Capítulo 7 CIÚME, CHURRASCO E CONFUSÃO
Crack narrando
Maratona 3/3
Saí daquela casa completamente desnorteado.
Puta que pariu!
Eu não tinha fumado nada, não tinha bebido uma gota de álcool e, mesmo assim, parecia que minha cabeça estava girando mais do que deveria.
Tudo por causa de uma mulher.
Uma mulher que, até pouco tempo atrás, era apenas a dona de um salão onde minha filha trabalhava.
Só que agora eu tinha uma imagem de Larissa gravada na cabeça, e não adiantava tentar ignorar.
Aquela loira era um problema.
Um problema bonito pra caralho!
Eu ainda conseguia lembrar da expressão dela quando percebeu que eu estava na sala. Primeiro, ficou surpresa. Depois, começou a ficar vermelha, e eu precisei me controlar para não rir da situação.
Ela, que tinha uma resposta para tudo, ficou praticamente sem palavras diante de um elogio.
Aquilo foi bom demais.
Durante o caminho para casa, tentei pensar em outras coisas. Tinha assuntos para resolver, responsabilidades e uma lista de problemas que não desapareceria só porque uma mulher bonita tinha cruzado meu caminho.
Mas minha mente insistia em voltar para a mesma cena.
O sorriso dela.
O jeito como tentou disfarçar o constrangimento.
E aquela expressão indignada quando percebeu que eu estava me divertindo com a situação.
— Estou ferrado — murmurei, balançando a cabeça.
Nunca fui homem de perder o sono por causa de mulher. Sempre soube separar atração de sentimento e nunca prometi o que não pretendia cumprir.
Mas Larissa tinha despertado uma curiosidade diferente.
Eu queria conversar com ela, descobrir o que existia por trás daquele jeito debochado e entender como alguém conseguia ser tão segura de si sem precisar ficar provando nada para ninguém.
Só que eu não pretendia me precipitar.
Ela era amiga da minha filha, e isso exigia cuidado. Não queria colocar Tatiana em uma situação desconfortável nem transformar a amizade das duas em motivo de preocupação.
Se algum dia alguma coisa acontecesse entre nós, teria que ser de maneira natural, com respeito e sem pressão.
Era o que eu dizia a mim mesmo.
Naquela noite, porém, meu próprio cérebro resolveu me contrariar.
Sonhei com Larissa.
Não vou entrar em detalhes, porque nem eu estava preparado para a criatividade da minha mente. Só sei que acordei antes do despertador, passei a mão pelo rosto e fiquei alguns segundos olhando para o teto.
— Ah, não, caralho!
A mulher já estava invadindo até meus sonhos.
Levantei, tomei um banho frio e decidi que precisava ocupar a cabeça com alguma coisa útil.
Felizmente, tinha uma festa para organizar.
Duas semanas haviam passado desde o aniversário de dezoito anos da minha filha, e eu já estava achando que ela desistiria de comemorar. Mas Tatiana finalmente resolveu fazer a festa, e eu não economizaria esforços para proporcionar um dia especial à minha princesa.
Ela tinha passado por situações difíceis, estava trabalhando, tentando conquistar sua independência e aprendendo a lidar com os problemas familiares.
Merecia um dia de felicidade.
Logo cedo, comecei a organizar tudo.
O churrasco seria na piscina de casa, com comida suficiente para alimentar um batalhão, música e espaço para todo mundo se divertir. Dei instruções para deixar o ambiente preparado, conferir as bebidas, organizar as mesas e garantir que não faltasse nada.
Eu podia até não entender muito de decoração, mas sabia que minha filha gostava de receber os amigos com carinho.
Por isso, quando ela apareceu na cozinha e encontrou tudo encaminhado, abriu um sorriso enorme.
— Pai!
— Que foi, princesa?
— Você está fazendo tudo isso mesmo por mim?
Olhei para ela, fingindo surpresa.
— Não, garota. Estou organizando uma festa para o vizinho. Claro que é por você!
Ela veio correndo me abraçar.
— Você é o melhor pai do mundo!
Abracei minha menina e beijei sua testa.
— Você merece muito mais do que isso.
Por alguns segundos, fiquei apenas aproveitando aquele momento.
Tatiana era uma das poucas pessoas capazes de me fazer esquecer todos os problemas que existiam lá fora. Com ela, eu não precisava ser o homem que resolvia tudo, que mantinha a expressão séria ou que estava sempre preparado para uma situação complicada.
Eu só precisava ser pai.
E, se dependesse de mim, ela jamais teria dúvidas sobre o quanto era amada.
Perto das duas da tarde, os primeiros convidados começaram a chegar.
A música já tocava, o churrasco estava encaminhado e a piscina logo ficou cercada de gente conversando, rindo e tirando fotografias.
Tatiana estava radiante.
Cumprimentava os amigos, recebia os presentes e me chamava a cada cinco minutos para mostrar alguma coisa.
— Pai, olha essa foto!
— Estou olhando, filha.
— Ficou linda, né?
— Ficou maravilhosa.
— Você nem olhou direito!
— Tatiana, pelo amor de Deus! Está linda, sim!
Ela gargalhou e saiu correndo para encontrar as amigas.
Eu apenas balancei a cabeça, sorrindo.
Ser pai de uma garota de dezoito anos exigia uma paciência que eu nem sabia que tinha.
Foi quando a vi chegando.
Larissa.
Puta merda!
A mulher apareceu acompanhada de Letícia e Cauã, carregando um presente embrulhado com cuidado. Usava uma roupa leve, apropriada para o calor, e tinha os cabelos soltos.
Não sei explicar o que aconteceu comigo naquele instante.
Só sei que, por alguns segundos, esqueci até o que estava fazendo.
Ela olhou ao redor, procurando minha filha, e logo abriu um sorriso quando Tatiana veio correndo em sua direção.
— Lari!
— Feliz aniversário, minha princesa!
Larissa entregou o presente, e minha filha praticamente pulou em cima dela de tanta felicidade.
— Você veio!
— Claro que vim, menina! Eu perderia a oportunidade de comer churrasco de graça?
Tatiana começou a rir.
— Você não presta!
— E você me ama assim mesmo.
As duas se abraçaram, e fiquei observando aquela cena com uma sensação boa no peito.
Eu gostava de ver minha filha cercada por pessoas que realmente se importavam com ela. Larissa tinha se tornado uma presença importante em sua vida, e eu era grato por isso.
Quando Tatiana abriu o presente, seus olhos brilharam.
— Lari, você não precisava!
— Precisava, sim. Escolhi pensando em você.
Minha filha abraçou a amiga novamente, emocionada.
Aquilo me fez sorrir.
Larissa não precisava comprar presentes caros nem fazer grandes demonstrações para mostrar que gostava de alguém. Ela prestava atenção nas pessoas, lembrava do que era importante para elas e encontrava maneiras de demonstrar carinho.
Era uma qualidade que eu admirava.
Depois de agradecer mais algumas vezes, Tatiana chamou as meninas para a piscina.
Cauã foi o primeiro a correr para perto da água, fazendo uma cena tão exagerada que eu quase derrubei o copo de tanto rir.
— Gente, cuidado! A beleza vai entrar na piscina! — anunciou, levando a mão ao peito.
— Cauã, pelo amor de Deus! — Larissa reclamou.
— Inveja mata, querida!
— O que mata é essa sua falta de vergonha!
A gargalhada foi geral.
A tarde seguiu tranquila. Aproveitei para conversar com alguns conhecidos, conferir se estava tudo certo e curtir a companhia da minha filha.
Mas eu tinha um pequeno problema.
Não conseguia parar de olhar para Larissa.
Ela ria com Letícia, implicava com Cauã e participava das brincadeiras como se conhecesse todo mundo havia anos. Não parecia preocupada em chamar atenção, e talvez fosse exatamente por isso que eu reparava tanto nela.
Havia sinceridade naquele sorriso.
Uma leveza que me fazia bem apenas de observar.
Em determinado momento, ela jogou a cabeça para trás enquanto ria de alguma palhaçada de Cauã, e eu me peguei sorrindo junto.
Eu estava perdido nos meus pensamentos quando ouvi a voz da minha filha perto de mim.
— Disfarça, pai.
Virei o rosto.
— O quê?
Tatiana ergueu uma sobrancelha, com um sorriso malicioso.
— Você está babando na Lari!
Quase engasguei com a bebida.
— Que isso, Letícia!
Ela começou a rir.
— Eu sou a Tatiana, pai! Letícia é minha amiga!
— Você entendeu o que eu quis dizer, garota!
— Entendi perfeitamente. E a verdade é essa mesmo!
Olhei para ela, tentando manter a expressão séria.
— Vai cuidar da sua festa!
— Eu estou cuidando. Só estou aproveitando para dizer que faço muito gosto!
— Você faz gosto de quê, menina?
— De você com a Lari, ué!
Ela saiu correndo antes que eu pudesse responder, gargalhando como se tivesse acabado de ganhar na loteria.
Fiquei parado, olhando para o lugar onde ela estava.
— Essa garota está ficando abusada demais — resmunguei.
Mas a verdade era que suas palavras tinham mexido comigo.
Eu gostava de Larissa. Gostava da presença dela, do jeito como tratava minha filha e da maneira como conseguia tornar qualquer ambiente mais divertido.
Atração eu já tinha sentido antes.
O que ainda não sabia era se aquela curiosidade poderia se transformar em algo maior.
E não pretendia descobrir isso no meio da festa de aniversário da minha filha.
Pelo menos, era o plano.
Quando o relógio marcou oito da noite, os convidados começaram a se despedir. Tatiana estava cansada, mas feliz, e eu não poderia ter pedido um resultado melhor.
Aos poucos, a casa ficou mais silenciosa.
No fim, permaneceram apenas os três inseparáveis: Larissa, Letícia e Cauã, o famoso trio ternura.
Peguei meu whisky e fui até a piscina, onde os três estavam sentados conversando.
Cauã contava mais uma de suas histórias absurdas, e eu me acomodei ao lado de Larissa.
— Cheguei na parte boa? — perguntei.
— Você chegou na parte em que ele está inventando tudo — ela respondeu.
— Mentira! — Cauã protestou. — Eu sou um homem de palavra!
— Você é um homem de histórias — Letícia corrigiu.
Comecei a rir.
Em poucos minutos, estava com a barriga doendo de tanto rir das palhaçadas daquele homem. Ele tinha uma habilidade impressionante para transformar qualquer acontecimento simples em uma narrativa digna de novela.
Larissa também ria, e eu gostava de ouvi-la.
Era uma risada espontânea, sem esforço, daquelas que faziam as pessoas ao redor acabarem sorrindo também.
Por um momento, pensei que aquela noite terminaria perfeitamente.
Mas, aparentemente, a paz tinha prazo de validade.
A voz que surgiu no portão foi suficiente para mudar o clima.
— AH, ENTÃO É ASSIM, NÉ, LETÍCIA?!
Todos viramos o rosto.
Laura estava parada na entrada, com uma expressão furiosa.
Meu maxilar travou.
Lá vinha problema.
Ela entrou alguns passos, olhando para a filha como se estivesse diante de uma inimiga.
— Você faz festinha, comemora seu aniversário e não convida a própria mãe? É isso mesmo? Que ingratidão é essa?
Tatiana se levantou devagar.
— Mãe, não começa.
— Não começa? — Laura repetiu, aumentando a voz. — Você me deixa de lado para ficar com essas pessoas e ainda espera que eu fique quieta?
Então seus olhos se voltaram para Larissa.
E a expressão ficou ainda pior.
— Ah, já entendi! Deve estar ocupada demais com essa vadia oxigenada para lembrar que tem mãe!
O sorriso desapareceu do rosto de Larissa.
Cauã se levantou imediatamente, e eu coloquei meu copo sobre a mesa.
Minha filha estava diante de mim, constrangida, enquanto a própria mãe transformava um momento que deveria ser feliz em mais uma discussão.
Senti a raiva crescer, mas respirei fundo.
Não queria piorar a situação com uma reação impulsiva.
Laura, porém, parecia decidida a continuar.
— Quero ver se vai continuar toda sorridente agora, Letícia! Você acha que pode me excluir da sua vida e sair por aí fingindo que eu não existo?
Tatiana apertou os lábios, tentando conter as lágrimas.
Foi o suficiente para que eu me levantasse.
— Laura, chega.
Minha voz saiu firme, sem precisar ser alta.
Ela se virou para mim, surpresa por eu ter interrompido o discurso.
— Não se mete, Crack! Estou falando com a minha filha!
Olhei para Tatiana, depois voltei a encará-la.
— E você pode conversar com sua filha sem ofender os amigos dela e sem transformar a festa em uma guerra. Se veio aqui para resolver alguma coisa, abaixa o tom e conversa direito.
Laura soltou uma risada nervosa.
— Claro! Agora você vai defender todo mundo, menos a mãe dela!
— Não distorce o que estou dizendo. Ninguém está impedindo você de conversar com a Tatiana. Mas você não vai entrar na minha casa para humilhar minha filha ou desrespeitar as pessoas que estão aqui.
O silêncio caiu sobre a área da piscina.
Larissa permaneceu quieta, mas percebi que estava atenta a cada palavra.
Tatiana respirou fundo e finalmente falou:
— Mãe, eu não te convidei porque queria passar meu aniversário em paz. Eu não queria discutir, não queria ouvir acusações e não queria ficar no meio dos seus problemas. Só queria comemorar meus dezoito anos com as pessoas que me fazem bem.
Laura pareceu não acreditar no que estava ouvindo.
— Então é isso? Você prefere eles a mim?
Minha filha abaixou os olhos por um instante.
— Não é uma competição, mãe. Eu só queria um dia tranquilo.
E aquelas palavras, simples e sinceras, acabaram sendo mais dolorosas do que qualquer grito.
Porque, no fundo, Tatiana não estava pedindo presentes, dinheiro ou grandes demonstrações.
Estava pedindo paz.
E, enquanto observava minha filha tentando segurar as lágrimas, tive certeza de que aquela discussão precisava terminar antes que a noite se transformasse em mais uma lembrança ruim.
Eu já tinha permitido que problemas demais roubassem momentos importantes da minha vida.
Não deixaria que isso acontecesse com ela também.
Principalmente naquela noite, em que minha princesa deveria estar apenas celebrando o começo de uma nova fase.
