! Você acabou de completar dezoito anos e já quer organizar um evento para a cidade inteira?

— Ah, pai! É só uma festa!

— Sei. E eu sou o Papai Noel.

Revirei os olhos, divertida, enquanto seguia para a cozinha.

A conversa deles parecia estar indo bem, então resolvi deixá-los à vontade. Eu precisava de um banho e, principalmente, de alguns minutos sem precisar resolver nada para ninguém.

Subi as escadas, separei uma roupa confortável e entrei no banheiro.

A água morna caiu sobre meus ombros, aliviando o cansaço acumulado durante o dia. Lavei os cabelos, cuidei da pele e aproveitei aquele momento para relaxar.

Quando terminei, coloquei um conjunto confortável que costumava usar em casa. Nada muito elaborado, afinal, eu estava na minha própria residência e não tinha a menor intenção de desfilar para ninguém.

Desci as escadas tranquilamente, pensando em pegar alguma coisa para beber antes de dormir.

Foi quando ouvi uma voz conhecida.

— Puta que pariu... Cê tá doido!

Parei no último degrau.

Crack estava de pé perto do sofá, e seus olhos tinham acabado de encontrar os meus.

Por um segundo, nenhum dos dois disse nada.

Eu olhei para ele.

Ele olhou para mim.

E meu cérebro, que funcionava perfeitamente para responder desaforo, resolver problemas e administrar o salão, simplesmente decidiu tirar férias.

Meu Deus!

Eu estava em casa, usando uma roupa confortável, com os cabelos ainda úmidos e sem a menor expectativa de encontrar alguém além da minha amiga e do pai dela.

— Desculpa! — falei rapidamente. — Achei que você já tivesse ido embora. Não ouvi mais vozes lá embaixo.

Ele passou a mão pelo rosto, tentando disfarçar um sorriso.

— A Letícia foi tomar banho. Eu já estava de saída.

Assenti, desejando que o chão se abrisse e me levasse para algum lugar bem distante.

Mas, aparentemente, o universo ainda não tinha terminado de brincar comigo.

Crack me olhou novamente, dessa vez com um sorriso cheio de atrevimento.

— Só para constar, gostei do conjunto. Você é maravilhosa.

Pronto.

Era isso.

Eu tinha sido derrotada por uma frase.

Senti meu rosto esquentar tão depressa que tive certeza de que estava parecendo um pimentão maduro.

Eu, Larissa, mulher que não abaixava a cabeça para ninguém, que respondia qualquer provocação e que não costumava ficar sem palavras diante de homem nenhum, estava ali, completamente sem reação.

Ele percebeu.

Claro que percebeu!

O sorriso ficou ainda mais evidente, e eu tive vontade de jogar uma almofada na cabeça dele.

— Boa noite, Larissa — despediu-se, como se não tivesse acabado de bagunçar meus pensamentos.

— Boa noite — respondi, tentando recuperar a dignidade.

Ele passou por mim, abriu a porta e saiu sem me dar tempo de pensar em uma resposta decente.

Fiquei parada por alguns segundos, olhando para a porta fechada.

Depois levei as mãos ao rosto.

— Meu Deus do céu!

Ouvi passos na escada e, quando me virei, encontrei Letícia descendo com os cabelos molhados.

— O que aconteceu?

Olhei para ela.

Ela olhou para mim.

Então seus olhos se estreitaram.

— Larissa... por que você está vermelha?

— Estou com calor!

Ela olhou para o ar-condicionado ligado.

— Com esse frio?

— Letícia, não começa!

Um sorriso enorme apareceu no rosto dela.

— Meu pai falou alguma coisa para você?

— Não!

Respondi rápido demais.

Ela começou a rir.

— Falou, sim!

— Menina, vai dormir!

— Ai, meu Deus! Eu sabia!

Peguei uma almofada e joguei na direção dela, mas a infeliz desviou, gargalhando.

— Você é muito ridícula! — reclamei.

— E você está apaixonadinha!

— APAIXONADA É A SUA MÃO!

A gargalhada dela ecoou pela sala.

Eu sabia que, se continuasse ali, aquela menina não me daria sossego. Por isso, virei as costas e comecei a subir as escadas, tentando ignorar as provocações.

Mas, quando cheguei ao quarto e fechei a porta, encostei as costas nela e soltei um suspiro.

A imagem do sorriso de Crack apareceu imediatamente na minha cabeça.

A voz dele.

Aquele olhar provocador.

E a maneira como tinha me elogiado antes de ir embora.

Levei as mãos ao rosto novamente.

— Puta que pariu, Larissa! O que está acontecendo com você?

Eu não estava apaixonada. Nem de longe!

Era apenas um homem bonito fazendo um comentário inesperado. Qualquer mulher poderia ficar sem graça diante de uma situação daquelas.

Era isso que eu repetia para mim mesma enquanto caminhava até a cama.

Mas, quando me deitei, percebi que estava sorrindo sozinha.

E aquilo me deixou ainda mais irritada.

Eu tinha passado quase dois anos sem me interessar por ninguém. Não estava procurando um relacionamento, não queria complicações e muito menos pretendia me envolver com o pai da minha amiga.

Só que Crack tinha conseguido despertar uma curiosidade que eu não sentia havia muito tempo.

E eu não sabia se gostava daquilo.

Peguei o travesseiro e o apertei contra o rosto.

— Eu preciso trocar de calcinha!

A frase escapou antes que eu pudesse impedir.

Fiquei em silêncio por um segundo.

Depois comecei a rir sozinha, completamente indignada comigo mesma.

Definitivamente, aquele homem ainda me daria trabalho.

E o pior de tudo era que, pela primeira vez em muito tempo, a ideia não parecia tão ruim assim.

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