Capítulo 9 UM NATAL DIFERENTE

Larissa narrando

Eu estava vermelha de ódio.

Se dependesse da minha vontade naquele momento, Laura já teria recebido uma resposta muito mais contundente do que as palavras que saíram da minha boca. Aquela mulher parecia ter o dom de aparecer justamente quando Letícia estava feliz, pronta para transformar qualquer ocasião especial em uma lembrança dolorosa.

Eu estava cansada daquilo.

Cansada de vê-la atacar a própria filha, cansada das acusações sem fundamento e, principalmente, cansada de assistir à minha pequena se sentir culpada por situações que não eram responsabilidade dela.

Mas, quando olhei para Letícia, toda a minha raiva mudou de direção.

Ela estava chorando compulsivamente, com a respiração descontrolada e as mãos trêmulas. Parecia não conseguir encontrar ar suficiente, enquanto as palavras da mãe continuavam ecoando ao redor.

Meu coração apertou.

— Letícia!

Aproximei-me imediatamente, deixando Laura para trás.

— Minha princesa, olha para mim!

Ela tentou responder, mas não conseguiu. Estava assustada, e o choro tornava tudo ainda mais difícil.

Ajoelhei-me diante dela e segurei suas mãos com cuidado.

— Amor, presta atenção na minha voz. Você está aqui comigo, está bem? Vamos tentar respirar devagar, sem forçar. Olha para mim.

Seus olhos encontraram os meus por um instante, mas logo se desviaram na direção da mãe.

— Não olha para lá, meu bem. Fica comigo. Vamos fazer isso juntas.

Procurei manter minha voz tranquila, mesmo sentindo vontade de sair dali e mandar Laura embora de uma vez por todas.

— Inspira devagar, se conseguir. Agora solta o ar com calma. Isso, princesa. Não precisa ter pressa. Vamos mais uma vez.

Continuei ao lado dela, orientando-a com delicadeza, sem pressioná-la a responder ou a controlar o choro de repente.

Cauã percebeu o que estava acontecendo e correu para buscar água. Quando voltou, colocou o copo em minhas mãos, preocupado.

— Toma, amiga. Estou aqui, tá bom?

Letícia tentou beber um pouco, mas suas mãos ainda tremiam. Ajudei-a a segurar o copo, esperando que conseguisse tomar pequenos goles sem pressa.

Enquanto isso, Crack finalmente conseguiu encerrar a discussão com Laura. Não acompanhei os detalhes, porque minha atenção estava inteiramente voltada para a menina que eu abraçava.

Aos poucos, a respiração de Letícia começou a se estabilizar. O choro diminuiu, embora ela continuasse soluçando, com o rosto molhado e os olhos vermelhos.

Passei a mão por seus cabelos.

— Isso, meu amor. Estou aqui.

Ela se agarrou a mim como se precisasse ter certeza de que eu não iria embora.

E eu não iria.

Não naquele momento.

— Por que ela sempre estraga tudo? — perguntou, com a voz embargada. — Por que nunca gosta de me ver feliz?

Fechei os olhos por um instante.

Eu queria ter uma resposta capaz de aliviar aquela dor. Queria explicar por que algumas pessoas pareciam incapazes de demonstrar amor sem misturá-lo com ressentimentos, cobranças e conflitos.

Mas não conhecia os pensamentos de Laura, muito menos poderia explicar suas escolhas.

Então fiz o que sabia fazer.

Fui sincera.

— Eu não sei, meu amor. Não posso responder por ela, nem dizer o que se passa na cabeça dela. Mas sei a mulher incrível que você é.

Letícia me olhou, ainda chorosa.

— Você é uma menina maravilhosa, inteligente, carinhosa e cheia de sonhos. Não deixe que as atitudes de outra pessoa façam você acreditar que não merece ser feliz. Você não precisa diminuir sua luz para caber nas expectativas de ninguém, entendeu?

Ela assentiu lentamente.

— E quero que você se lembre de uma coisa: eu vou fazer o que estiver ao meu alcance para ver você bem. Não posso resolver todos os seus problemas, mas posso estar ao seu lado, ouvir você e ajudar a encontrar caminhos quando tudo parecer difícil.

Seus olhos voltaram a se encher de lágrimas, mas dessa vez ela conseguiu esboçar um sorriso.

— Obrigada, Lari. Por tudo.

Beijei sua testa.

— Não precisa agradecer, princesa. Você é importante para mim.

Cauã se aproximou e nos abraçou também.

— E você tem a mim, viu, sua dramática? — disse ele, tentando aliviar o clima. — Nós três somos praticamente um pacote. Veio uma, vieram os outros dois.

Letícia soltou uma risadinha entre os soluços.

— Você não presta, Cauã.

— Eu sei, meu amor. Mas sou um luxo!

Sorri, aliviada por vê-la reagir.

Ainda assim, sabia que ela precisava de tranquilidade. Não adiantaria insistir para que voltasse à festa como se nada tivesse acontecido.

— Vamos para casa? — perguntei. — Você pode descansar, tomar um banho e ficar quietinha. Hoje não precisa provar nada para ninguém.

Ela concordou.

Ajudei-a a se levantar e me despedi de Crack, que se aproximou para saber como a filha estava.

— Ela está mais calma, mas precisa descansar — expliquei.

Ele assentiu, preocupado, e agradeceu por termos ficado ao lado dela.

Antes de sairmos, olhei para minha pequena mais uma vez.

Aquela festa deveria ter sido uma lembrança feliz. Eu não podia apagar o que havia acontecido, mas podia ajudá-la a construir outras memórias, nas quais ela não precisasse ter medo de que alguém estragasse tudo.

Naquela noite, fomos para minha casa.

Preparei um ambiente tranquilo, deixei Letícia tomar banho e se acomodar, e fiquei por perto caso precisasse conversar. Cauã também permaneceu conosco por um tempo, tentando arrancar algumas risadas dela antes de finalmente irmos descansar.

Eu estava exausta.

Mas, quando me deitei, tive a sensação de que havia feito exatamente o que precisava fazer.

Letícia não precisava de uma amiga que brigasse todas as batalhas por ela. Precisava de alguém que a ajudasse a perceber que tinha direito de estabelecer limites, buscar apoio e construir uma vida em que se sentisse respeitada.

E eu faria o possível para ajudá-la a encontrar esse caminho.

Uma semana depois

O episódio na casa de Crack ainda me incomodava, mas a vida continuava.

Laura aparecia de vez em quando para provocar Letícia, e eu fazia o possível para impedir que aquelas visitas se transformassem em novas discussões. Nem sempre era fácil, mas minha pequena estava começando a compreender que não precisava entrar em todas as brigas que a mãe tentava iniciar.

Eu também estava aprendendo a não deixar que a raiva decidisse minhas atitudes.

Não queria transformar minha vida em uma disputa permanente com Laura. Minha prioridade era trabalhar, cuidar das minhas amizades e preservar a paz que havia conquistado com tanto esforço.

E, como o Natal estava chegando, decidi que faria uma pequena ceia em casa.

Nada grandioso.

Apenas eu, Letícia e Cauã.

Queria preparar uma mesa bonita, colocar uma música agradável e passar a noite com as pessoas que tinham se tornado minha família de coração.

O Natal ainda era uma data difícil para mim. A lembrança do homem que perdi continuava presente, e eu sabia que nenhuma comemoração seria capaz de apagar aquela saudade.

Mas também não queria permitir que a dor ocupasse todos os espaços da minha vida.

Eu podia sentir falta dele e, ao mesmo tempo, criar novos momentos felizes.

Uma coisa não anulava a outra.

Passei boa parte do dia organizando a casa e preparando a ceia. Cauã ficou responsável por algumas coisas, embora eu precisasse conferir tudo o que ele fazia, porque aquele homem tinha um talento especial para transformar uma tarefa simples em um evento internacional.

Letícia me ajudou a arrumar a mesa, escolhendo os detalhes e organizando os pratos.

— Amiga, ficou lindo! — comentou, admirando o resultado.

— Claro! Você achou que eu ia deixar minha ceia parecendo um almoço de segunda-feira?

— Você é muito convencida!

— Sou realista, meu amor.

Ela riu e me abraçou por trás.

— Obrigada por me deixar passar o Natal aqui.

Virei o rosto para olhá-la.

— Você não precisa agradecer por isso. Esta também é sua casa quando precisar de um lugar tranquilo.

Letícia apertou meu abraço.

— Eu te amo, Lari.

— Também te amo, minha pequena.

Aquele momento simples aqueceu meu coração.

A casa estava pronta, a comida cheirosa e a mesa organizada. Pela primeira vez em muito tempo, eu sentia que poderia atravessar aquela data sem me obrigar a fingir que estava tudo perfeito.

Quando a noite se aproximou, recebi uma mensagem de Crack avisando que passaria por ali para participar da ceia.

Confesso que reli a mensagem mais vezes do que precisava.

Não era como se eu estivesse esperando por ela.

Quer dizer... estava?

Ai, meu Deus!

Eu precisava parar de agir como adolescente diante de um homem bonito.

Depois do que aconteceu na festa de aniversário, eu sabia que existia uma atração entre nós, mas ainda não fazia ideia do que ele realmente queria. E não pretendia construir expectativas com base em um sorriso ou em algumas provocações.

Eu tinha aprendido a proteger meu coração.

Mesmo assim, confesso que fiquei um pouco mais atenta quando ouvi o som de uma moto chegando.

— Chegou! — Letícia anunciou, indo em direção à porta.

Continuei arrumando os últimos detalhes da mesa, tentando agir naturalmente.

Ouvi os cumprimentos, a voz de Crack e as risadas da minha amiga.

Então ele entrou na sala.

Meu Deus do céu.

O homem tinha escolhido justamente aquela noite para aparecer ainda mais bonito.

Estava bem vestido, perfumado e carregava uma garrafa de whisky. Cumprimentou Cauã, brincou com Letícia e depois se aproximou de mim.

— Feliz Natal, Larissa.

— Feliz Natal.

Ele me olhou por alguns segundos, com aquele sorriso discreto que parecia esconder alguma provocação.

Então se inclinou para me cumprimentar e depositou um beijo delicado perto da minha nuca.

Senti um arrepio percorrer meus ombros.

O perfume dele chegou antes que eu conseguisse organizar qualquer pensamento, e meu coração começou a bater mais depressa.

Crack aproximou os lábios do meu ouvido e falou em voz baixa:

— Você está maravilhosa. Feliz Natal.

A voz grave e rouca quase acabou com o pouco de equilíbrio que me restava.

Por fora, tentei manter a dignidade.

Por dentro, estava um verdadeiro desastre.

Meu Deus, que voz era aquela?

Respirei fundo e me afastei apenas o suficiente para olhar para ele.

— Obrigada — respondi, tentando não demonstrar o quanto aquele cumprimento tinha mexido comigo. — Você também está muito bonito.

O sorriso dele aumentou.

— É mesmo?

Droga.

Eu tinha falado demais.

— Não se acostuma, não! — respondi rapidamente. — Foi só um comentário educado.

Ele soltou uma risada baixa.

— Claro, Larissa. Educadíssimo.

Olhei para ele com uma expressão de poucos amigos, mas não consegui impedir que um sorriso escapasse.

Aquele homem estava se divertindo às minhas custas.

E o pior era que eu estava começando a gostar daquela troca de provocações.

— Venha, pai! — Letícia chamou da sala. — Se ficar aí conversando com a Lari, a ceia vai esfriar!

Crack não desviou os olhos de mim imediatamente.

— Já estou indo, princesa.

Só então se afastou, levando consigo aquele perfume que parecia ter ficado preso ao ar.

Fiquei parada por um instante, tentando recuperar a compostura.

Cauã apareceu ao meu lado com um sorriso malicioso.

— Amiga...

— Não começa.

— Eu nem falei nada!

— Mas vai falar!

Ele começou a rir.

— Só queria dizer que o Natal está trazendo presentes interessantes.

Peguei um guardanapo e joguei na direção dele.

— Vai terminar de arrumar a mesa, Cauã!

— Sim, senhora!

Ele saiu gargalhando.

Levei a mão ao peito, tentando acalmar meu coração.

Eu não sabia o que o futuro reservava, muito menos se Crack estava realmente interessado em mim. Talvez fosse apenas o jeito provocador dele, uma brincadeira sem maiores intenções.

Mas havia alguma coisa naquela aproximação que me deixava curiosa.

E eu não podia negar.

Aquele Natal estava começando de um jeito bem diferente dos anteriores.

Pela primeira vez em muito tempo, além da saudade, eu também sentia uma pequena expectativa pelo que ainda poderia acontecer.

Não sabia se estava pronta para me apaixonar novamente.

Mas talvez não precisasse decidir isso naquela noite.

Por enquanto, eu só precisava aproveitar a ceia, rir com meus amigos e permitir que a vida me surpreendesse, sem esquecer tudo o que já havia aprendido.

Afinal, meu coração podia carregar uma história antiga e, ainda assim, continuar aberto para escrever novas páginas.

E, se dependesse daquele homem e de sua voz rouca, eu desconfiava que as próximas páginas dariam muito trabalho.

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