Um número desconectado

Deslizei o último item pessoal para dentro de uma caixa de papelão, fechei as abas e limpei a mesa.

Mesmo escritório. A mesma parede de vidro. A cidade lá fora parecia uma faixa fria de aço. Isso já foi meu campo de batalha. Agora era só um ponto de transferência.

A porta não foi anunciada com batida.

Clique.

Selena entrou como se fosse dona do lugar. Lucas veio logo atrás, no ombro dela — terno sob medida, sorriso ameno, olhos brilhando demais.

Ela olhou para a caixa na minha mesa, erguendo a sobrancelha. O tom era pura condescendência. — Tá arrumando as coisas pra quê? Já terminou de fazer sua birrinha de ontem à noite?

Não respondi. Continuei me mexendo, tirando um pendrive reserva da gaveta e enfiando no bolso.

Selena se aproximou da minha mesa e bateu um documento na minha frente, dando tapinhas nele com a unha. — Perfeito. Você tá aqui. Assina isso.

Li o cabeçalho.

Alteração de Entidade Corporativa da Fundação & Transferência de Controle Executivo.

De queixo erguido, ela falou como se fosse óbvio. — O Lucas precisa de uma plataforma pra praticar. Sua fundação… passa pra ele. Você vive dizendo que me apoia, não vive? Se me ama, seja generoso uma vez na vida.

Na hora, Lucas vestiu a máscara de humildade. — Selena, não. O Arthur trabalhou anos pra construir isso… eu só quero ajudar você a carregar o peso.

Voz macia. Palavras limpas.

Mas os olhos dele foram do contrato para o relógio no meu pulso, depois para a caneta na minha mesa — medindo, precificando, reivindicando.

Por fim, olhei para os dois.

O rosto da Selena dizia: você vai ceder.

Os olhos do Lucas diziam: é melhor você saber o seu lugar.

Por dentro, não havia nada. Nem raiva. Nem amargura. Nem sequer desprezo suficiente para gastar.

— Tudo bem — eu disse.

Selena congelou por meio segundo, como se tivesse preparado um discurso e o palco tivesse sumido. Então o sorriso voltou — brilhante, vitorioso. — Assim que eu gosto. Você devia ter sido obediente assim desde o começo.

Peguei a caneta, abri na página de assinatura e nem me dei ao trabalho de ler mais uma linha.

Quando a ponta tocou o papel, o alívio foi quase sem peso.

Assinei.

Então empurrei o documento de volta pela mesa, limpo e definitivo.

Lucas pegou com dedos que mal conseguiam esconder o tremor, como um homem recebendo uma mina de ouro. Ele não conseguiu disfarçar a satisfação no rosto, mesmo enquanto fingia ser gentil. — Arthur… obrigado. Não se preocupe. Vou tocar a fundação ainda melhor do que você tocou.

Pousei a caneta. Minha voz continuou calma. — Antes de “tocar” qualquer coisa, aprende a ler o que acabou de pegar.

O sorriso da Selena trincou. Um incômodo brilhou nos olhos dela. — Lá vem você de novo. Você assinou. É isso que importa. Não vem com ironia. O casamento é semana que vem — não arruma confusão.

— O casamento? — Eu olhei para ela e fiz um leve aceno de cabeça. — Espero que vocês dois se divirtam.

A testa dela se fechou num estalo. — O que isso quer dizer? A gente vai se casar. Não distorce.

Eu não expliquei.

Ergui a caixa, passei por eles e fui em direção à porta. Quando passei por Lucas, ele instintivamente abriu espaço — como se tivesse medo de eu mudar de ideia.

Parei por meio segundo e virei o rosto. — Tenta não quebrar a cadeira.

Lucas abriu um sorriso mais largo, polido demais. — Nem me passaria pela cabeça.

Selena cruzou os braços, como uma juíza proferindo a sentença final. “Você pode ir embora, mas não se esqueça — a fundação é o nosso futuro. Já que você finalmente está agindo como um adulto, não vou te tratar com injustiça. No dia do casamento, você aparece na hora.”

Eu não olhei para trás. Abri a porta.

Bum.

Ela se fechou atrás de mim, e o mundo ficou quieto.


Quando as portas do elevador se fecharam no fim do corredor, eu conferi o celular.

Notificação atrás de notificação:

Transferência de ativos concluída.

Titularidade de patente recadastrada.

Autorizações de canais de financiamento revogadas.

Privilégios de assinatura de contas removidos.

Não era vingança.

Era simplesmente tomar de volta o que era meu.

O “sucesso” daquela fundação sempre tinha sido sustentado por alguns pilares — meus licenciamentos de patentes, minhas garantias pessoais de crédito e as rotas de financiamento da cadeia de suprimentos que eu construí ao longo de anos.

Nada disso pertencia à Selena. Nada disso pertencia ao Lucas.

Pertencia a mim.

E a própria fundação estava acorrentada a um acordo de aposta por desempenho: se não atingisse as metas trimestrais, as cláusulas eram acionadas — os juros disparavam, os ativos congelavam, e o titular da pessoa jurídica ficava com a responsabilidade.

Antes, ela imprimia dinheiro, porque eu alimentava aquilo.

Agora eu tinha arrancado a raiz.

Só restava uma casca lindamente embrulhada com uma bomba fazendo tic-tac lá dentro.

O elevador chegou ao saguão. Eu saí. O ar frio bateu no meu rosto. O sol estava afiado o bastante para doer.

Eu não senti nenhuma vontade de olhar para trás.

Nem as expressões deles valiam a pena guardar na memória.


Naquela noite.

Eu não estava lá, mas não precisava estar. Não era um palpite. Era matemática.

Um homem como Lucas, no instante em que se senta naquela cadeira, não começa por auditorias, contratos ou fluxo de caixa. Ele começa pela fantasia do poder.

A realidade não decepcionou.

Selena me mandou duas fotos: Lucas na minha cadeira, os pés na beira da minha mesa, girando um copo de uísque. Legenda: Viu? Ele combina mais do que você jamais combinou.

Eu nem abri. Apaguei.

Um minuto depois, ela mandou um vídeo curto. Lucas latiu com uma assistente fora de quadro. “Traga o café mais caro que vocês tiverem. O amargo. É isso que chefe toma.”

A voz da Selena entrou, suave, corrigindo. “Eu gosto de latte com canela. A temperatura tem que estar no ponto.”

Lucas nem ergueu os olhos. “Tá, tá, tanto faz. Para de ficar em cima. Eu tô lendo.”

A irritação nem estava escondida. Ele não se deu ao trabalho.

O sorriso da Selena vacilou — só um piscar de fratura, como vidro pegando uma fissura fina. Ela parecia querer dizer alguma coisa, depois engoliu, forçando a compostura a voltar ao lugar.

Mas o corpo dela já tinha registrado a queda.

Porque ela se lembrava de como eu fazia.

O gosto exato. A temperatura exata. Se a borda precisava de açúcar. Se ela queria quente ou gelado quando o humor caía. Eu nunca a “mimava”. Eu gerenciava variáveis. Eu controlava os detalhes.

Agora Lucas a tratava como ruído de fundo.

Você não precisa de palavras para esse tipo de contraste. Vai direto para os nervos.

Alguns minutos depois, meu celular vibrou de novo.

Uma mensagem de voz da Selena. No instante em que apertei para reproduzir, a ordem dela veio, apertada de raiva:

“Arthur, você já terminou? Para de fazer birra como uma criança. O casamento é na semana que vem. Chega — vem pra casa.”

Eu ouvi uma vez e apaguei.

Porque ela tinha mandado para um número desligado.

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