Capítulo 2 Capítulo Dois

Isla irrompeu pelas portas do quarto e as bateu atrás de si. A respiração vinha aos solavancos; o peito subia e descia com força enquanto ela se encostava nas portas, lutando contra as lágrimas que, desobedientes, ainda assim escorriam por suas bochechas. Fechou os olhos e inclinou a cabeça para trás, em direção ao teto. O Assassino de Companheiros. Príncipe Sylvan de Eredhal. Ele estava ali, do lado de fora do refúgio. Só podia significar uma coisa: sua mãe morreria em breve. Um sacrifício, era como ela chamava, quando na verdade era uma brecha, um jeito fácil de encerrar uma guerra longa entre as duas nações. A morte de um companheiro incapacita o sobrevivente. O príncipe Sylvan já tinha usado isso incontáveis vezes em batalhas das quais se cansava. Um guerreiro valente, diziam as vastas terras, quando na realidade ele não passava de um covarde.

Isla abriu os olhos. As lágrimas secaram. Ela cerrou os punhos. Não. Ela não permitiria que ele acrescentasse mais uma mulher indefesa à sua lista de sacrifícios. Ele não mataria sua mãe para pôr fim a uma guerra que não tinha outro jeito de vencer. Isla se afastou da porta e caminhou até o guarda-roupa. Livrou-se da camisola e vestiu seu vestido mais leve. Calçou as botas de montaria e enfiou no bolso as três facas que seu pai lhe dera antes de partir para a guerra, tantos anos atrás. Então fez como a mãe pedira: trançou o cabelo.

Sem perder tempo pensando nas consequências de seus atos, Isla amarrou os lençóis uns aos outros e os jogou para fora da sacada. Desceu com cuidado, como já fizera inúmeras vezes, e aterrissou com um baque suave no telhado das cocheiras. Abriu a escotilha e escorregou para dentro do palheiro. Os cavalos sob seus pés relincharam baixo e se remexeram, sentindo um intruso entre eles. Ela avançou com cuidado pelo feno até a escada. Algo prendeu seu tornozelo e ela abafou um grito ao cair de cabeça numa pilha de feno recém-fofada. Sentiu um peso se arrastando sobre ela. Agiu. Isla puxou uma faca da saia, virou-se de costas e ergueu a lâmina, arranhando a garganta do homem que a prendia.

— Calma, calma, calma... — disse a voz familiar, recuando para que a faca não cortasse mais fundo. Uma lanterna tremeluzente se acendeu e o rosto de Noah surgiu. As sobrancelhas dele se franziram sobre os olhos. — Isla? O que você...

— Sai de cima de mim — ela sibilou, empurrando o peito dele.

Noah cedeu depressa. Isla se pôs de pé e correu de novo para a escada.

— Isla, o que você está fazendo? — Noah enfim concluiu, enquanto a seguia escada abaixo e pendurava a lanterna num gancho para iluminar a frente das cocheiras. Isla foi até a baia de seu garanhão cinzento, que soltou um relincho baixo em reconhecimento.

— Vou levar o Luoen para um passeio — disse Isla, omitindo os detalhes principais do seu plano.

— Um passeio? Está quase meia-noite. A Rainha vai arrancar minha cabeça! — protestou Noah, seguindo-a enquanto ela pegava a sela e o freio.

— Se fosse assim, você já teria perdido a cabeça uma dúzia de vezes — retrucou Isla, jogando os arreios na porta da baia de Luoen antes de entrar.

— Um acampamento de Eredhal foi avistado aqui perto, Isla. Você não pode sair dos limites do castelo — disse Noah, a voz ficando mais firme enquanto ela selava Luoen.

Ela não respondeu. Afinal, sabia muito bem que havia um acampamento. Luoen percebeu que algo estava errado. Enquanto ela o selava com movimentos deliberados, o cavalo treinado para a batalha sentiu sua determinação e se deslocou sobre as patas, pronto para lutar.

— Ah, minha Deusa... Você sabe do acampamento, não sabe? — perguntou Noah. Os olhos de Isla se voltaram para ele por um instante, antes de retornarem ao que estava fazendo. — Você vai para lá.

— Eu consigo atravessar as barreiras — ela disse por fim.

— Você pretende se infiltrar no acampamento?! — Noah gritou.

— Shhhh! — Isla sibilou.

— Você só pode estar brincando! O príncipe Sylvan foi visto no acampamento! Mesmo que você atravessasse as barreiras, o que você não tem como saber, já que não conhece a magia que este reino empunha, o que você espera fazer depois? — perguntou Noah, o rosto uma máscara de choque.

— Eu pretendo matar o homem antes que ele mate minha mãe — respondeu Isla.

— Você é maluca! Você nem tem sua loba, Isla!

Isla colocou o freio em Luoen e suspirou. Encostou a bochecha na testa do garanhão e respirou fundo.

— Talvez eu esteja sem loba — concedeu ela. — Mas há magia dentro de mim. Uma magia que me permite romper barreiras. — Virou-se para encarar Noah, um homem de quem se tornara amiga ao longo dos anos que passara presa dentro daquelas muralhas, enquanto esperava, aprendia, se preparava. — Se alguém pode detê-lo, sou eu.

Noah balançou a cabeça. Seus olhos escuros se encheram de incredulidade. — Mesmo que você consiga atravessar as barreiras, Isla. Você vai ser contaminada pela magia da bruxa. Pode te ferir… te matar. No mínimo, vai te marcar. Ele ou ela vai conseguir te rastrear e, se você tiver sucesso? Se você matar o Assassino de Companheiros? — Noah balançou a cabeça de novo, sem precisar explicar as consequências das ações dela.

— Eu não vou ficar parada e permitir que minha mãe seja assassinada, sacrificada por este país, por mim. — Ela juntou as rédeas nas mãos e caminhou até a porta da baia, com Luoen seguindo fielmente atrás. — Eu não vou deixar que me afastem correndo de uma luta, não quando todo mundo vai arriscar a vida. Você pode sair do meu caminho ou pode vir me ajudar. De um jeito ou de outro, eu vou sair por aquela porta e vou lutar. Qual vai ser?

O vento açoitou a pele de Isla enquanto Luoen galopava sob a copa densa que cercava Seavale. Noah vinha montado logo atrás. Ela conseguia sentir as dúvidas dele, a negatividade, o medo, enquanto ele a seguia. Sabia que ele não pararia de tentar dissuadi-la, assim como ele sabia que ela não pararia até cumprir sua missão. Por sorte, Isla conhecia as rotas dos batedores de Seavale e conseguia evitar os caminhos deles com facilidade.

Levou quase uma hora em galope total até que a luz das barreiras ao redor do acampamento surgisse entre as árvores. Isla puxou Luoen até parar e deslizou para fora da sela. Embora estivesse pronta para aquela luta, isso não impedia os nervos de revirarem seu estômago, uma e outra vez. Preparar-se para algo assim não era nada parecido com vivê-lo de fato. Ela precisava ter cuidado. Eredhal tinha seus próprios batedores. Armadilhas eram muito provavelmente espalhadas, guardas posicionados no meio das árvores. Mas, conforme ela e Noah se aproximavam do acampamento, nada se mexia na floresta. Talvez o exército de Eredhal fosse mais arrogante do que ela imaginava. Afinal, ela e a mãe estavam escondidas. Manter uma grande presença militar concentrada numa pequena cidade litorânea chamaria atenção demais. Elas estavam ocultas, mas vulneráveis, e o Assassino de Companheiros saberia disso.

Não demorou para que chegassem perto da borda do acampamento. Noah puxou o ar com força atrás dela quando o limite da barreira entrou em foco. A parede tremeluzente, roxa e verde, envolvia o acampamento e se erguia para além do céu noturno. Ela cintilava em sua beleza mortal, impedindo qualquer um — mágico ou comum — de atravessar sua proteção. Em todas as suas leituras, Isla nunca tinha ouvido falar de uma tão grande, tão avassaladora. Quem quer que a tivesse erguido seria uma das bruxas mais poderosas que ela já encontrara. Mas, é claro, o príncipe Sylvan só trabalhava com os melhores.

Isla se virou e entregou as rédeas de Luoen a Noah. Voltou-se para a parede e respirou fundo. Antes que pudesse erguer o pé, a mão de Noah agarrou seu pulso.

— Não faça isso, Isla. Por favor, eu estou implorando.

Isla não olhou para trás. Sabia que, se olhasse, daria de cara com uma expressão de devoção profunda e sinceridade. Só tornaria tudo mais difícil.

— Eu preciso fazer isso, Noah. Preciso fazer a minha parte para salvar o meu reino.

— Você sabe quantas pessoas disseram essas mesmas palavras antes de tentar matar o Assassino de Companheiros? Sabe quantas delas estão vivas hoje? Nenhuma, Isla. Se a barreira não te matar, os soldados vão. Mesmo na chance mínima de você chegar até a tenda dele, ele é o guerreiro mais forte que já pisou nesta terra. Ele. Vai. Te matar. Isla. Sem nem piscar. Por favor… — o aperto dele se intensificou. — Não…

— Eu sou sua superior — Isla interrompeu, a voz afiada e imperativa, odiando que o argumento dele a fizesse duvidar da própria decisão. — Eu sou sua princesa. Você é só um tratador de estábulo. Você não sabe de nada. — Noah soltou o pulso dela como se as palavras tivessem queimado sua pele. — Vá para casa, Noah. Se eu morrer aqui, então eu morro lutando pela mesma coisa que meu pai lutou anos para conquistar. A mesma coisa pela qual minha mãe está disposta a se sacrificar. Eu consigo viver com isso. E você também deveria.

Sem esperar mais um instante, nem lhe dar uma segunda chance de estender a mão para ela, Isla avançou. Ela alcançou a barreira mágica, respirou fundo, fechou os olhos e deu um passo.

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