O trono na chuva

Selena jogou o celular sobre a mesa de cabeceira. A tela continuava acendendo e apagando — todas as ligações para Arthur, sem resposta.

Ela franziu a testa. Não por preocupação.

Por irritação.

“Ainda não atende?” Lucas se recostou na cabeceira, uma taça de vinho na mão, o tom pingando divertimento. “Parece que seu marido finalmente aprendeu a fazer birra.”

“Birra?” Selena soltou uma risada fria e jogou o cabelo para trás, afastando-o do rosto. Os olhos estavam cheios de uma certeza presunçosa. “Arthur sempre foi bom numa coisa só — fazer um teatrinho patético. Fazer-se de ferido. Fazer-se de orgulhoso.”

Ela saiu da cama descalça e atravessou o carpete macio até a janela do chão ao teto. Do lado de fora, a chuva castigava a cidade, transformando o horizonte neon em faixas borradas de cor.

“Ele está ignorando minhas ligações porque quer que eu corra atrás dele”, disse com leveza. “Mas ele esqueceu uma coisa.”

Ela se virou, um sorriso sutil e superior curvando os lábios.

“Eu sou o mundo inteiro dele. Sem mim, ele não é nada.”

Lucas soltou uma risada baixa. “Então por que ligar pra ele?”

Selena voltou até a cama e se inclinou, uma mão fechando no colarinho da camisa dele. A voz ficou doce, perigosa.

“Eu estava lembrando para ele não esquecer o banquete da família amanhã à noite. Como meu marido, ele deveria saber se comportar.”

Então o olhar dela escureceu, pousando em Lucas.

“E você”, ela sussurrou, “é quem eu realmente quero.”

Lucas segurou o queixo dela entre dois dedos. “Você não tem medo de ele descobrir?”

“Descobrir?” Selena sorriu como se ele tivesse contado uma piada. “Arthur não consegue viver sem mim. Mesmo que ele descubra, tudo o que vai fazer é tentar mais. Vai fazer de tudo para provar que ainda é útil.”

Ela virou o celular com a tela para baixo e parou de olhar para ele de vez.

Na mente dela, o silêncio de Arthur significava uma coisa só.

Ciúme.

Um joguinho barato para fazê-la olhar para trás.

E ela tinha absoluta certeza de que, mais cedo ou mais tarde, ele voltaria rastejando bem de volta.


Do outro lado da cidade, em outro quarteirão, a chuva caía como lâminas.

Eu estava debaixo de um poste de luz apagado, o casaco encharcado, água escorrendo do meu maxilar. A rua estava vazia demais. Nenhum carro de patrulha. Nenhum tráfego de madrugada. Só o trovão roncando em algum lugar além das nuvens negras.

Ergui os olhos para o céu.

Então a noite se rasgou.

O rugido veio primeiro.

Helicópteros Black Hawk rasgaram a tempestade, holofotes varrendo a rua como olhos de julgamento. Logo atrás veio um comboio interminável de Maybachs blindados, os pneus esmagando as poças de água, levantando nuvens de névoa branca.

Pareciam caixões em movimento.

Negros. Silenciosos. Imparáveis.

O comboio se espalhou diante de mim e isolou o quarteirão inteiro em segundos. Barreiras de aço desceram. As câmeras de rua se apagaram. Os únicos sons que restaram foram o pulsar pesado dos rotores e o ronco profundo dos motores.

Então os brasões se acenderam.

Nas portas. Nos corpos dos helicópteros.

Uma insígnia vermelho-escura floresceu através da chuva como uma flor do inferno — antiga, sangrenta, absoluta.

Para mortais, pareceria uma força militar de operações secretas.

Para o mundo sobrenatural, significava outra coisa.

Medo.

O tipo que fazia monstros abaixarem a cabeça e recuarem sem que ninguém precisasse mandar.

Eu não me mexi.

A porta do primeiro carro se abriu.

Uma fila de elites vestidos de preto saiu em formação perfeita. No instante em que as botas tocaram o asfalto alagado, todos caíram sobre um joelho ao mesmo tempo.

“Bem-vindo—”

As vozes foram quase engolidas pela tempestade, mas ainda assim soou como se o próprio chão estivesse falando.

Então ouvi a segunda porta se abrir.

E ela saiu.

Cabelos platinados, encharcados de chuva e grudados nos ombros, ainda brilhando como uma lâmina no escuro. Um sobretudo preto envolvia a figura alta e impecável, estalando ao vento enquanto ela atravessava a rua de salto, cada passo deliberado, predatório, inquestionável.

Isabella Cross.

Primeira Princesa da família Cross.

Os olhos dela passaram pela multidão ajoelhada e se fixaram em mim no mesmo instante, como uma predadora reclamando o que sempre tinha sido dela.

Naquele único olhar, vi tudo o que ela enterrou por três longos anos.

Obsessão.

Posse.

Uma fome tão intensa que beirava a loucura.

Ela parou na minha frente e ergueu uma mão pálida até o meu rosto. As pontas dos dedos estavam frias por causa da chuva, mas a força por trás delas queimava.

“Arthur”, ela disse baixo.

Ela não disse meu nome.

Ela o cuspiu entre os dentes.

Antes que eu pudesse responder, ela se ergueu na ponta dos pés, segurou a nuca por trás e me beijou com força.

A chuva se misturou ao hálito dela enquanto ela se impunha, feroz e sem vergonha. Não era um beijo.

Era uma reivindicação.

Uma declaração.

Como se ela pretendesse engolir, num único fôlego, todos os anos vazios entre nós; como se quisesse que o mundo inteiro entendesse que eu nunca tinha pertencido de verdade a lugar nenhum além dali.

Ao nosso redor, todas as cabeças se abaixaram ainda mais.

Até olhar parecia blasfêmia.

Por fim, ela se afastou, a testa encostada na minha, a voz tremendo ao mesmo tempo de emoção e de uma certeza de ferro.

—Bem-vindo de volta ao seu trono.

As palavras atingiram como uma ordem.

E a rua inteira respondeu em uníssono.

—Bem-vindo de volta ao seu trono!

—Bem-vindo de volta, Rei dos Caçadores!

Olhei para Isabella, a expressão impassível.

—Chega.

Por uma fração de segundo, algo perigoso cintilou nos olhos dela — o olhar de uma fera impedida de dar o bote.

Então ela sorriu.

Devagar. Bonita. Obediente.

—Se você diz chega — ela murmurou —, então chega. Uma palavra sua, e eu ponho a noite inteira aos seus pés.

Eu a afastei.

Não com força.

Só de um jeito definitivo.

Ela recuou meio passo e ficou ali, ereta, esperando como realeza em correntes pelo próximo comando.

Então o comunicador contra o meu peito vibrou.

Seco. Urgente.

Como alguém batendo à porta da morte.

Abri a linha.

Silêncio.

Em seguida, uma voz veio — cuidadosamente controlada, profundamente respeitosa e ainda assim incapaz de esconder o medo por baixo.

O Executor Supremo do Alto Tribunal.

—Meu Rei... confirmamos o seu retorno. — Cada palavra soava pesada, escolhida com terror. — Há um assunto que exige sua instrução.

Eu não disse nada.

Ele se apressou imediatamente.

—Quanto ao perdão e à ordem de proteção de três anos concedidos ao clã de lobisomens da linhagem de sangue de Selena... deve permanecer em vigor?

A chuva pareceu ficar mais alta.

Os olhos de Isabella se aguçaram. Em algum lugar atrás dela, ouvi respirações contidas prenderem na garganta de homens vestidos de preto. Não era surpresa.

Era medo.

Porque eles entendiam exatamente o que aquela ordem significava.

Por três anos, Selena atravessara o mundo sobrenatural intocada. Intocável. Ela ofendera pessoas que jamais deveria ter ofendido, cruzara limites que ninguém mais podia cruzar e ainda assim vivera em conforto e arrogância.

Não porque o clã de lobisomens dela fosse forte.

Mas por minha causa.

Porque eu mantivera a lâmina na bainha.

Porque eu ficara no escuro, onde ela não conseguia me ver, e garantira que todo mundo olhasse para o outro lado.

Encarei a chuva e respondi sem emoção.

—Façam o que quiserem.

A linha ficou muda.

Como se o homem do outro lado não conseguisse acreditar no que acabara de ouvir.

Então eu lhe dei a verdade, fria e limpa.

—Ela não tem mais nada a ver comigo.

A respiração do Executor Supremo ficou irregular. Quando ele falou de novo, a voz quase tremia.

—Entendido. O Tribunal revogará a ordem de proteção imediatamente e notificará todas as facções.

A ligação se encerrou.

Isabella inclinou a cabeça, um sorriso lento surgindo nos lábios, a satisfação cruel brilhando por baixo dele.

—Então você acabou mesmo de protegê-la.

Ignorei o comentário e enfiei o comunicador de volta por dentro do casaco.

Algo invisível se deslocou naquela noite escura de tempestade.

No instante em que a ordem de proteção foi revogada, o último escudo sobre o clã de lobisomens se estilhaçou.

Todo rancor enterrado por três anos.

Todo caçador privado de sangue.

Todo inimigo forçado a esperar.

Tudo voltaria de uma vez, como tubarões farejando sangue em águas abertas.

E aconteceria rápido.

Isabella ergueu uma mão.

A elite ajoelhada se levantou na hora, movendo-se como um só corpo, afiada como uma lâmina desembainhada.

Ela se aproximou de mim, a voz baixando para um murmúrio suave que ainda assim cortava como aço.

—Para onde agora? De volta ao seu trono? — O sorriso se aprofundou. — Ou você quer ver ela cair primeiro?

Olhei para as luzes da cidade na chuva, o olhar indecifrável.

Agora, Selena provavelmente ainda estava na cama, embrulhada em luxúria, vaidade e fantasias com o homem que ela realmente queria — certa de que eu voltaria atrás, como sempre voltara antes.

Ela não fazia ideia.

A coisa que ela destruíra esta noite não era eu.

Era o céu sobre o clã inteiro dela.

Eu me virei e caminhei em direção ao comboio. A água explodiu sob meus passos. Isabella se encaixou ao meu lado imediatamente, perto o bastante para parecer uma sombra.

No instante em que cheguei à porta do carro, o comunicador vibrou de novo.

Desta vez, não era o Tribunal.

Era o canal privado de alerta vermelho do trono.

Uma única linha piscou na tela.

[A primeira onda de caçadores cruzou a fronteira. Alvo: a fortaleza central do clã de lobisomens.]

Meus olhos se estreitaram.

A contagem regressiva tinha começado.

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