Capítulo 1 Capítulo Um

A escova que sua mãe usava para desembaraçar o cabelo de Isla tremia em sua mão. Embora tivessem fechado as pesadas cortinas da janela horas antes para não precisarem testemunhar o cerco que acontecia ao longo da costa, em Mariseth, a capital de Tridea, isso não impedia sua mãe de lançar olhares furtivos. O cerco chegava ao décimo segundo dia. As muralhas ao redor da fortaleza onde seu pai lutava para conter o exército de Eredhal ainda resistiam, mas a pedra arrancada do mar só conseguiria suportar o poderio de Eredhal por certo tempo. Na noite anterior, inclusive, eles haviam recebido notícias. A primeira rachadura na estrutura tinha surgido.

Uma batida à porta interrompeu a atenção da rainha Cecelia no cabelo claro da filha. Ela se virou e fez sinal para que entrassem. Isla girou na cadeira e observou Claude, o guarda pessoal de sua mãe, entrar com uma expressão de neutralidade cuidadosamente construída.

— Vossa Majestade — disse ele, com uma reverência.

— Claude, o que aconteceu? — perguntou sua mãe, segurando a escova com as duas mãos, como se aquilo pudesse mantê-la firme.

Os olhos escuros de Claude passaram da rainha para a filha. Ele engoliu em seco, visivelmente. — Talvez seja melhor conversarmos em particular.

A rainha assentiu. Pousou uma mão trêmula no ombro de Isla. — Para a cama agora, Isla, querida. Não se esqueça de trançar o cabelo antes de se recolher. Não vamos querer que todo o meu trabalho duro seja desperdiçado, vamos?

— Claro, mãe — prometeu Isla.

Isla se levantou e abraçou a mãe pela cintura com força. Imaginou transferir para ela sua energia calma e o amor que recebia de volta. Afastou-se, e sua mãe segurou seu rosto entre as mãos como se fosse a última vez que se veriam. Sua mãe beijou sua testa.

— Boa noite, meu doce — sussurrou.

— Boa noite, mãe.

Isla assentiu para Claude ao passar, enquanto o guarda idoso fez uma leve reverência. Ela sentia os olhos deles em suas costas enquanto caminhava. Sentia a energia no quarto mudar quando abriu a porta, como se estivessem encenando para ela, como se ela não soubesse que seu país definhava lentamente nas mãos do exército de Eredhal.

Isla fechou a porta com calma, respirou fundo e disparou em direção ao cômodo ao lado. Era um armário de roupas de cama, pequeno e apertado. No entanto, havia uma fenda na parede que ela aprendera desde pequena que lhe permitia espiar para dentro do quarto da mãe. Ela se agachou e olhou pela fenda. Sua mãe suspirou pesadamente e se sentou na beira da cama.

— Recebeu notícias de Slade? — perguntou.

— Não, senhora. Pelo que sabemos, o castelo em Mariseth permanece forte e impenetrável. O rei Slade está firme em sua crença de que conquistará o exército antes que consigam romper as muralhas. A notícia que tenho para trazer não vem do rei, mas de alguns batedores que temos patrulhando a mata mais externa — explicou Claude, com as mãos fortemente entrelaçadas à frente do corpo.

— A mata?

— Sim, senhora — disse Claude. Ele respirou fundo. — Um acampamento foi avistado a algumas milhas para fora das muralhas de Seavale.

— Um acampamento? — Sua mãe se levantou num sobressalto. — São pessoas buscando refúgio? Precisamos abrir nossos portões para qualquer...

— Não, não, senhora... Eles hasteiam a bandeira de Eredhal.

Sua mãe se enrijeceu ainda mais, de um jeito quase impossível.

“Nossos batedores… eles avistaram o príncipe Sylvan e seu séquito mais próximo dentro do acampamento antes de a barreira ser erguida.”

A mãe dela murchou, recostando-se na cama como se alguém tivesse enfiado a mão no peito dela e roubado o próprio ar de seus pulmões. “O Assassino de Companheiras?”

Claude assentiu. “Mandamos recado ao rei Slade e solicitamos reforços, mas…”

“Vai ser tarde demais.”

A mãe dela se levantou de novo e começou a andar de um lado para o outro. A cada passo, os ombros se erguiam e se puxavam para trás. Em apenas algumas voltas pelo quarto, sua imponência havia retornado e seu rosto se endureceu.

“Ele virá atrás de mim”, declarou, sem rodeios. Isla levou a mão à boca para abafar o suspiro. As lágrimas arderam em seus olhos.

“Nós a defenderemos com tudo o que…”

“Não”, disse a mãe dela, com decisão.

“Minha senhora…”

“Slade já terá recebido as exigências do Assassino de Companheiras. A ameaça terá sido entregue a ele, e ele a terá descartado como todos os outros fizeram. Aquele tolo pomposo. Ele acha que consegue suportar a ruptura do próprio vínculo de companheiros, apesar das provas em contrário. Ele acha que ainda pode vencer.”

“E a senhora vai permitir que isso aconteça? Sem nem ao menos lutar?” perguntou Claude, com a mandíbula caída.

A mãe dela parou de andar e baixou a cabeça. Virou-se para o guarda e lhe lançou um olhar de pena. “Mariseth consegue resistir ao poder do exército de Eredhal. Não para sempre, mas por algum tempo. Seavale, porém…” Ela olhou ao redor, para o santuário que ela e Isla chamavam de lar desde o momento em que Eredhal avançou pela fronteira que separava Eredhal e Tridea. “Esta casa não foi construída para resistir ao príncipe Sylvan e às forças especializadas dele. Se ele descobriu nossa localização, colocará seus planos em prática.” Ela caminhou até Claude e ignorou séculos de protocolo ao entrelaçar as mãos dele nas suas. “Eu não vou sacrificar a vida dos meus homens, do meu povo, na esperança de adiar o inevitável. Vamos deixá-lo vir…”

“Majestade…”, disse Claude, balançando a cabeça e deixando-a pender para a frente.

A mãe dela ergueu o queixo e apertou mais o aperto no guarda. “Vamos deixá-lo vir”, repetiu. “Vamos deixá-lo me levar, e a guerra vai acabar. Meu povo não será mais massacrado. Não vai mais passar fome. Os doentes não serão mais amontoados nas ruas, descartados como lixo. Uma vida, Sir Claude, por milhares. É um sacrifício que nosso rei se recusa a fazer, mas do qual eu não vou me esquivar.”

“Vossa Majestade”, protestou Claude, com a voz fraca, sabendo que, uma vez que sua rainha tomava uma decisão, não havia como mudá-la. “Eu não posso permitir que a senhora faça isso.”

“Pode”, disse ela. Embora o rosto estivesse firme, a mente resoluta, seus olhos brilhavam com lágrimas contidas. “Pode e vai, porque seu dever não é apenas comigo, mas com minha filha. Ela é quem precisamos proteger. Ela é quem não podemos deixar o Assassino de Companheiras pôr as mãos. Isla é quem, dentro destas paredes, devemos proteger até o nosso último suspiro. Você vai levá-la, Sir Claude. No meio da noite, vai colocá-la em segurança, longe daqui. Vai levá-la até o barco. Vai devolvê-la a Ameretta, onde ela pertence. Vai manter a Princesa de Tridea em segurança. Prometa isso. Jure para mim, agora”, exigiu ela, com a voz feroz.

Claude desembainhou a espada e se ajoelhou sobre um joelho. Baixou a cabeça e segurou a lâmina atravessada sobre as duas mãos, apresentando-a para cima à sua rainha. “Eu juro, Vossa Majestade.”

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