Capítulo 4 Capítulo Quatro
Uma mão circundou o pulso dela. Isla arfou quando foi arremessada de lado e caiu com força de costas. Um peso enorme se acomodou sobre ela, cortando sua capacidade de puxar ar para os pulmões ou gritar por ajuda. Algo afiado roçou sua garganta, e ela percebeu que era a própria adaga. A mão que prendia seu pulso se apertou, forçando a lâmina para cima. Ela inclinou a cabeça para trás, alongando o pescoço para que a faca não cortasse nada vital. Um ronco baixo vibrou através do peso sobre ela e atravessou seu corpo, fazendo-a arfar.
— Eu disse aos homens que não queria nenhum entretenimento esta noite — uma voz baixa e calma falou acima dela. Ela sentiu o nariz dele roçar da parte exposta do seu peito até a clavícula. — Mas, por outro lado, você tem um cheiro bom pra caralho.
Os dentes dele arranharam de leve a garganta dela. Isla estremeceu com violência e suas pálpebras tremularam, fechando-se. Deusa, por que o toque dele parecia impecável?
— Você se banhou no mar antes de a levarem até mim?
O jeito como sua cabeça estava forçada para trás a impedia de ver o rosto dele, mas ela conseguia senti-lo em toda parte. A manta de pele que o cobria separava seus corpos. A mão que não aprisionava o pulso dela estava pressionada no catre ao lado, sustentando parte do peso dele, enquanto o nariz e os lábios continuavam a percorrer o peito, o pescoço e a linha do maxilar dela. Ele estava duro. Inteiro. Como se o corpo dele estivesse tensionado a ponto de estalar por estar sobre ela. Em resposta, o corpo dela pareceu se liquefazer, como se estivesse pronto para receber o que quer que ele julgasse adequado lhe dar. Ela lutou contra a névoa que turvava sua mente, lutou contra o impulso de se entregar ao que quer que a estivesse fazendo esquecer a própria existência. Ainda assim, era impotente diante do domínio aparentemente antinatural que ele tinha sobre seu corpo. Então ele puxou a pele que os separava, e a mente dela se apagou por completo.
— Qual é o seu nome? — ele soprou junto à orelha dela, antes de prender o lóbulo entre os lábios.
— Isla — ela respondeu como se estivesse sendo ordenada, sem perceber que definitivamente não deveria estar revelando esse tipo de informação a aquele homem.
— Por que você levou uma faca para a cama, Isla? — ele perguntou, enquanto a boca descia e a língua dele varria o corte que fizera na garganta dela.
Isla gemeu quando a língua dele sumiu, substituída pela maciez flexível dos lábios. Ele deixou os quadris caírem contra os dela, e ela sentiu a dureza do sexo dele pressionar entre suas pernas. O corpo dela se projetou para cima. Ela arqueou a coluna, apertando-se mais contra ele. Ele gemeu em resposta, esfregando os quadris nos dela como se fosse tão impotente diante da energia que fluía entre os dois quanto, de algum modo, ela era. Nenhum homem jamais a tocara antes. Isla nunca tinha sido beijada, nunca tinha sentido desejo, nunca tinha sentido isso.
Ela percebeu que a mão livre estava agarrada ao braço dele, e que suas unhas cravavam na pele. Como se fosse movido por um instinto lapidado ao longo de séculos, ele começou a se esfregar nela. A única coisa que o impedia de reivindicar o corpo dela eram as camadas do vestido fino, que subia devagar pelas pernas. A respiração dele estava quente contra o ombro dela. Ele gemeu baixinho, um som tão vulnerável, apavorado e confuso que fez com que ela quisesse envolver as pernas ao redor dele e acariciar suas costas, para tranquilizá-lo.
— Por que você tem um cheiro tão gostoso pra caralho? — ele sussurrou, desesperado, na curva do pescoço dela.
A respiração dela vinha em arfadas curtas e rasas, enquanto se perguntava como ele podia sentir o cheiro dela. Haviam lhe dito por anos que ela não tinha cheiro, pelo fato de não ter lobo. Enquanto isso, o próprio cheiro dele — macho aquecido misturado com uma especiaria cítrica — a deixava tonta. Ele puxou o pulso dela para o lado e o prendeu ao catre, forçando o punho a se abrir e a adaga a cair. Os dentes dele roçaram o pescoço dela, tirando sangue, que ele imediatamente sugou ao fechar a boca inteira sobre a pele dela.
— Porra, por que você tem um gosto tão bom? — ele perguntou, a voz carregada de algo que ela nunca tinha ouvido ninguém dizer.
As presas do Príncipe, agora alongadas, arrastaram-se pela garganta dela e desceram até o lugar onde, um dia, seu companheiro a marcaria. A mão ao lado dela se ergueu e se enfiou pelos fios presos na nuca, segurando-a firme. Enquanto o membro dele continuava a pulsar contra ela, exigindo que uma conexão fosse feita, a mandíbula dele se abriu contra o pescoço dela e os dentes perfuraram sua pele.
A realidade voltou com um estalo. Ela gritou de dor, e o som foi o bastante para interromper as ações dele. Ele soltou o próprio suspiro ofegante e recuou. Sem a adaga pressionada contra o pescoço, ela ergueu a cabeça ao mesmo tempo em que ele levantou o olhar para ela. Prata derretida, como aço líquido, a encarou de volta, arregalada, por apenas um instante antes de o negro das pupilas explodir. O preto se espalhou pelos olhos dele até não haver nada olhando para ela além de um vazio que ela só tinha visto entre o branco cintilante das estrelas no céu sem lua. A expressão de choque se transformou e se retorceu, virando raiva e nojo. Isla arfou e olhou para a direita, procurando a adaga que ele havia descartado poucos instantes antes. Ela estendeu a mão para o cabo cintilante.
— Acho que não — ele rosnou, movendo-se como um relâmpago para agarrá-la antes que ela conseguisse.
Mais uma vez, o metal frio da lâmina foi pressionado contra o pescoço dela, só que desta vez o fio ameaçava arrancar-lhe a cabeça dos ombros se ela sequer se mexesse de um jeito que ele não aprovasse. Isla encarou o Príncipe, o maior inimigo de sua família, o homem que havia massacrado seu povo, que ameaçava matar sua mãe, que quase lhe tirara algo que ela jamais poderia recuperar… e ela praticamente implorara para que ele o fizesse.
— Me solta! — ela cuspiu.
— Quem é você?
— Não uma puta, como você foi rápido em presumir — Isla rosnou entre os dentes. Um calor intenso lhe cobriu a pele quando a percepção do que ela quase tinha feito inundou sua mente.
Um sorriso lento repuxou o canto dos olhos negros dele. — Você poderia ter me enganado. — Ele se inclinou mais para perto, a lâmina cortando um pouco mais fundo enquanto o hálito dele roçava o rosto dela. — Que tipo de artimanha é essa?
Ela estreitou os olhos para ele. — Eu não preciso de truques pra fazer o que eu vim fazer aqui.
— Ah, é? E o que é?
— Eu sou a sua morte — Isla disse.
Ele olhou, de propósito, para a adaga encostada na garganta dela. — Parece que você vai precisar fazer umas acrobacias se quiser levar vantagem aqui.
— Não — ela disse, a voz baixa, carregada de certeza.
Os dedos que ela vinha usando para vasculhar as saias se fecharam em torno do que precisava. Isla puxou outra adaga da cintura e a cravou na lateral dele. O Príncipe soltou um grunhido. As sobrancelhas dele se contraíram, e os olhos perderam aquela coloração… “normal”. Ele olhou entre os dois, da adaga enterrada nele até o cabo. Então ergueu o olhar de volta para ela, confusão misturada com algo parecido com admiração. Isla levantou o joelho, mas antes que pudesse enfiá-lo na virilha dele, ele rolou. Eles pararam a alguns metros dali, mas a posição não tinha mudado.
Os dois respiravam com dificuldade. O Príncipe fez uma careta ao erguer a mão e prender os dois pulsos dela com uma só. Depois baixou a outra mão para puxar a adaga do próprio flanco, sibilando de dor. Ele arremessou a lâmina por cima da cabeça dela, para algum lugar onde ela não pudesse alcançar. Isla se debateu sob ele, tentando se soltar. Quando ele pressionou os quadris contra os dela de novo, ela parou de repente e o encarou.
Ele sorriu de lado, um arqueio brincalhão nos lábios que desmentia o status de deus-guerreiro que o acompanhava por onde passava. — Você pode não ser uma puta, mas com certeza sabe provocar um homem como uma.
— Me solta!
— Acho que não.
— Eu vou te matar!
— Acho que também não vou deixar você fazer isso. Quem é você?
— Eu já te disse.
— Isla, vulgo Minha Morte, eu sei. Mas por quê? Como eu te prejudiquei? Por que usar essa tática pra me enganar, hm?
Ela mostrou os dentes e fez uma última tentativa de se desvencilhar dele, rolando para longe. Gritou, frustrada com o quanto seus movimentos mal o afetavam.
— Não sei de que truque você está falando. Sou só mais uma defensora de Tridea, aqui para proteger minha rainha e cortar a cabeça da cobra.
Ele ergueu uma sobrancelha, curioso, antes de baixar o olhar para onde o peito dela roçava no dele.
— Eu não sabia que Tridea era progressista a ponto de permitir guerreiras entre suas fileiras. Tenho que admitir, estou impressionado. Não tanto com a execução, mas a ideia é boa. Como você passou pela minha proteção?
Ela sorriu para ele, e as pupilas dele se dilataram por uma fração de segundo. Isla ergueu o rosto na direção dele.
— Eu atravessei andando.
Então deixou a cabeça cair de volta no chão.
Enquanto os olhos prateados dele continuavam a escrutiná-la, Isla prendeu a respiração e olhou para a aba da tenda. Um grande alvoroço podia ser ouvido. Uma dúzia de vozes exclamou, preocupada. Lobos uivaram e o aço tinia quando um grupo de homens correu na direção da tenda do Príncipe. Ela olhou de volta para ele.
— Então me mata logo e acaba com isso — rosnou.
Ele comprimiu os lábios e puxou-os para o lado.
— Sinto muito, não posso fazer isso.
A boca dela se abriu, boquiaberta.
— O quê? Claro que pode! Você é o Príncipe Sylvan, o Assassino de Companheiras!
Ele soltou uma risada baixa e aproximou o rosto do dela, até que os olhares se prenderam e colidiram.
— Se fosse só isso, você já estaria morta.
As sobrancelhas de Isla se franziram, confusas. Antes que pudesse insistir, a aba da tenda se escancarou, e vários homens entraram, irrompendo lá dentro.
— Alteza! Houve uma invasão! Delilah sentiu uma…
A explicação sincera do homem cessou quando ele notou seu comandante pairando sobre uma mulher no chão. Isla desviou o olhar, envergonhada por ter sido pega nessa posição, com um guerreiro real nu em cima dela.
— Majestade — interrompeu uma voz feminina. — Eu posso contê-la, se o senhor…
Ela não conseguia ver o rosto do Príncipe, mas sentiu quando ele virou a cabeça para a mulher, e o que quer que houvesse em sua expressão a silenciou. Então Isla sentiu os lábios dele perto de sua orelha.
— Se isso não é truque, então vamos testar, certo? — ele sussurrou e, contra a própria vontade, a rouquidão desesperada em seu tom a fez estremecer e reprimir um gemido. — Durma.
A ordem foi suave, sutil, mas ainda assim uma ordem. Apesar de ela não ter lobo. Apesar de ele não ser o alfa dela. Apesar de o cérebro dela querer lutar contra aquilo, seu corpo e sua mente eram impotentes diante do comando. A escuridão se infiltrou ao redor de sua visão e a engoliu por completo.
